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Após derrubar ditaduras, Tunísia, Egito e Líbia enfrentam dúvidas em relação a novos governos

Fabiana Nanô<br>Do UOL Notícias

Em São Paulo

30/10/2011 07h00

Dez meses depois dos primeiros protestos do movimento que ficou conhecido como Primavera Árabe, os paises da região do Oriente Médio e Norte da África estão em momentos bem distintos. O processo revolucionário atingiu países como Tunísia, Egito, Líbia, Síria, Iêmen, Jordânia, Marrocos, Argélia, Bahrein e Omã. Nos três primeiros, os regimes ditatoriais foram derrubados e novos governos devem emergir por meio de eleições livres e democráticas. Nos demais, os rebeldes ainda buscam, de maneira mais ou menos intensa, mudanças em seus governos.

Tunísia: a pioneira

Berço da Primavera Árabe, a Tunísia voltou a ganhar destaque nas últimas semanas, quando a população se preparou para ir às urnas para eleger os 217 membros de sua Assembleia Constituinte. O movimento islâmico Ennahda saiu vitorioso, mas novos protestos foram registrados depois do pleito. Em Sidi Bouzid, onde os levantes da Primavera Árabe começaram, os conflitos de agora não estão diretamente ligados à vitória do Ennahda, mas à eliminação de um partido comandado por um empresário sob a acusação de violação de normas de financiamento da campanha. A legenda liderou a votação na localidade.

O Ennahda já anunciou que conversará com outros partidos para formar um governo de coalizão. Para o cientista político e diretor de Relações Internacionais do Instituto de Cultura Árabe (Icarabe), José Farhat, o Ennahda "é um partido organizado, tem um programa que defende a igualdade das mulheres e o respeito às liberdades individuais”.

Assim como o partido líder das eleições, as outras legendas que vão compor a Assembleia Constituinte também estiveram na clandestinidade durante os 24 anos da ditadura de Ben Ali, que renunciou em janeiro. Entre as tarefas do colegiado está a de redigir uma nova Constituição e agendar novas eleições, que devem ocorrer no ínicio de 2013. E formar o governo interino que deverá comandar o país até lá.

A diretora do Centro de Estudos Árabes da USP (Universidade de São Paulo), Arlene Clemesha, considera que, embora o Ennahda seja organizado, o processo de transição a uma democracia que respeite as liberdades será “longo e complexo”. Este fator, segundo a professora, se aplica também ao Egito.

Egito: milhões na pobreza

“É imensa a pobreza no Egito, milhões de pessoas lá vivem na miséria absoluta. Então, o fator econômico foi determinante no processo revolucionário”, afirma Clemesha.

O diretor do Icarabe completa:  "É um país grande, industrial, com 80 milhões de habitantes e problemas sociais enormes". Na análise de Farhat, o Egito está seguindo os passos da Tunísia, só que de forma mais lenta.

O presidente Hosni Mubarak deixou o poder em 11 de fevereiro depois de controlar o Egito durante 30 anos. Uma junta militar assumiu o controle do país a partir de então. Depois de forçar a renúncia do ditador, os manifestantes agora pressionam pela transferência do governo para civis. Eleições legislativas estão marcadas para novembro no país, para formar um novo governo.

A professora da USP diz que os militares tentam uma transição limitada e controlada, e não exclui uma nova revolta egípcia. “É difícil prever, mas é plausível. Ainda há muito chão pela frente, este processo vai levar toda uma geração.”

Clique nos países do Oriente Médio e conheça a situação de cada um deles

Líbia: intervenção consentida

Processo diferente ocorre na Líbia, onde o ex-ditador Muammar Gaddafi permaneceu 42 anos no poder e foi morto no último dia 20 em Sirte, sua cidade natal. A Líbia foi o único país da Primavera Árabe a sofrer intervenção externa da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), ao mesmo tempo em que Gaddafi se negava a deixar o poder. O ex-ditador sempre reiterou que lutaria até o fim.

“A Líbia teve uma Primavera Árabe ditada de fora, então, apesar de o CNT [Conselho Nacional de Transição] prometer que vai fazer exatamente o ocorrido na Tunísia, não vai ser fácil o povo líbio aceitar tranquilamente”, diz Farhat.

Clemesha lembra que o CNT está atrelado a uma dívida com países ocidentais que encabeçaram a intervenção, sobretudo França e Itália, que dependem do petróleo líbio. Mesmo assim, ela afirma que, entre os árabes, há uma aprovação maior da intervenção. “Nas primeiras semanas dos protestos na Líbia, a população foi violentamente reprimida pelo regime e estava sem armas. Eu não defendo intervenções, mas foi uma guerra civil que os líbios estiveram dispostos a encarar.”

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