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Análise: Peronismo perde seu principal líder

Ex-presidente Néstor Kirchner, morto nesta quarta-feira, durante comício em Rio Gallegos em 2003  - Dario Lopez-Mills/AP - 2003
Ex-presidente Néstor Kirchner, morto nesta quarta-feira, durante comício em Rio Gallegos em 2003 Imagem: Dario Lopez-Mills/AP - 2003

Rodrigo Flores

Do UOL Notícias

27/10/2010 13h09

Se a morte é uma certeza, os problemas cardíacos que vitimaram Néstor Kirchner colocam um ponto de interrogação no futuro do peronismo. Afinal, mais do que um ex-presidente, a Argentina perdeu nesta quarta-feira (27) sua principal liderança política da década.
 

Kirchner construiu essa liderança a partir de credenciais políticas discretas. Chegou na eleição de 2002 tendo como principal cargo no currículo o governo da longínqua província de Santa Cruz, a menos populosa da Argentina. Lançou-se candidato dentro do fragmentado partido peronista, e elegeu-se aproveitando-se da profunda crise política em que o país mergulhou após a renúncia do presidente Fernando de la Rua (1999-2001). Retomou na campanha o mantra do peronismo: trabalhismo, crescimento e aproximação com os mais pobres. A população aprovou, e ele venceu.

No campo econômico, Kirchner herdou um país com economia em frangalhos. Em 2002, o Produto Interno Bruto argentino estava na casa dos US$ 102 bilhões, menos do que o país produzia em 1990. A indústria estava sucateada, o desemprego estava nas alturas, e o país patinava para tentar superar o regime de paridade entre o peso e o dólar instituído durante o governo de Carlos Menem (1989-1999) e a profunda crise política que o país mergulhou após a renúncia de Fernando de la Rua (1999-2001). Amparado por um ministro da economia forte -- Roberto Lavagna -- Kirchner reequilibrou as contas do governo, aprovou medidas de incentivo à economia e recuperou a confiança dos investidores. O risco-país argentino despencou, a pobreza caiu, e a economia ganhou novo fôlego.

As conquistas econômicas garantiram a Kirchner lastro político para unificar o país. Ele fez um governo de coalizão, de centro-esquerda, e neutralizou as principais forças de oposição -- pela esquerda, a sindicalista Elisa Carrió, e pela direita, o empresário Mauricio Macri.

Kirchner terminou seu governo com a popularidade em alta. Ele abriu mão da reeleição certa e transferiu seu lastro eleitoral para sua mulher, a então senadora Cristina Kirchner. Fora da presidência, ele nunca deixou de exercer forte influência no governo, e sua candidatura em 2011 pelo partido Justicialista (como é oficialmente conhecido o partido peronista) era tida como certa.

A morte de Kirchner tira de cena o principal ícone do peronismo. Sem uma liderança clara, e com uma oposição fortalecida e mais bem organizada, o partido será colocado em xeque nas eleições do ano que vem.

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