Refúgio de autoritarismo, norte da África dobrou gastos militares na última década

Thiago Chaves-Scarelli

Do UOL Notícias<br>Em São Paulo

  • Khaled Desouk/AFP

O norte do continente africano, hoje palco de uma onda de revoltas populares contra os governantes que há décadas controlam a região, é também detentora de índices de investimentos militares acima da média mundial.

Em conjunto, os gastos militares do norte da África dobraram na última década, segundo as estimativas do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI), passando de US$ 5,1 bilhões em 2000 para US$ 10,5 bilhões em 2009.

Este salto foi um dos maiores entre as regiões analisadas pelo grupo, comparável apenas com índice observado no Leste da Europa. Na média, os gastos militares aumentaram no mundo em 50% entre 2000 e 2009.

Crise no Oriente Médio e países vizinhos

Na Tunísia, país que inaugurou a onda de levantes populares na região ao derrubar o presidente Ben Ali, mandatário por 23 anos, o aumento na década foi de cerca de 20%, para atingir US$ 570 milhões em 2009, uma quantia modesta para a região.

No Egito, onde o presidente Hosni Mubarak foi obrigado a renunciar após 30 anos de governo, os gastos militares sempre foram pesados. Apoiado por recursos dos Estados Unidos, o governo do Cairo já investia mais de US$ 3,5 bilhões anuais no campo militar no ano 2000, e desde então manteve o ritmo, com pequena alta em 2007.

O maior salto, no entanto, foi comandado por Muammar Gaddafi, que ainda se agarra ao poder em Trípoli, após mais de quatro décadas na chefia do regime. A Líbia ampliou seus gastos militares em 150% desde o ano 2000 e, em 2008, ultrapassou a barreira de US$ 1 bilhão anual.

Marrocos e Argélia acompanharam o ritmo e aumentaram seus gastos já bilionários em 127% e 104%, respectivamente, desde o ano 2000. Atualmente, a Argélia de Abdelaziz Bouteflika, que também enfrenta turbulência política, é o país com maior orçamento militar na região, com US$ 5,7 bilhões gastos em 2009.

Gunther Rudzit, analista internacional e ex-assessor do Ministério da Defesa do Brasil, explica que esse aumento foi alavancado no período em parte por causa do desempenho do gás e do petróleo, que respondem por parte importante da entrada de divisas na região, em especial na Argélia e na Líbia.

Relação entre funcionários militares e a força de trabalho total (segundo dados do Banco Mundial)
Brasil: 0,72%
Média mundial: 0,87%
Estados Unidos: 1%
Tunísia: 1,3%
Marrocos: 2%
Argélia: 2,3%
Mundo árabe: 3%
Egito: 3,3%
Líbia: 3,3%
Coreia do Norte: 11%

Militares x trabalhadores

Outros números do Banco Mundial confirmam a tendência militarista do norte da África. De acordo com os dados de 2008, em todos os países da região a porcentagem de militares em relação ao total da força de trabalho é maior que a média mundial.

Na Tunísia este índice é de 1,3%, enquanto a média mundial fica em 0,87%. Ainda maior é a taxa de militares em relação a força de trabalho no Marrocos (2%), na Argélia (2,3%), no Egito (3,3%) e na Líbia (3,3%).

E esses números nos permitem concluir que existe relação entre autoritarismo e investimento militar? “Um dos indicadores para avaliar se temos um regime ditatorial é justamente relação entre os agentes da segurança interna de um Estado e sua população”, comenta, com a ressalva de que esses valores devem levar em conta apenas o exército. "Além desses militares, existe a polícia política, que tem o papel de investigar a população mais diretamente”.

Rudzit lembra também que não basta apenas olhar para os números de gasto militar e para as armas pesadas que aparecem nas ruas da região.

“Por mais que apareçam tanques na televisão, o que mantém uma ditadura é armamento leve, tecnologia de interceptação de comunicação, escuta, rastreamento. Aparelhos de inteligência feitos para uso em guerra, mas que neste caso são usados contra a população. O Gaddafi, por exemplo, comprou muito dessa tecnologia da Europa”, explica.

Com relação à origem de todo esse material bélico, o analista diz que nos últimos anos a Rússia participou desse mercado. “Mas ainda é fundamentalmente o Ocidente quem fornece as armas”, destaca.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos