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Enfermeira de hospital onde Chávez morreu espera 24h para ver corpo

Kehisber Diaz, 46, enfermeira do hospital onde Chávez morreu, se junta a milhares de venezuelanos em longa fila para se despedir do "comandante" - Carlos Iavelberg/UOL
Kehisber Diaz, 46, enfermeira do hospital onde Chávez morreu, se junta a milhares de venezuelanos em longa fila para se despedir do "comandante" Imagem: Carlos Iavelberg/UOL

Carlos Iavelberg

Do UOL, em Caracas

09/03/2013 06h00

Enfermeira no oitavo andar do Hospital Militar de Caracas, a venezuelana Kehisber Diaz, 46, trabalhou durante 18 dias sabendo que o então presidente Hugo Chávez estava internado um lance de escada acima.

Para sua tristeza, porém, não teve a oportunidade de vê-lo antes de sua morte, ocorrida na terça-feira (5).

Se o encontro não pôde acontecer no hospital, Diaz decidiu encarar a fila quilométrica para ver o corpo do “Comandante” --como os chavistas costumam se referir ao líder bolivariano.

Acompanhada de familiares e amigos, ela chegou para ver o corpo às 13h de quinta-feira (7). Exatas 24 horas depois e ainda na fila, assistia ao funeral de Estado por um telão instalado na frente da Academia Militar, onde o corpo é velado.

Durante a cerimônia, o público não pôde entrar no salão, o que aumentou ainda mais o tempo de espera. “Ele [Chávez] sacrificou a vida por nós, venezuelanos. Por isso ele merece que a gente venha aqui e espere o que for necessário para vê-lo”, afirma.

Diaz conta que nenhum colega seu viu Chávez no hospital durante sua internação. Questionada sobre os boatos que colocavam em dúvida a presença do então presidente no hospital, a enfermeira é direta: “Nós sabíamos que ele estava lá, não precisavam mostrá-lo”.

Após ficar em Cuba durante dois meses e meio para se tratar de um câncer, Chávez voltou à Venezuela na madruga do dia 18 de fevereiro e foi direto para o hospital. Mas a ausência de informações sobre seu estado de saúde e de imagens fizeram crescer os boatos de que ele já estivesse morto a mais tempo --algo que o governo sempre negou.

Água e comida são distribuídas

A poucos metros de Diaz, Coromoto Molina, 51, não desanimava na fila, apesar das 24 horas de espera, às quais se somam outras 4 horas de ônibus para percorrer os 174 km que ligam a cidade de Valencia, onde mora, à Caracas.

“Chávez foi... é um pai para a gente, um humanista, um homem ético. Ele sempre demostrou amor por nós, e nada mais justo que nós façamos o mesmo por ele”, diz, corrigindo o tempo verbal de sua fala, como se o líder bolivariano ainda estivesse vivo.

  • Carlos Iavelberg/UOL

    Soldados distribuem água para venezuelanos que aguardam horas em fila para ver o corpo de Chávez

Para aguentar todo esse tempo na fila, Molina, assim como milhares de venezuelanos, conta com a infraestrutura oferecida pelo governo.

Dezenas de banheiros químicos foram instalados ao longo do passeio dos Próceres; soldados passam distribuindo água, suco, lanches e frutas. A reportagem do UOL também viu quando uma mulher passou na garupa de uma moto jogando guarda-chuvas para que as pessoas se protegessem do forte sol.

Tudo isso gera centenas de pilhas de lixo, principalmente formadas por garrafas plásticas de água, que vão se acumulando apesar da presença de equipes de limpeza e caminhões de lixos.

“Maduro fará o que Chávez queria”

Na fila por mais de seis horas, o autônomo Vladimir Guallardo, 43, diz que o país tem que seguir em frente mesmo com a dor pela perda de Chávez. “Nicolás Maduro [presidente interino] vai fazer o que Chávez queria. Se Chávez o escolheu, é porque ele está preparado. Se Chávez tinha fé nele, nós também teremos.”

Sobre a espera na fila, Guallardo afirma que é pouco em comparação com o que Chávez fez pela população. “Ele nos deu 14 anos da sua vida. O que são poucas horas de nossas vidas para ele?”

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