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Obama desembarca em Brasília para primeira visita oficial ao Brasil

Maurício Savarese<br>Do UOL Notícias

Em Brasília

19/03/2011 06h01Atualizada em 19/03/2011 08h05

O status de estrela pop já não é o mesmo de 2008. Mas ao pisar no Brasil com a família – primeira escala da visita à América Latina – por volta das 7h30 deste sábado (19), o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tentará reviver momentos que o transformaram de um azarão na corrida pela Casa Branca no homem mais poderoso do mundo. Ele se reunirá com a colega Dilma Rousseff para aplacar atritos com o antecessor dela, mas o ato público principal, que aconteceria no Rio de Janeiro no domingo (20), porém, foi cancelado por questão de segurança.

O primeiro negro a governar a maior potência econômica e militar do planeta será o nono presidente americano a desembarcar no Brasil. Apenas o México recebeu mais mandatários dos EUA desde o início do século passado: foram 14. Apesar disso, diplomatas avaliam que o discurso de Obama no Chile, voltado à América  Latina, deve ofuscar o pronunciamento que ele fará no Theatro Municipal do Rio de Janeiro – seria na Cinelândia, com público esperado de 30 mil pessoas, mas a Casa Branca desistiu.

Não são esperados acordos ambiciosos para a visita do mandatário a Brasil, Chile e El Salvador. Em Brasília, Obama dará foco empresarial à sua vinda: tratará da bitributação de produtos comercializados entre os dois países e se reunirá com empreendedores brasileiros e americanos depois da conversa com Dilma. Ouvirá pedidos para defender a entrada do país no Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas até agora não deu nenhum sinal de que fará isso – uma concessão já feita à Índia, também emergente.

“Isso será mais uma operação de relações públicas, de ambas as partes, do que qualquer outra coisa”, disse ao UOL Notícias o cientista político David Fleischer, americano naturalizado brasileiro e professor da UnB (Universidade de Brasília). “Dilma quer que Obama esqueça o apoio que o ex-presidente Lula deu ao Irã, um grande inimigo de Washington. E Obama quer conhecer a colega, começar um relacionamento novo com uma potência regional. A região não é a prioridade dele, mas certamente vir aqui ajuda.”

Sombra da China

Obama é o primeiro presidente americano que chegará ao Brasil sem ser o principal parceiro comercial da maior economia da América Latina. Desde 2009, ano de agravamento da crise nos EUA, a China é o principal destino das exportações do país, superando US$ 30 bilhões no ano passado – contra US$ 27 bilhões dos rivais. A conversa com Dilma também deve tratar disso, já que a brasileira viajará para Pequim daqui um mês, antes mesmo de ir a Washington.

“Dilma está recebendo um presidente americano no primeiro semestre do seu governo, esse é um sinal de prestígio. Mas é também um sinal de que ela vai chegar a Pequim mais pressionada para conversar”, disse Luciano Dias, do IBEP (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos). “Com certeza as exportações vão estar na pauta, assim como o câmbio da China, que sufoca a indústria brasileira e a americana. O petróleo, que é uma área com crescente interesse chinês no Brasil, também vai ser tema para Obama.”

Semanas atrás, o presidente dos EUA enviou seu secretário do Tesouro, Timothy Geithner, para incentivar o Brasil e outros países latino-americanos a pressionar a China a valorizar sua moeda, o iuan. Não conseguiu formar uma aliança na região para barrar os produtos chineses e ainda ouviu críticas à postura americana de desvalorizar o dólar para competir no mercado internacional – uma medida que afeta diretamente o real e encarece as exportações brasileiras.

Apesar disso, os pedidos dos americanos não passarão despercebidos pelo Palácio do Planalto: mesmo em crise, os EUA têm PIB (Produto Interno Bruto) de quase US$ 15 trilhões ao ano. Dilma confia na recuperação do consumo no país de Obama para impulsionar a economia brasileira em 2011. E também espera obter receitas com o petróleo do pré-sal nos próximos anos vendendo ao principal mercado do mundo.

Protesto contra visita de Obama agita o Rio
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Teste de popularidade

Além do marketing de curto prazo, há também uma antecipação de 2012, de acordo com Fleischer, da UnB. “Obama se mostrar querido na América Latina é estratégico para as próximas eleições presidenciais. O voto latino é cada vez mais importante nos EUA e sem ele não dá para vencer. Em 2008, o republicano John McCain não foi tão mal entre os hispânicos. Para se reeleger, Obama deve precisar desse eleitorado, já que o elemento novidade já não existe para ele.”

Depois de promover uma polêmica reforma do sistema de saúde e de admitir que suas medidas na área econômica estavam demorando para fazer efeito, Obama foi responsabilizado pela derrota do Partido Democrata nas eleições parlamentares do ano passado. Perdeu a maioria na Câmara e encurtou sua vantagem consideravelmente no Senado. Hoje a avaliação de seu governo divide o país meio a meio.

Um termômetro para a popularidade de Obama seria o ato com ares de comício na Cinelândia. Mas o presidente que mais recebeu ameaças de morte na história americana preferiu transferir o discurso para um ambiente fechado. As 30 mil pessoas que eram esperadas, parte delas para protestar, terão de encontrar outro lugar para se fazerem vistas. Diplomatas atribuem a precaução à situação da Líbia, cujo ditador, Muammar Gaddafi, é pressionado com uma zona de exclusão aérea apoiada por Washington.

A passagem pela favela Cidade de Deus, na zona oeste do Rio, também promete pouco calor humano: membros da organização da passagem de Obama pelo local divergiram do protocolo da Casa Branca e desistiram de ajudar. O governo americano quer fora de casa os moradores a um raio de 300 metros do local por onde o presidente transitará.

Agenda

Obama pousará às 7h30h deste sábado na Base Aérea de Brasília ao lado da mulher, Michelle, e das duas filhas, Sasha e Malia. Às 10h, será recebido no Palácio do Planalto por Dilma, onde cumprimentam as delegações brasileira e americana. A reunião privada começa às 10h20, possivelmente com a presença do ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota – ex-embaixador em Washington e casado com uma americana.

A entrevista de Dilma e Obama a jornalistas acontece por volta das 12h. Quarenta e cinco minutos depois eles chegam ao Itamaraty, onde passarão brevemente por um fórum empresarial. O almoço está marcado para as 13h05, com baião de dois como prato principal. Por volta das 14h45, Obama falará na Cúpula de Negócios Brasil-EUA. Às 17h20, uma recepção oferecida por Dilma no Palácio da Alvorada encerra a visita.

A agenda na capital fluminense começa no domingo (20) às 9h30, com uma visita ao Cristo Redentor. A passagem pela Cidade de Deus, comunidade pobre que conta com uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), deve começar por volta das 11h. Pouco antes das 15h, Obama deve chegar ao Theatro Municipal para discursar. Protestos, possivelmente com membros do PT de Dilma, e fãs devem recebê-lo nas imediações. O presidente passa a noite na cidade e embarca para Santiago na segunda-feira (21).