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Polêmica da mesquita mostra dificuldade em dissociar os islâmicos dos atentados de 11/9

Talita Boros

Do UOL Notícias<br>Em SãoPaulo

11/09/2010 07h00

  • Slideshow mostra imagens dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York; assista

Nove anos após os atentados de 11 de setembro, os 800 mil muçulmanos que moram na região de Nova York, nos Estados Unidos, ainda convivem com a imagem do terrorismo associada à da comunidade. O maior exemplo da associação dos ataques de 11 de setembro ao Islã é a recente polêmica sobre o projeto de construção de uma mesquita a duas quadras do Marco Zero, em Manhattan.

Segundo uma pesquisa recente do “The New York Times”, dois terços dos moradores de Nova York querem que o centro comunitário muçulmano seja transferido para um local menos controverso, distante do local onde ficava as torres gêmeas do World Trade Center, incluindo os que dizem ser favoráveis ao projeto.

Local onde a mesquita pode ser erguida

A Fundação Muçulmanos Americanos pela Liberdade e o “9/11 Truth” (11 de Setembro Verdade, em tradução literal), que busca esclarecer os atentados ocorridos nos EUA, apoiam a iniciativa do projeto –que deve custar US$ 100 milhões-- proposto pela instituição Cordoba Initiative (que busca promover melhores relações com os muçulmanos).

Os muçulmanos e apoiadores do projeto se baseiam no direito constitucional dos EUA de liberdade de religião para justificar o direito da construção da mesquita no local. “Os americanos têm direito na Primeira Emenda para exercer suas crenças religiosas. Esse direito se aplica igualmente a todos os americanos, inclusive aos muçulmanos”, afirmou Mike Berger, coordenador de mídia do grupo “9/11Truth”, para a reportagem do UOL Notícias.

É difícil explicar como grande parte dos nova-iorquinos está disposta a “sacrificar” a liberdade que os Estados Unidos garantem se opondo à construção do centro, segundo Ibrahim Ramey, responsável pelos programas de direitos humanos e civis da organização não-governamental Fundação Muçulmanos Americanos pela Liberdade (MAS, sigla em inglês), com sede em Nova York. “Algumas pessoas acreditam que a pressão popular pode triunfar sobre as liberdades constitucionais, mas a Constituição dos EUA não está sujeita a sondagens de popularidade”, afirmou.

Para Berger a explicação para o crescimento do número de pessoas contrárias ao projeto é a “falsa sensação de segurança” que o afastamento da mesquita do Marco Zero pode significar. “Essa falsa sensação de segurança é o que interessa para eles, mesmo que isso signifique a perda de seus direitos mais fundamentais, como a liberdade”, explicou.

De acordo com a pesquisa, no geral, 50% dos entrevistados são contrários à construção do projeto a duas quadras ao norte do terreno do World Trade Center, apesar da maioria acreditar que os empreendedores têm o direito de fazê-lo. O percentual de pessoas favoráveis é de 35%.

A oposição é mais intensa nos distritos mais externos da cidade --54% no Bronx-- mas é forte até mesmo em Manhattan, considerada um bastião da tolerância religiosa, onde 41% são contrários.

TVs do mundo todo acompanharam os atentados ao vivo; assista

“Nós gostaríamos de uma oportunidade para dialogar com nossos vizinhos não-muçulmanos sobre a construção do centro”, diz Ramey.

Famílias

A organização das famílias que perderam entes queridos nos atentados de 11 de setembro divulgou ontem (10) um comunicado afirmando que o grupo não possui uma posição oficial sobre a construção da mesquita já que não existe “um único pensamento sobre as questões levantadas pela localização do centro”.

O documento destaca que é preciso mostrar “ao resto do mundo, incluindo os próprios terroristas” que a “histeria popular” não deve quebrar o compromisso do país com os valores como a liberdade de religião e de pensamento.

“Osama bin Laden e seu grupo estão colhendo o que eles caracterizam como uma luta religiosa entre nós, e aqueles que apresentam todos os tipos de razões histéricas para se opor à construção do centro islâmico estão jogando o jogo deles e dando-lhes exatamente o que eles querem”, afirma o documento.

“A missão do Cordoba Initiative é alcançar e construir pontes. Por nossa parte, os membros do Conselho das Famílias de 11 de Setembro estendem as mãos aos líderes da iniciativa e pede a eles que se unam a nós na busca de elementos comuns de diversas culturas, para defender a paz da violência terrorista”, diz o comunicado.

Pesquisa

De acordo com a pesquisa do “The New York Times”, um quinto dos nova-iorquinos reconhece algum tipo de animosidade em relação aos muçulmanos na cidade e 33% disseram que, em comparação a outros cidadãos americanos, os muçulmanos são mais simpatizantes dos terroristas.

Ramey acredita que a maioria dos nova-iorquinos convivem com tranquilidade com seus “vizinhos” muçulmanos, apesar de algumas manifestações contrárias à comunidade.

“Os muçulmanos americanos não aceitam a ideia de culpa coletiva pelos ataques criminosos de 11 de setembro de 2001. Nós não planejamos, nem financiamos ou executamos os atentados”, afirmou em entrevista ao UOL Notícias. “Os ataques foram feitos por um violento grupo radical de muçulmanos. Mas os muçulmanos americanos não podem ser coletivamente culpados por eles”.

Berger acredita que a mídia norte-americana é a grande culpada por criar a imagem negativa do Islã. “Os atentados de 11 de setembro aconteceram no quintal dos nova-iorquinos e eles estão emocionalmente ligados ao Marco Zero (local onde ficava as torres gêmeas do World Trade Center). A mídia culpou os muçulmanos e a raiva da cidade se concentrou neles”, disse.

Para Ramey, a mídia realmente associa o Islã ao terrorismo, focando a religião à violência. “Há pouca atenção aos aspectos positivos da comunidade muçulmana nos Estados Unidos. Isso deve e tem que mudar”, disse.

Segundo Ramey, outras duas pesquisas desenvolvidas pelas empresas norte-americanas especializadas Gallup e Pew Research Center, apontam que os muçulmanos que moram nos Estados Unidos são bastante tradicionais do ponto de vista político, social e contra o terrorismo.

Em compensação, de acordo com o estudo elaborado pelo “The New York Times”, quase 60% dos nova-iorquinos afirmam que seus conhecidos têm sentimentos negativos em relação aos muçulmanos por causa do 11 de Setembro.

“Quando as pessoas são ameaçadas e percebem que estão vulneráveis a ataques, elas procuram um inimigo, um culpado. Os nova-iorquinos não são diferentes. Apesar disso, não acredito que a cidade como um todo se tornou abertamente hostil aos muçulmanos após os ataques de 11 de setembro”, afirmou Berger.

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