Todas as decisões do governo passavam por Kirchner, diz diplomata brasileiro

Do UOL Notícias*

Em São Paulo

O ex-presidente argentino Néstor Kirchner era uma figura política centralizadora, tanto durante seu governo (2003-2007) quanto na presidência de sua mulher, que o sucedeu no cargo, e sua morte pode acelerar o fim do "modelo Kirchner" na Argentina, segundo análise do diplomata José Botafogo Gonçalves.

De acordo com Gonçalves, o governo do casal Kirchner -- caracterizado por uma postura combativa, com relacionamento difícil com a imprensa e com diversos outros setores da sociedade -- já apresentava sinais de declínio e enfrentava popularidade em baixa. "A morte de Kirchner acelera isso", afirmou o especialista ao UOL Notícias.

"Néstor Kirchner era um homem muito centralizador. Embora ela [Cristina] tivesse seu espaço próprio, nada se decidia lá [no governo] sem passar pela aprovação pessoal dele. Tudo ia nas mãos dele", afirma o diplomata, que já foi embaixador do Brasil na Argentina.

Também dentro do Partido Justicialista Néstor Kirchner era um nome forte. Para Gonçalves, sua ausência abre espaço para avanço de lideranças modernas, mais moderadas e afastadas dos setores sindicalistas.

"A presidente ficou sozinha"

Cristina está à frente do país, "mas ficou muito sozinha", declarou Estela Carlotto, icônica presidente das Avós da Praça de Maio, organização que luta para encontrar os bebês roubados durante a ditadura (1976-1983).

"A partida de Kirchner dá a impressão de que foi o próprio presidente que morreu", indicou também o analista Rosendo Fraga, do Instituto Nueva Mayoria, citado pela agência AFP. "É a primeira vez na história da Argentina que o falecimento de alguém, que não é presidente, cria tal situação".

Néstor Kirchner morre de ataque cardíaco

Para Fraga, a morte de Néstor permite a sua mulher "exercer, enfim, o poder, a um ano das eleições presidenciais".

"É uma situação paradoxal: o governo se beneficia de um crescimento [econômico] anual de 9%, mas tem apenas o apoio de um argentino em três".

A razão para isso, segundo ele, é que Kirchner "deixou para a mulher um governo com uma economia sólida, mas em conflito com agricultores, a Corte Suprema, o Congresso, a Igreja Católica e as principais mídias".

Dessa forma, argumenta Fraga, Cristina teria diante de si uma oportunidade histórica: "a de cessar de ser a presidente de uma facção para tornar-se a de todos os argentinos".

Tendências

Diante deste cenário, o que se pode esperar do futuro da política Argentina? De acordo com a agência de notícias Reuters, algumas tendências possíveis são:

- Kirchner guiou o dividido Partido Justicialista para a esquerda, e sua morte pode permitir que dissidentes retomem seu espaço e pressionem o governo a ser mais moderado.

Líderes lamentam a morte de Kirchner

- Cristina Kirchner continua sendo uma peça importante na política argentina, e pode concorrer a um novo mandato no ano que vem. Mas o domínio que ela tinha como parte do "casal presidencial" deve ser atenuado. Provavelmente a presidente manterá o círculo íntimo de assessores do casal, mas pode se ver obrigada a estreitar relações com políticos peronistas mais moderados, como o governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli.

- Investidores e economistas estão ansiosos por verem se Cristina irá abandonar a estreita relação política que mantêm com o dirigente sindical Hugo Moyano, e se desistirá das acirradas disputas que têm mantido com o setor agrícola e com as empresas de comunicações.

- A facção peronista comandada por Kirchner provavelmente apresentará Cristina como candidata a presidente em 2011, mas ela deve buscar um vice com maior capacidade de construir consensos, e em curto prazo provavelmente irá fazer uma reforma ministerial.

*Com agências internacionais

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