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Caso Assange expõe a 'hipocrisia internacional'

Miguel Medina/AFP
Em foto, de fevereiro deste ano, Assange acena antes de ser julgado na Suprema Corte, em Londres Imagem: Miguel Medina/AFP

Renuka Rayasam

Der Spiegel

2012-08-18T06:00:00

18/08/2012 06h00

Por quase dois anos, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, tem driblado os esforços para extraditá-lo para a Suécia, onde enfrenta acusações de agressão sexual. Agora com a decisão do governo equatoriano de lhe conceder asilo em sua embaixada em Londres, Assange conseguiu outro adiamento. O que acontecerá a seguir está longe de estar claro.

O governo britânico retaliou ameaçando invocar uma lei pouco usada para remover o status diplomático da embaixada, para que possa enviar Assange para a Suécia. A lei foi aprovada em 1987 após um policial britânico ter sido baleado no lado de fora de uma embaixada líbia. Fazê-lo seria uma violação dos princípios por trás da Convenção de Viena de 1961, que considera as embaixadas como áreas extraterritoriais, para que os diplomatas possam trabalhar sem serem perturbados nos países estrangeiros. Além disso, Londres prometeu prender Assange tão logo ele coloque os pés em solo britânico, algo que terá que fazer caso deseje viajar para o Equador.

É claro, o jogo ainda não acabou em torno dos supostos crimes sexuais do australiano. Ao divulgar uma enorme quantidade de comunicações confidenciais, principalmente cabogramas diplomáticos americanos e documentos militares do Iraque e do Afeganistão, pelo seu site WikiLeaks, Assange se tornou um fora-da-lei internacional instantâneo. Assange disse temer que assim que chegasse à Suécia, ele seria extraditado para os Estados Unidos, onde enfrentaria acusações sérias sobre a divulgação de documentos confidenciais do governo americano.

Os jornais alemães veem o mais recente desdobramento na saga de Assange como uma disputa política de poder entre o Reino Unido e o Equador, que conta com seu próprio histórico de abuso de direitos humanos. Assange é apenas um pequeno peão em um jogo maior.

Ao conceder asilo para Assange, os editorialistas concordam que o país sul-americano está desdenhando o restante do mundo e que o presidente Rafael Correa está exibindo sua força no cenário internacional. Enquanto isso, a resposta do Reino Unido, eles dizem, ocorre em detrimento das normas internacionais estabelecidas. Julian Assange, eles argumentam, não vale o problema.

O jornal conservador “Frankfurter Allgemeine Zeitung” escreve:

“Independente do que alguém pense de Julian Assange e seus atos, ele não é nem Osama Bin Laden e nem um chefão da máfia. É por isso que, colocando de modo cuidadoso, foi um erro o governo britânico ter desafiado o Equador com uma lei que lhe permite retirar os requerentes de asilo das embaixadas em casos individuais. (...) Ao seguir por esse caminho, o governo britânico fez um favor para Assange. Agora ele pode continuar construindo seu próprio mito.”

“O fato de um governo como o Equador, entre todos, agora poder se passar como defensor dos direitos humanos é vergonhoso, mas isso acontece por culpa de Londres. Infelizmente, também significa que o fato de Assange ter sido acusado de estuprar uma mulher na Suécia passou para um segundo plano.”

O esquerdista “Die Tageszeitung” escreve:

“O caso do fundador do WikiLeaks, Julian Assange, se tornou um exemplo inacreditável de hipocrisia internacional. Ambos os países envolvidos, o Reino Unido e o Equador, são culpados.”

“Longe da atenção do mundo, o governo equatoriano está expulsando um ex-funcionário do governo de Belarus que desfrutou de três anos de asilo no Equador. O motivo foi que há seis semanas, o presidente bielo-russo, Alexander Lukashenko, esteve em Quito para assinar vários acordos de comércio e aplicar pressão. Logo depois o homem, Alexander Barankov, foi preso em Quito. Tendo isso como fundo, as palavras floreadas do ministro das Relações Exteriores do Equador sobre a importância do asilo político não têm muito valor.”

“O Reino Unido, por sua vez, ameaçou abertamente invadir a embaixada equatoriana com força policial para prender Assange. Isso representa um absurdo diante de sua própria posição apoiada internacionalmente de proteção dos representantes diplomáticos e cumprimento da Convenção de Viena.”

“O fato de o governo britânico estar preparado até mesmo a sugerir esse precedente é um duro golpe. O fato de estarem dando tamanha importância para Assange é surpreendente.”

O centro-esquerdista “Süddeutsche Zeitung” escreve:

“Por que (o presidente equatoriano Rafael Correa) tem tanta simpatia por um australiano chamado Julian Assange...? Porque Correa vê o fundador da plataforma de denúncia WikiLeaks como uma alma gêmea. Ao publicar os despachos confidenciais que expuseram acima de tudo os Estados Unidos, Assange agradou Correa. Seu lugar é ao lado de Hugo Chávez da Venezuela, Evo Morales da Bolívia e Fidel Castro de Cuba como os mais importantes oponentes de Washington. Em segundo lugar, o equatoriano temperamental vê uma chance de intervir na política mundial e exibir a nova autoconfiança da América do Sul.”

“Oferecer asilo está em seu direito. Na prática será muito mais complicado. A Suécia está pressionando pela extradição (de Assange) não devido ao WikiLeaks, mas devido à sua suposta agressão sexual. Por esse ponto de vista, ele não pode ser formalmente considerado como vítima de perseguição política. De qualquer forma, Correa tem direito de proteger sua embaixada de invasão pela Inglaterra. Mas ele deveria exibir respeito igual por seus críticos em casa.”

O jornal de negócios “Financial Times Deutschland” escreve:

“Julian Assange provavelmente enviará uma carta de agradecimento ao governo britânico – apesar de provavelmente sem selos equatorianos. O fundador da plataforma de denúncia WikiLeaks, que está escondido na embaixada em Londres do país andino, obteve asilo político no Equador. Com isso, ele recebeu muita divulgação gratuita pelos britânicos desajeitados, que catapultaram o australiano quase esquecido de volta às manchetes. E ele até mesmo está em seu papel favorito de Davi contra os Golias do mundo, principalmente os Estados Unidos e o Reino Unido.”

“O Reino Unido ajudou Assange novamente a se retratar como vítima de perseguição política. (...) Na verdade, Assange está fugindo de uma longa sentença de prisão na Suécia. E o governo equatoriano, acima de tudo o presidente Rafael Correa, quer alfinetar os detestados Estados Unidos ao conceder asilo para Assange. O relacionamento entre os dois países é tenso há anos.”

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