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De blogueiros egípcios à enfermeira de Gaddafi, WikiLeaks revela impressões sobre o centro das revoltas árabes

Thiago Chaves-Scarelli

Do UOL Notícias<br>Em São Paulo

05/03/2011 07h00

O governo dos Estados Unidos sabia que os governos de Ben Ali (Tunísia), Hosni Mubarak (Egito) e Muammar Gaddafi (Líbia) eram autoritários -- e nos bastidores diplomáticos Washington acompanhava tanto o nível de repressão praticado no norte da África quanto as possibilidades de reforma.

Parte do trabalho feito pelas embaixadas norte-americanas na região veio à tona com os vazamentos da organização WikiLeaks, que  aos poucos publica os telegramas diplomáticos trocados entre Washington e suas representações no mundo.

Entre outros detalhes, é possível descobrir que a embaixada em Tripoli se preocupava com a "enfermeira ucraniana" que costumava acompanhar Gaddafi em todos os lugares para onde o líder líbio viajava. Em outro documento, a representação dos EUA no Cairo antecipa que os blogueiros começavam a ganhar peso no quadro político do Egito. Sobre a Tunísia, a embaixada em Túnis não usou meias palavras: "o regime está esclerosado".

Leia abaixo alguns trechos selecionados entre os documentos norte-americanos vazamentos pelo WikiLeaks, nos quais é possível acompanhar a opinião recente dos EUA sobre os principais centros da atual onda de revolta no mundo árabe. Todos eles são telegramas enviados da capital do país em questão, e entre parênteses aparece a data da comunicação.

Corrupção na Líbia (2006)

“[Muammar] Gaddafi frequentemente discursa contra a corrupção no governo, mas a elite politicamente relacionada têm acesso direto a lucrativos contratos de negócios. (...) A família Gaddafi e outros políticos favoritos da Jamahiriya tiram proveito do poder de manipular as dinâmicas -- de muitos níveis e sempre em mudança -- dos mecanismos de governo da Líbia”

“Os interesses financeiros de Gaddafi e seus principais aliados apresentam oportunidades e desafios para os esforços de reforma na Líbia. No mínimo, parece seguro dizer que a reforma terá seus altos e baixos, a longo prazo, à medida que interesses individuais, do regime e da nação entrarem em jogo”

Gaddafi hipocondríaco (2009)

“(...) XXXXX nos contou que ele [Gaddafi] não sofre de câncer, mas é hipertenso e diabético. Gaddafi foi descrito como ‘hipocondríaco’, que insiste que todos os exames e consultas sejam gravados e depois gasta horas revisando-os com médicos de confiança. Embora a natureza específica de suas doenças continuam sem confirmação, parece que Gaddafi não está completamente bem. XXXXXX nos contou que a agenda de reuniões de Gaddafi – especialmente de noite – está menos intensa do que costumava ser e ele gasta mais tempo descansando durante o dia”

A enfermeira ucraniana (2009)

“Gaddafi parece contar fortemente com XXXXX e supostamente não pode viajar sem sua enfermeira ucraniana, Galyna XXXXX. Ele também parece ter intensa aflição ou medo de ficar em andares altos, supostamente prefere não voar sobre a água, e parece gostar de corrida de cavalo e dança flamenca. Sua recente viagem pode sugerir também uma menor dependência de sua lendária força de guarda feminina, já que apenas uma guarda-costas mulher o acompanhou a Nova York”

Transferência de poder (2009)

“Apesar dos persistentes rumores de que ele estaria doente e/ou repassando as decisões cotidianas como parte de uma sucessão orquestrada para um de seus filhos (a maioria aposta que será Saif al-Islam [foto]), Gaddafi continua ativamente envolvido com as questões mais sensíveis e críticas do regime, e em muitas que não são tão importantes”

“A realidade é que nem Saif al-Islam nem qualquer outro potencial sucessor desfruta atualmente de credibilidade e poder suficientes para manter o delicado balanço e manter o projeto de transformar (pelo menos superficialmente) a Jamahiriya”

Os militares do Egito (2009)

“Tantawi [ministro da Defesa e atual chefe de governo no Egito] acrescentou que qualquer país no qual os militares se metem em ‘assuntos internos’ estava ‘fadado a ter muitos problemas’. Ele destacou que os países devem estipular claramente os deveres dos militares em sua Constituição e os militares não deveriam se desviar dessas responsabilidades definidas”

Mubarak, candidato presidencial eterno (2009)

“[Hosni] Mubarak é um clássico secularista egípcio que odeia extremismo religioso e interferência na política (...). Com relação aos temas regionais, Mubarak tenta evitar conflito e poupar seu povo da violência que ele prevê que emergiria das liberdades pessoal e civil. Na cabeça de Mubarak, é muito melhor deixar alguns indivíduos sofrerem do que arriscar o caos para a sociedade como um todo. Ele tem apoiado avanços nos direitos humanos, em áreas que não afetam a segurança pública ou a estabilidade”

“A próxima eleição presidencial está marcada para 2011 e se Mubarak ainda estiver vivo é provável que ele concorra e, inevitavelmente, ganhe. Quando perguntado sobre a sucessão, ele diz que o processo seguirá a Constituição egípcia”

Blogueiros no Egito (2009)

“Os blogueiros egípcios estão desempenhando um papel cada vez mais importante ao alargar o escopo da expressão pessoal e do discurso político e social aceitável"

“O governo em geral permite aos blogueiros ampla latitude para postarem materiais críticos. Exceções a essa política são blogueiros que insultam diretamente o presidente Mubarak ou o Islã, e o governo tem detido e enviado para prisão aqueles que cruzam essa linha”

Estado de Emergência (2009)

“Desenhada para alcançar grupos extremistas islâmicos, a lei de Emergência tem sido usada pelo governo do Egito também mirando atividades da Irmandade Muçulmana, blogueiros e sindicalistas. O ministério do Interior suprime oposição política por meio de prisões, abusos e intimidação"

A ditadura da Tunísia (2006)

“Uma das famosas piadas sobre o presidente Zine el Abidne Ben Ali (...) é que ele tem três objetivos na presidência: continuar no poder, continuar no poder e continuar no poder”

“Em meses recentes, no entanto, especulações cada vez mais concretas têm sido pronunciadas por contatos bem informados (e observadores casuais) de que Ben Ali não planeja concorrer novamente e poderia até mesmo renunciar antes do final de seu mandato, em 2009”

“Levando em conta que Ben Ali tem um poder ditatorial na Tunísia, é difícil acreditar que vá renunciar espontaneamente (...). Seja lá como for a interpretação, o mero fato de que há um número crescente de tunisianos falando sobre sucessão e o fim da era Ben Ali é notável”

Regime esclerosado (2009)

“O presidente Ben Ali está envelhecendo, seu regime está esclerosado e não há um sucessor claro”

“Apesar do progresso econômico e social na Tunísia, seu histórico de liberdade política é pobre. Tunísia é um estado policial, com pouca liberdade de expressão e associação, e sérios problemas de direitos humanos”

“O problema é claro: Tunísia tem sido governada pelo mesmo presidente há 22 anos. Ele não tem sucessor. (...) E a corrupção no círculo mais próximo [de Ben Ali] está crescendo. Mesmo o tunisiano médio agora está ciente disso, e o coro de reclamações está aumentando. (...) Enquanto isso, cresce a raiva com o alto desemprego e desigualdades regionais da Tunísia. Como consequência, os riscos para a estabilidade do regime no longo prazo estão subindo”

 

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