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Análise: Morte de Kirchner provocará reviravolta na política argentina

Fabiana Uchinaka e Thiago Chaves-Scarelli

Do UOL Notícias<br> Em São Paulo

27/10/2010 13h46Atualizada em 27/10/2010 14h41

A morte do ex-presidente Néstor Kirchner, uma das figuras políticas mais fortes da Argentina, deve representar uma reviravolta importante –e inesperada– na política do país, já que não há sucessor imediato para sua liderança nas fileiras do governismo, ao mesmo tempo em que a oposição se encontra fragilizada, segundo análise de especialistas consultados pelo UOL Notícias.

Kirchner governou o país entre 2003 e 2007, e manteve sua influência durante o governo de sua mulher, Cristina Fernandéz, que o sucedeu. No cenário político argentino, ele era dado como nome certo do Partido Justicialista (um dos herdeiros do peronismo) para disputar as eleições presidenciais do próximo ano.

“A morte dele vai afetar dramaticamente o governo de Cristina e o partido. Não há nome forte para substitui-lo, ele era o candidato. Agora deve haver uma disputa interna, o que abre espaço para a oposição”, analisou o ex-embaixador Rubens Barbosa, presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e autor do livro “Mercosul e a Integração Regional”.

Por enquanto o nome que mais se destaca para substituir o casal é o do senador e ex-governador da Província de Santa Fé, Carlos Reutemann, um ex-piloto de Fórmula 1 de 68 anos, que é conhecido por suas críticas aos Kirchners.

Na opinião do ex-embaixador, o efeito do vazio deixado por Kirchner e da disputa que isso pode provocar será “forte e profundo” na vida política argentina, mas quem mais sofrerá com a ausência dele é a presidente Cristina.

"Serão dias difíceis para ela. Kirchner tinha grande influência no atual governo, que não tem a maioria no Congresso. Ele tinha uma perspectiva de poder, que juntava as pessoas. Isso ela não terá mais, portanto ficará enfraquecida”, afirmou Barbosa.

Sobre o tempo que o ex-presidente passou à frente do governo argentino, o diplomata ressaltou que foram anos controvertidos, marcados por problemas políticos domésticos, pela grave crise econômica e por desgastes na relação bilateral com o Brasil e com os Estados Unidos. “A Argentina sofreu muito durante o governo dele”, resumiu.

Papel na estabilização econômica da Argentina

Para Carlos Eduardo Vidigal, professor de História da América da Universidade de Brasília (UnB), Kirchner teve importância na superação do período Carlos Menem, especialmente na estabilização econômica do país, com uma recuperação relativamente acelerada, e com avanços na área de direitos humanos.

"Logo no início de seu governo houve revogação de duas leis herdadas do governo Menem, a lei do Ponto Final e da Obediência Devida, o que permitiu abertura de novos processos judiciários", destaca Vidigal, em referência a duas normas que limitavam a responsabilidade dos militares que participaram dos crimes cometidos no período da ditadura.

O ex-presidente também ficou conhecido por sua postura personalista de governar, com excessiva concentração de poder, segundo os analistas. "Ele tinha um estilo agressivo com as oposições em geral, um método de atropelar votações no parlamento", lembra Vidigal.

A respeito das relações entre Argentina e Brasil, Kirchner também será lembrado por sua personalidade difícil. Barbosa lembra que ele não comparecia às reuniões marcadas com representantes brasileiros e por diversas vezes tornou as relações entre os países complicadas. Ao mesmo tempo, Vidigal aponta que houve grande convergência quanto à visão dos processos econômicos, importância da integração econômica e o papel que os dois países deveriam desempenhar regionalmente.

Atualmente, Kirchner era secretário-geral da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), e uma de suas últimas ações no cargo foi convocar uma reunião de emergência, em defesa da ordem democrática no Equador, quando uma rebelião policial colocou o país em estado de alerta.

Néstor Kirchner morreu na manhã desta quarta-feira aos 60 anos em El Calafate, na província de Santa Cruz, na Argentina. Kirchner foi hospitalizado às 8h15 (horário local) de hoje no hospital José Formenti, acompanhado por sua mulher, a atual presidente do país, Cristina Fernández Kirchner. A agência estatal argentina Télam confirmou que a morte foi decorrente de um infarto.

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