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Para historiador argentino, corrupção e concentração de poder também fazem parte da herança de Kirchner

Thiago Chaves-Scarelli

Do UOL Notícias<br>Em São Paulo

2010-10-28T07:00:00

28/10/2010 07h00

A herança política do ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner, morto nesta quarta-feira (27) aos 60 anos, passa por sua atuação na recuperação econômica e política do país após a crise de 2001, mas também pela concentração de poder, que criou um clima de discórdia no país, na avaliação do historiador argentino Luis Alberto Romero.

"Sua maneira de acumular poder político consistiu em dividir permanentemente, enfrentando com violência sucessivos inimigos e gerando um clima de discórdia que terminou resultando intolerável", afirmou o historiador ao UOL Notícias.

Luis Alberto Romero é diretor do Centro de Estudos de História Política da Universidade Nacional de San Martín e leciona também na Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais, entre outras instituições. Um de seus livros mais importantes, “História Contemporânea da Argentina”, foi publicado no Brasil pela editora Zahar.

Kirchner morreu na manhã desta quarta-feira, vítima de um ataque cardíaco. O corpo começará a ser velado na manhã desta quinta (28), na sede do governo, e deve ser enterrado na sexta ou no sábado no cemitério municipal de Río Gallegos, na província de Santa Cruz, onde ele nasceu e foi prefeito entre 1987 e 1991.

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

UOL Notícias: Como a história argentina se lembrará de Néstor Kirchner?

Luis Alberto Romero: Não sabemos. Podemos apenas fazer um balanço provisório, no qual é necessário distinguir dois aspectos, ou duas etapas. Por um lado, Kirchner concluiu a resolução da profunda crise de 2001. Aproveitando a nova conjuntura econômica internacional, completou as políticas de saneamento econômico iniciadas por [Eduardo] Duhalde [presidente entre 2002 e 2003], afirmou a autoridade presidencial, canalizou os protestos sociais e assumiu algumas das demandas da sociedade mobilizada, como renovar a Corte Suprema ou retomar os julgamentos dos responsáveis de terrorismo de Estado. Isso lhe deu uma sólida base eleitoral, com a qual foi eleita em 2007, para sucedê-lo, sua mulher Cristina.

Por outro lado, descartou uma parte importante do programa de reivindicações surgido da crise de 2001. Particularmente, abandonou a reforma política, fortalecendo velhas estruturas e o clientelismo, e se absteve da reconstrução do Estado. Nesse aspecto se encontra a mais importante falha de Kirchner, que montou um sistema pra espoliar o Estado em benefício do reduzido grupo governante por ele liderado, e de empresários e corporações amigas. A formidável concentração no manejo de recursos lhe permitiu uma concentração igualmente formidável de poder de decisão. Sua maneira de acumular poder político consistiu em dividir permanentemente, enfrentando com violência sucessivos inimigos e gerando um clima de discórdia que terminou resultando intolerável. A morte o surpreende no momento em que essas contradições começavam a limitar suas possibilidades de permanecer no poder.

UOL Notícias: Que mudanças a morte de Kirchner pode significar no cenário político atual?

Luis Alberto Romero: É prematuro responder neste mesmo dia de sua morte. O manejo do poder que fez Kirchner demandava uma destreza política, decisão e autoridade que dificilmente teria, na mesma medida, Cristina Kirchner, que fica sozinha à frente do 'barco'. Continuar com a mesma política, de corrupção e de fragmentação, sem o apoio de seu falecido marido, pode conduzir a um enfrentamento de consequências imprevisíveis, não tanto entre governo e oposição, mas entre as distintas e heterogêneas frações do kirchnerismo.  

A alternativa seria que a presidente abandonasse esse caminho de facção e escolhesse se tornar a presidente de todos os argentinos, aceitasse o apoio que a oposição sem dúvida lhe oferecerá e tentar chegar, da maneira mais pacífica possível, às eleições presidenciais, para as quais falta um ano.  Mas é difícil que aliados tão pesados como a CGT [Confederação Geral do Trabalho, importante sindicato argentino] lhe permitam avançar nesse rumo.

UOL Notícias: O que representou Néstor Kirchner para as relações Brasil-Argentina? E qual a importância de Kirchner no contexto contemporâneo de integração latinoamericana?

Luis Alberto Romero: A pergunta se refere a políticas de longo prazo ou políticas de Estado. Minha impressão é que esse tipo de política nunca preocupou majoritariamente a Kirchner, interessado apenas na conjuntura e na melhor maneira de acumular poder em cada circunstância. Seu aliado mais estreito é a Venezuela, com quem comparte negócios espúrios à margem das relações diplomáticas normais. Não creio que entre na história como construtor da unidade latinoamericana, ou sequer como alguém que tenha feito aporte na relação da Argentina com o Brasil.

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