Terremoto no Japão

Após Tchernobil e Fukushima, qual o futuro da energia nuclear? Especialistas respondem

Thiago Chaves-Scarelli

Do UOL Notícias<br>Em São Paulo

A explosão da usina nuclear de Tchernobil, que completa 25 anos nesta terça-feira (26), e o incidente atômico de Fukushima, provocada pela combinação entre terremotos e tsunamis que atingiu o nordeste do Japão no último mês,  reacendem a discussão sobre os riscos colocados pela geração de eletricidade a partir de usinas nucleares e contribui para alimentar a desconfiança da opinião pública, ao mesmo tempo em que se discute como suprir de modo sustentável a crescente demanda mundial por eletricidade.

A energia nuclear vale a pena? Há razão para temor? O UOL Notícias convidou cinco entre os maiores especialistas brasileiros da área para discutir esses e outros temas ligadas ao futuro da energia nuclear e as respostas estão apresentadas aqui. Você também está convidado a fazer parte do debate, deixando seu comentário abaixo do texto.

 

Quais serão as consequências de Fukushima para a indústria nuclear?


José Manuel Diaz Francisco
Todos os reguladores estão seguindo atentamente a situação de Fukushima para verificar se os requerimentos para o projeto, construção, operação e plano de emergência para uma usina precisam ser mais rígidos. Não há dúvida que haverá efeito na regulação, um repensar, uma autoavaliação frente às lições apreendidas. Isso aconteceu com [os incidentes de] Three Mile Island e Tchernobil, e com certeza acontecerá agora com Fukushima. As usinas nucleares continuarão a ser usadas, algumas regras devem ficar mais rígidas e as lições serão aprendidas

Luís Antônio Terremoto
A consequência será uma ênfase ainda maior nos aspectos ligados diretamente à segurança, em especial o aperfeiçoamento dos sistemas de refrigeração projetados para remover o chamado calor residual. Na maioria das usinas, a remoção do calor é efetuada por convecção forçada, que requer energia elétrica -- este aperfeiçoamento consistirá em aumentar a quantidade, a confiabilidade e a proteção de fontes capazes de fornecer esta energia elétrica em caso de emergência. Por outro lado, ganharão preferência os projetos de novas usinas que contemplarem a remoção do calor residual por convecção natural, sem necessidade de bombeamento acionado com energia elétrica
Greenpeace/Rodrigo Baleia
Ricardo Baitelo
Logo após o acidente já se verificou uma mudança geral de posicionamento. Mesmo que não se possa dizer que essa mudança seja definitiva, vários países decidiram rever seus programas nucleares, desde a Alemanha, que foi mais progressiva, até outros países da Europa e a China, por exemplo

Laercio Vinhas
A energia nuclear continua a ser uma opção viável. Depois de decisões emocionais, quando tudo acalmar, o ritmo de sua retomada poderá cair, mas ainda haverá um lugar para ela no mundo. Quanto à regulação, a área nuclear vai incorporar as lições apreendidas em Fukushima, mas é cedo para dizer quais serão essas lições. De modo preliminar, podemos imaginar duas áreas visadas: sistemas para refrigeração e procedimentos

Edson Kuramoto
A União Europeia, os EUA, China, Rússia e outros países que possuem usinas nucleares em operação estão analisando o acidente, mas ainda aguardam o completo domínio do ocorrido pelos técnicos japoneses, para, a partir de relatórios mais detalhados e conclusivos do que realmente ocorreu naquelas usinas, tomarem as decisões sobre a modificação do protocolo de segurança das usinas nucleares. Provavelmente, algumas alterações serão implementadas nos sistemas de geração elétrica de emergência. Os acidentes além da base de projeto serão analisados sobre outra ótica. A refrigeração passiva do núcleo do reator provavelmente se tornará obrigatória nos novos projetos de reatores, e os limites dos eventos externos deverão ser redefinidos

 

Há razão para temer novos acidentes em áreas com alta atividade sísmica?


