Documentos vazados pelo WikiLeaks expõem detalhadamente atos da família de Gaddafi

The New York Times

Scott Shane<br>Washington (Estados Unidos)

Após o Ano Novo de 2009, a mídia ocidental anunciou que Seif al-Islam el-Gaddafi, um dos filhos do líder líbio Muammar Gaddafi, havia pago US$ 1 milhão (R$ 1,67 milhão) a Mariah Carey para que esta cantasse apenas quatro músicas em uma festa na ilha caribenha de Saint Bart's.


No jornal controlado por ele, Seif negou a notícia – segundo ele, o grande gastador é o seu irmão, Muatassim, o assessor de Segurança Nacional da Líbia, segundo informações contidas em um documento diplomático sigiloso dos Estados Unidos, enviado da capital líbia, Trípoli.

Segundo o documento, foi também Muatassim que exigiu US$ 1,2 bilhão (R$ 2,01 bilhões) em 2008 do diretor da corporação nacional de petróleo da Líbia, supostamente para criar a sua própria milícia. Isso possibilitaria que ele ficasse à altura de outro irmão, Khamis, comandante de um grupo de forças especiais que “funciona efetivamente como uma unidade de proteção do regime”.


Neste momento em que o clã dos Gaddafi conduz uma luta sangrenta para manter-se no poder na Líbia, os documentos obtidos pelo WikiLeaks proporcionam um quadro vívido dos gastos faraônicos, do nepotismo desenfreado e das fortes rivalidades que definiram aquilo que um documento de 2006 chama de “Qadhafi Incorporation”, um termo baseado na preferência do Departamento de Estado por múltiplas grafias ao se referir à problemática primeira família da Líbia.

As informações sobre as extravagâncias do clã que chegaram aos ouvidos dos líbios, apesar do rígido controle exercido por Muammar Gaddafi sobre a mídia, contribuíram para a fúria pública, que agora explode nas ruas. E as tensões entre os irmãos poderão emergir com um fator importante para o caos neste país africano rico em petróleo.
Embora, de acordo com os documentos, os filhos de Gaddafi lutem entre si por cargos, à medida que o pai envelhece – por exemplo, três filhos brigaram pelos lucros oriundos de uma franchise da Coca-Cola –, todos eles sempre saíram com vantagens.

“Todos os filhos e favoritos de Gaddafi recebem grandes somas de dinheiro da Companhia Nacional de Petróleo e das subsidiárias de serviços petrolíferos”, diz uma mensagem diplomática de 2006.

Um ano atrás, uma dessas mensagens dizia que a proliferação de escândalos havia feito com que o clã entrasse “em parafuso” e proporcionou aos observadores locais “uma quantidade de sujeira suficiente para uma novela líbia”.

Muatassim repetiu a sua festa de Ano Novo em Saint Bart's, desta vez contratando os cantores populares Beyonce e Usher. Um “observador político local” de Trípoli que não foi identificado pelo nome disse a diplomatas dos Estados Unidos que “a extravagância e o comportamento libertino de Muatassim enfureceram alguns líbios, que consideraram as atividades do filho de Gaddafi irreverentes e embaraçosas para o país”.

Enquanto isso, um outro irmão, Hannibal, fugiu para Londres após ter sido acusado de abusar fisicamente da mulher, Aline, e depois da intervenção de uma filha de Gaddafi, Ayesha, que viajou a Londres “apesar de estar grávida de vários meses”, relatou o comunicado diplomático. Ayesha, juntamente com a segunda mulher de Muammar Gaddafi, Safiya, a mãe de seis dos oito filhos do ditador, “aconselhou Aline a declarar à polícia que havia se machucado em um 'acidente', e a não mencionar nada a respeito de abusos”, disse o documento.

Em meio às atividades escusas dos seus irmãos, Seif, o segundo filho mais velho do presidente, “desvinculou-se oportunamente das questões locais”, passando as férias em caçadas na Nova Zelândia. A sua organização filantrópica, a Fundação Internacional Gaddafi de Caridade e Desenvolvimento, enviou centenas de toneladas de ajuda humanitária para o Haiti destruído pelo terremoto, e ele era tido como um possível sucessor do seu pai.

O mesmo documento diplomático informa que “jovens contatos líbios disseram que Seif al-Islam é a 'esperança' da 'Libia al-Ghad' (a Líbia de amanhã), e homens com pouco mais de vinte anos de idade afirmaram que desejavam ser como Seif, e que ele era a pessoa certa para governar o país. Eles o descrevem como uma pessoa educada, culta e que deseja um futuro melhor para a Líbia”, ao contrário do seu irmão.

Mas isso foi naquela época. Atualmente, os jovens manifestantes nas ruas estão exigindo a deposição da família inteira, e foi Seif el-Gaddafi que declarou na televisão, na segunda feira, a uma da manhã, que a Líbia se depara com uma guerra civil e “rios de sangue” caso o povo não se una em torno do seu pai.

Quanto a Muammar Gaddafi, de 68 anos de idade, os documentos diplomáticos norte-americanos fornecem um retrato inquietante, descrevendo-o como um hipocondríaco que tem medo de viajar de avião sobre oceanos e que faz jejuns frequentes às segundas e quintas-feiras. Os documentos dizem que ele é um fã das corridas de cavalo e do estilo de dança flamengo, e que certa vez adicionou o termo “Rei da Cultura” à longa lista de títulos que ele concedeu a si próprio. Os documentos vazados dizem ainda que ele se faz acompanhar por toda parte de uma “loura voluptuosa”, a integrante mais graduada da sua equipe de enfermeiras ucranianas.

Depois que Muammar Gaddafi abandonou o seu programa para a aquisição de armas ilícitas em 2003, muitas autoridades dos Estados Unidos elogiaram a sua cooperação. Ao visitar o país com uma delegação congressual em 2009, o senador Joseph I. Lieberman, de Connecticut, declarou ao líder e a Muatassim que a Líbia é “um importante aliado na guerra contra o terrorismo, observando que inimigos comuns às vezes criam melhores amigos”.

Antes da visita de Condoleezza Rice à Líbia em 2008 – a primeira secretária de Estado a fazer tal coisa desde 1953 –, a embaixada dos Estados Unidos em Trípoli procurou acentuar os aspectos positivos do ditador. É verdade que Gaddafi tem “um comportamento notoriamente imprevisível e “evita fazer contato visual”, o documento advertiu Rice, e que “pode haver longos e desconfortáveis períodos de silêncio”. Mas ele é “um voraz consumidor de notícias”, acrescentou o relatório, que tem ideias distintas a respeito da resolução do conflito entre israelenses e palestinos por meio da instituição de um Estado único chamado “Isratine”.

“Um autoproclamado intelectual e filósofo”, disse o documento a Rice, “ele tem antecipado há anos a oportunidade de compartilhar com você as suas ideias sobre as questões globais”.

Tradutor: UOL

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