O que causa a revolta árabe? Quem será o próximo a cair? Os especialistas respondem

Thiago Chaves-Scarelli

Do UOL Notícias<br>Em São Paulo

O UOL Notícias convidou um time de especialistas para discutir cinco questões centrais na onda de levantes populares no mundo árabe: Estamos assistindo uma "revolução"? A culpa é da internet? Que governo será o próximo a cair? As respostas você pode conferir abaixo.

O processo em curso no norte da África e no Oriente Médio é uma "revolução"?

Elizabeth Iskander
Não acho que podemos chamar este processo de uma revolução integral, o que foi atingido até o momento é uma mudança parcial de regime. Mas isso não tira a relevância da incrível conquista desses levantes populares: a percepção de que a sociedade pode se engajar e mudar sistemas políticos que estiveram estagnados por tanto tempo é de fato revolucionária
Osvaldo Coggiola
Sim, questiona não só os governos, mas os regimes políticos e as suas relações internacionais

Vânia Carvalho
Com certeza, tanto no Egito como na Tunísia ocorreram revoluções. Se eventos similares ocorrerão noutros países, só o tempo o dirá
Mohamed Habib
Por enquanto, eu chamaria o processo de levantes populares. A revolução seria a concretização do processo e a transferência, de fato, do poder das mãos de um ditador para um governo democraticamente eleito pelo povo

 

A internet tem poder para derrubar ditaduras?


Elizabeth Iskander
A internet não derruba ditadores. Em sociedades nas quais a esfera pública é restrita e a imprensa é censurada, a internet deu às pessoas um mecanismo para comunicação e discussão. Mas o que a internet faz adquire a forma do propósito daquele que a utiliza. O caráter das mídias sociais em particular permitiu as pessoas a se conectarem e ofereceu um veículo para que os movimentos sociais e políticos existentes fossem visíveis e viáveis

Osvaldo Coggiola
Não

Vânia Carvalho
A internet em si não, mas a sua utilização como veículo para alcançar e mobilizar grandes grupos de pessoas para uma causa comum e alterar assim os destinos políticos de um país, sem dúvida

Mohamed Habib
Como instrumento, sim. Os últimos acontecimentos, principalmente no Egito, mostraram claramente que todas as formas de tecnologia de informação e de telecomunicação foram fundamentais para fortalecer o movimento popular para derrubar a ditadura. Imaginemos a ausência desses instrumentos de comunicação: esses milhares de jovens não teriam como passar informações para fora da praça. Ainda mais, sem esses instrumentos, esses jovens todos seriam mortos pelas armas das forças de segurança do ditador, antes do mundo saber do levante

 

Qual o elemento decisivo para que esta onda de protestos fosse deflagrada?


Elizabeth Iskander
Estagnação. Esses países estiveram sob ditaduras de líder único, frequentemente por décadas, com pouca perspectiva de mudança. Uma nova geração nasceu e cresceu sob o comando dos autocratas e está procurando possibilidades e tem esperança no futuro. Uma vez que uma rachadura aparece, a frustração empurra os muros que aprisionaram suas sociedades por tanto tempo

Osvaldo Coggiola
O estopim das mobilizações foi a crise econômica mundial. Afinal, foi a necessidade que provocou a imolação por fogo de um jovem na Tunísia. Há desemprego em massa nesses países

Vânia Carvalho
O chamado mundo árabe é a única região do mundo que não experienciou nenhuma transição do autoritarismo para a democracia nos últimos 40 anos. As frustrações de populações jovens (em muitos casos constituindo a maioria da população), desempregadas e sem perspectivas de futuro têm sido o motor destas revoluções

Mohamed Habib


Podemos listar um conjunto de fatores como, por exemplo, a degradação da qualidade de vida, miséria, falta de emprego, falta de perspectivas por um futuro melhor, sofrer nas mãos de um regime repressor, falta de democracia e de direitos políticos e, ainda, comparar com o relativo conforto na vida de países ocidentais, usufruindo dos seus direitos políticos, como o caso do Brasil

 

Quem ganha e quem perde com a onda de revoltas na região?


Elizabeth Iskander
Esta questão está ainda em aberto. No curto prazo, as pessoas tem um novo sentimento de poder e novas perspectivas diante de si. Se suas demandas por uma sociedade justa e democráticas fincarem raízes, então acho que todos nós ganharemos. Claramente há grupos que tentarão desviar o espírito dos protestos para seus próprios interesses. Se eles conseguirem, a democracia e a juventude árabe perderão

Osvaldo Coggiola
Depende do desfecho. Os povos já ganharam muito. Dizer que os EUA é que vão ganhar é uma mentira deslavada

Vânia Carvalho
Quem perde são os governantes depostos e quem ganha são as populações, se estas conseguirem efetivamente implementar um regime democrático. Tem-se falado muito da situação de Israel, mas o processo de paz tem sido até agora letra-morta, e não se pode manter uma dita estabilidade à custa da repressão de milhões de pessoas. Penso que estas potenciais mudanças de regime no Oriente Médio podem oferecer uma oportunidade a Israel e aos EUA de repensarem as suas relações com a região

Mohamed Habib
Quem ganha é aquele que vivia, injustamente, perdendo; e quem perde é aquele que vivia, ilicitamente, ganhando. Ou seja, o povo começaria a ganhar a sua dignidade para poder viver num Estado democrático de direito. Ganha a juventude do mundo árabe, que ainda vive marginalizada quando comparada com o Ocidente. Perdem os ditadores e os exploradores da região, incluindo as multinacionais petrolíferas

 

Na sua avaliação, quais governos serão os próximos cair?


Elizabeth Iskander






Os eventos na Líbia agora parecem ser um caminho sem volta, mas Gaddafi vê a si mesmo como defensor, não só de seu poder, mas da revolução. Assim como a liderança iraniana e a Guarda Revolucionária, é justificável para ele usar a violência, mesmo via Exército, contra seu próprio povo. Bahrein, Iêmen e Argélia testemunharam violência, mas até agora não atingiram a força de Tunísia, Egito e Líbia. Contudo, isso pode mudar a qualquer momento

Osvaldo Coggiola


Líbia e, depois, Argélia

Vânia Carvalho




Acho que a Líbia, o Iêmen e a Argélia devem ser acompanhados com atenção. As monarquias da região, nomeadamente a Jordânia e o Bahrein, apesar de enfrentarem protestos sérios, não estão ainda em situação de mudança de regime

Mohamed Habib






Colocando como critério os problemas socioeconômicos como causas prioritárias e depois os políticos, posso imaginar uma sequência a seguir: repúblicas e depois monarquias. Nas primeiras, após Tunísia, Egito e Líbia, teremos, possivelmente, Iêmen, Argélia e Marrocos. As monarquias serão mais democráticas, com parlamentos eleitos livremente, mais direitos políticos a mulher, melhor distribuição de renda, socializar a educação e maior liberdade de expressão

 

Os convidados


Elizabeth Iskander. Pesquisadora ligada ao departamento de Relações Internacionais da London School of Economics, com foco em política, sociedade e direito no Oriente Médio

Osvaldo Coggiola. Doutor em História Comparada das Sociedades Contemporâneas pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. É professor da Universidade de São Paulo

Vânia Carvalho Pinto. Doutora em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade de Hildesheim, Alemanha. É professora na Universidade de Brasília

Mohamed Habib. Egípcio radicado no Brasil, é vice-presidente do Instituto de Cultura Árabe e autor de diversos artigos sobre geografia política do Oriente Médio e do mundo árabe

 

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