Topo

Fim do visto de turista aumentaria fuga de brasileiros para os EUA, diz autora

Jose Luis Magana/Reuters - 15.jul.2013
Manifestantes marcham contra proposta de anistia a imigrantes ilegais, em Washington D.C, nos EUA Imagem: Jose Luis Magana/Reuters - 15.jul.2013

Daniel Buarque

Em Londres

13/10/2013 06h00

O adiamento da visita oficial da presidente Dilma Rousseff aos Estados Unidos por conta dos recentes escândalos sobre espionagem americana ao Brasil acabou também deixando para depois o debate a respeito dos vistos para turistas dos dois países.

O encontro entre Dilma e Barack Obama neste mês serviria para o anúncio oficial de um acordo sobre o "Global Entry", um sistema atualmente oferecido a visitantes “confiáveis”, que permite a entrada em território americano sem passar pelas filas de imigração. A negociação está sendo vista como um primeiro passo rumo ao fim da exigência de visto prévio.

  • 14346
  • true
  • http://noticias.uol.com.br/enquetes/2013/10/13/sem-a-obrigacao-de-visto-de-turista-voce-acha-que-mais-brasileiros-viveriam-ilegalmente-nos-eua.js

Se o visto deixar de ser exigido, como o Brasil tem defendido, entretanto, vai haver um aumento grande e repentino no número de imigrantes brasileiros vivendo ilegalmente nos Estados Unidos, segundo a professora americana Maxine Margolis.

Autora do livro "Goodbye, Brazil - emigrantes brasileiros no mundo", que acaba de ser lançado simultaneamente em inglês e em português (pela ed. Contexto no Brasil), Margolis explicou, em entrevista ao UOL, que existe uma relação entre o aumento das viagens de turismo internacional de brasileiros e o aumento da emigração.

“A falta de visto de turista é o que está impedindo muitos brasileiros de se mudarem de vez para os Estados Unidos, já que a alternativa é vir ilegalmente pelo México, o que é caro e perigoso”, explicou, fazendo referência à dificuldade que muitos possíveis imigrantes teriam para conseguir até mesmo entrar no território americano.

Segundo ela, é muito comum que o visto de turista seja usado como ferramenta para que os potenciais imigrantes consigam entrar nos Estados Unidos. Uma vez que estão no país, os brasileiros passam a viver de vez no país de forma permanente, ilegalmente.

“Se os dois governos concordarem que não é preciso ter visto, vai haver um ‘boom’ para o turismo nos EUA, mas também vai encorajar imigração" disse.

Diáspora brasileira

Professora emérita de Antropologia da Universidade da Flórida, Margolis pesquisa comunidades de brasileiros nos EUA há anos e é autora de várias obras sobre o tema, como os livros "Little Brazil: an Ethnography of Brazilian Immigrants in New York City" (Pequeno Brasil: uma etnografia dos imigrantes brasileiros em Nova York) e "An Invisible Minority: Brazilians in New York City" (Minoria invisível: Brasileiros em Nova York).

Em “Goodbye, Brazil”, ela trata da recente onda de emigração de brasileiros para todo o mundo, que nunca tinha sido registrada na história do país até os anos 1980, e que agora registra mais de 3 milhões de expatriados. A pesquisadora traça um perfil desses brasileiros, das suas motivações e das suas comunidades no mundo.

“Historicamente, os brasileiros nunca deixavam o Brasil, como americanos nunca deixam os EUA. É um pais formado por imigrantes, nao de emigrantes”, disse, ressaltando que os números de imigrantes até o final da década de 1970 eram muito pequenos.

A partir dos anos 1980, entretanto, a situação econômica do país começou a incentivar brasileiros a se mudarem para outros lugares do mundo.

“A partir de 1986, depois do fracasso do Plano Cruzado, as pessoas da classe média começaram a perder a esperança de que a economia brasileira melhoraria”, disse Margolis.

As razões para a emigração de brasileiros são primordialmente econômicas, explicou. “Era difícil para os brasileiros de classe média manterem seu estilo de vida com os salários do Brasil, e eles perceberam que se saíssem e tivessem empregos básicos, poderiam juntar dinheiro para um pé-de-meia e voltar ao Brasil para investir numa vida melhor.”

A pesquisadora explica que é muito comum, no início de processos migratórios, que as pessoas pensem em voltar ao país original depois de alguns anos, mas o que acontece é que as pessoas vão adiando e acabam se estabelecendo de forma mais fixa.

Retornos na crise

Por conta da crise internacional do final da última década e do aumento do desemprego especialmente na Europa, Margolis diz que é possível perceber um movimento modesto de retorno de brasileiros a sua terra natal, mas diz que “ninguém sabe exatamente quantos voltaram”.

Segundo ela, entretanto, o movimento neste sentido aconteceu especialmente no auge da crise, em torno de 2008, quando o Brasil parecia estar em uma posição privilegiada na economia mundial. Atualmente, diz, o fluxo de migração continua sendo de saída de brasileiros, mesmo que em menor quantidade.

“Acredito que menos gente esteja saindo do Brasil, mas não tenho números. Hoje há menos pessoas chegando do Brasil para viver nos EUA, mas o processo não parou completamente. Suspeito que muitos brasileiros voltaram ao Brasil e descobriram que os salários não são tão bons quanto elas esperavam, e o custo de vida é muito mais alto até mesmo do que em Nova York”.

'Brasfobia'

Em seu livro mais recente, Margolis fala sobre um comportamento típico das comunidades de brasileiros no exterior, o hábito de essas pessoas falarem mal uma das outras, que ela chama de “brasfobia”. “São brasileiros que dizem ‘somos desorganizados porque os brasileiros, quando vão para o exterior, mudam, se tornam egoístas, nao têm espirito de comunidade’”, explicou.

“Descobri que isso existia em Nova York, e várias outras pesquisas encontraram coisas parecidas em Boston, na Flórida e em outros lugares na Europa. Esse tipo de fofoca e de falar mal uns dos outros existe entre outras comunidades, e acho que acontece porque a imigração coloca muita pressão sobre as pessoas."

Segundo ela, entretanto é uma ideologia que não funciona muito na prática. “Brasileiros no exterior são amigos de brasileiros, eles se ajudam, mesmo que de forma desorganizada.”