José Manuel Diaz Francisco
Existem 442 usinas em operação no mundo hoje, uma parcela relativamente pequena está em áreas de alto risco de terremoto e tsunami. Essas usinas serão analisadas e terão seus níveis de segurança analisados. Se houver meio técnico para prevenir um incidente com tsunami, ele será trabalhado; se não houver modificação possível, elas serão paralisadas, não tenho dúvida. Mesmo nós no Brasil estamos passando por uma série de reavaliações

Luís Antônio Terremoto
O projeto de usinas nucleares pressupõe resistência a abalos sísmicos de magnitude elevada. Entretanto, medidas adicionais de segurança devem ser adotadas para aquelas usinas situadas em áreas litorâneas próximas das bordas de placas tectônicas, devido à maior probabilidade de ocorrência de tsunamis. Convém lembrar que o acidente nuclear no Japão foi desencadeado quando uma tsunami de aproximadamente 14 metros atingiu a central nuclear de Fukushima Daiichi – cujo projeto previa no máximo ondas de 5,7 metros – danificando os geradores diesel de emergência que deveriam remover o calor residual
Greenpeace/Rodrigo Baleia
Ricardo Baitelo
Sem dúvida. Os especialistas alertam para o caso da Califórnia, que tem quatro usinas nucleares, das quais duas estão exatamente na falha de San Andreas, uma área que pode ter um grande terremoto em algum ponto do futuro. Essas usinas próximas a essas falhas têm um enorme potencial para vazamento, como aconteceu em Fukushima

Laercio Vinhas
Há várias operando, no Japão, nos Estados Unidos, e elas são feitas para resistirem aos terremotos da região. No Japão, foram projetadas para sismo de 7,5 [na escala Richter] e aguentaram um terremoto de 9 -- ou seja, elas resistiram ao terremoto. O problema é a conjunção terremoto mais tsunami, é para essa combinação que devem ser criadas proteções

Edson Kuramoto
Nos EUA, há algumas usinas em locais com atividade sísmica, mas nada comparável ao Japão. Após o terremoto de magnitude 9 na escala Richter, eles já registraram mais de 400 abalos sísmicos acima do nível 5. As usinas no Japão, contudo, são projetadas para resistirem a terremotos, sendo que a magnitude é estimada de acordo com as características das falhas geológicas do local em que são construídas, tanto que, mesmo com a quantidade de terremotos que atingem o Japão, as usinas nucleares deles têm resistido. As 14 usinas nucleares da região afetada resistiram ao desastre. Desse número, 11 operavam no momento do terremoto e foram desligadas automaticamente. Infelizmente, três delas foram duramente atingidas pelo tsunami

 

Qual é o principal desafio da energia nuclear hoje?


José Manuel Diaz Francisco
A questão da confiança dos usuários é um grande desafio. A opinião pública associa "energia nuclear" com "bomba atômica", o que não é certo. A energia nuclear precisa de enriquecimento a 5% a 6% no urânio, a bomba atômica precisa de mais de 90%, então é impossível um reator desse tipo se transformar em uma bomba atômica. Além disso, crises como a de Fukushima também alimentam a desconfiança, até porque a imprensa estampa mortos do terremoto e do tsunami junto com o acidente nuclear -- que não causou nenhuma morte -- o que pode alimentar a desinformação e o preconceito da opinião pública. Se o Japão conseguir superar rapidamente este momento, será positivo para a indústria nuclear

Luís Antônio Terremoto
Questionamentos de caráter técnico (segurança operacional, destinação dos rejeitos radioativos) e político (proliferação de armas nucleares) acompanham historicamente o uso da energia nuclear para fins pacíficos. Entretanto, o salutar debate democrático suscitado por estes questionamentos legítimos acaba sendo distorcido por sensacionalismo barato e/ou oportunismo rasteiro, criando o principal desafio da energia nuclear hoje: a aceitação pública. Urge trazer o debate tanto quanto possível para o referencial científico, no intuito de esclarecer a população ao invés de simplesmente alarmá-la
Greenpeace/Rodrigo Baleia
Ricardo Baitelo
O problema dos dejetos nucleares é a maior deles porque não há uma resposta mundial para um depósito que pudesse estocar permanentemente estes materiais, que têm uma vida útil de décadas e depois precisam ficar guardados por centenas de anos. Com relação à desconfiança da população, esta é uma lição de casa para o setor nuclear. Hoje vemos uma total falta de transparência de sua parte, em escala mundial, o que aumenta o temor com esse tipo de energia

Laercio Vinhas
O fator psicossocial é o principal: é preciso fazer com que as pessoas recuperem o nível de confiança. Qualquer contaminação na área nuclear é muito mais fácil de medir e identificar do que outras contaminações e vazamentos industriais, mas ao mesmo tempo ela causa mais medo nas pessoas

Edson Kuramoto
O principal desafio da indústria nuclear é superar esta fase pós-acidente e evoluir quanto à aceitação pública. A administração dos rejeitos radioativos é o melhor exemplo que a indústria nuclear dá à sociedade, de como lidar com os resíduos em geral. Os rejeitos radioativos gerados nas usinas nucleares são classificados e separados de acordo com a atividade. Atualmente, está em desenvolvimento um processo de incineração para reduzir o tempo de armazenamento para até 100 anos. Sem esse processo, os rejeitos devem ser armazenados por milhares de ano. Deve-se esclarecer que os rejeitos são inertes, ficam segregados do meio ambiente e são monitorados continuamente

 

A energia nuclear continuará se expandindo? Isso é positivo?


José Manuel Diaz Francisco
A indústria nuclear para geração de energia elétrica é uma das indústrias mais seguras que existem, apesar da percepção pública negativa com os acidentes. Ao mesmo tempo, cresceu a preocupação com o aquecimento global; o carvão, que gera 40% da energia elétrica do mundo, é uma forma muito poluidora, enquanto a energia nuclear não tem essas consequências. Essa energia é segura, é limpa e seu uso no Brasil é fundamental para que o país possa continuar crescendo. Essa expansão é positiva

Luís Antônio Terremoto
Em um mundo populoso, com demanda por energia elétrica em larga escala crescente, torna-se premente a utilização de fontes de energia que gerem potência elétrica elevada ocupando uma área reduzida, ou seja, que possuam alta densidade energética. Neste aspecto, a energia nuclear é absolutamente imbatível e provavelmente se tornará mais presente na matriz energética de diversos países no futuro. Esta expansão é positiva, pois caso contrário seria preciso recorrer ainda mais a usinas termoelétricas que utilizam combustíveis fósseis e, consequentemente, causam poluição do ar e/ou aumento das emissões de dióxido de carbono para a atmosfera
Greenpeace/Rodrigo Baleia
Ricardo Baitelo
Apesar do grande alarde da indústria nuclear, nas últimas décadas vimos estagnação em relação ao número de reatores. Houve um congelamento após Tchernobil e o programa nuclear está sendo retomado aos poucos em alguns países, como China e Índia, mas alguns reatores já começam a sair de operação por causa do tempo de operação. Na ponta do lápis, temos um mercado muito aquecido para energia eólica e energia solar, que já são mais baratas que a energia nuclear. O ponto positivo [da estagnação da energia nuclear] é que a humanidade fica menos vulnerável aos riscos nucleares, não só com relação aos acidentes, mas também diante do estoque crescente de dejeto radioativo

Laercio Vinhas
A energia nuclear passou por um período sem muita construção, depois ressurgiu principalmente nos países com crescimento econômico grande e que não têm muitas alternativas, como é o caso de China e Coreia do Sul. As formas de energia eólica e solar são bem-vindas, mas elas ainda não conseguem gerar grandes pacotes de energia. Usinas térmicas a carvão ou óleo diesel são terrivelmente poluentes. Para o gás, o transporte é mais difícil do que o transporte dos combustíveis nucleares, que têm alta densidade potencial de energia

Edson Kuramoto
As usinas nucleares geram energia limpa, não emitem gases que contribuem para o aquecimento global e geram energia em grande escala, a um custo competitivo. E, como o custo do combustível nuclear tem um peso pequeno no custo de geração, a tarifa não sofre o impacto das variações de preços do urânio no mercado internacional. Essas vantagens fazem das usinas nucleares uma alternativa estratégica importante para vários países. Apesar dessas vantagens, o domínio da tecnologia do ciclo do elemento combustível ainda é um obstáculo para que um país ingresse no clube nuclear. O Brasil, os EUA e a Rússia são os únicos países que dominam o ciclo do elemento combustível e possuem reserva de urânio. Por esse motivo e, devido ao impacto desse acidente sobre a indústria nuclear, não ocorrerá uma expansão do parque instalado mundial, no curto prazo

 

Os especialistas


José Manuel Diaz Francisco é coordenador de Comunicação e Segurança da Eletronuclear


Luís Antônio Terremoto é pesquisador do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN)

Greenpeace/Rodrigo Baleia
Ricardo Baitelo é engenheiro e coordena a campanha de energia do Greenpeace

Laercio Vinhas é diretor de Radioproteção e Segurança Nuclear da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)


Edson Kuramoto é presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN)

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