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Cresce preocupação com gesto considerado antissemita na França

IAN KINGTON/AFP
28.dez.2013 - O francês Nicolas Anelka (à dir.) comemorou seu gol pelo West Bromwich, no Campeonato Inglês, imitando gesto antissemita Imagem: IAN KINGTON/AFP

Scott Sayare

Do New York Times News Service

04/01/2014 06h00

Ninguém parece saber o significado do "quenelle", um gesto de mão vagamente ameaçador inventado e popularizado por um humorista francês, amplamente criticado como sendo antissemita, mas claramente não muito agradável e que parece estar se espalhando.

Fãs do humorista Dieudonné M'Bala M'Bala enviam para ele fotos de si mesmos fazendo o gesto, conhecido como "quenelle", diante de monumentos históricos, ao lado de autoridades públicas involuntárias, em casamentos, debaixo d'água e nas fotos de turma do colégio, mas também, cada vez mais, ao lado de sinagogas, memoriais do Holocausto e placas de rua exibindo a palavra "judeu". Pelo menos um jovem parece ter posado para um quenelle do lado de fora de uma escola primária em Toulouse onde, no ano passado, quatro judeus foram mortos por um autoproclamado agente da Al Qaeda.

Líderes judeus, grupos antirracismo e autoridades públicas apontam que o quenelle, que também é o nome de um bolinho de peixe que é uma iguaria regional francesa, lembra fortemente uma saudação nazista. M'Bala M'Bala, que é conhecido como Dieudonné, insiste que é nada mais que uma piada "antissistema" para seus iniciados, a maioria deles homens jovens, alguns deles imigrantes descontentes dos subúrbios, alguns deles extremistas de direita xenofóbicos.
 
Mesmo assim, quando ele se agita contra "o sistema" no palco ou em seus populares vídeos na Internet, Dieudonné geralmente aponta para uma suposta cabala de judeus "feitores de escravos", governantes secretos que se ocultam na memória do Holocausto. O humorista, filho de um camaronês negro e uma francesa branca, costuma argumentar que os judeus reivindicam injustamente um monopólio do status de "vítima".
 
Nos últimos meses, líderes militares descobriram que o quenelle era popular entre os soldados –há fotos online abundantes que mostram isso– e o chefe do Estado-Maior do exército proibiu o gesto depois que dois soldados de infantaria uniformizados foram penalizados depois de realizarem um em frente a uma sinagoga em Paris. Na semana passada, um importante jogador de futebol francês, Nicolas Anelka, foi amplamente criticado por realizar um quenelle durante uma partida; Dieudonné e seus seguidores aplaudiram.
 
Tony Parker, um astro dos San Antonio Spurs, e um colega de equipe, Boris Diaw, ambos franceses, foram criticados por fazer o gesto. Parker, notando que sua foto fazendo a saudação já tinha três anos, emitiu um pedido de desculpas dizendo que não estava ciente até recentemente das "preocupações muito negativas associadas ao gesto".

Liberdade de expressão em pauta

Anelka, como outras celebridades e atletas franceses vistos fazendo o quenelle, disse que o gesto não foi antissemita. Mas as autoridades dizem que estão monitorando a disseminação do quenelle com crescente alarme. Grupos judeus têm pressionado o governo para que faça algo, apesar de não estar claro o que pode ser feito: a saudação tradicional nazista, por exemplo, não é expressamente proibida aqui, e qualquer esforço para proibir o quenelle levantaria questões de liberdade de expressão. Nem a proibição do gesto provavelmente conteria o antissemitismo que aparentemente está por trás dele.
 
Mas a intervenção do Estado nesses assuntos é tradicional aqui, com o discurso racista fortemente restringido pela lei, e na semana passada o ministro do Interior, Manuel Valls, anunciou que tentaria proibir o humorista de se apresentar na França.
 
A decisão de Valls ocorreu após a exibição de um vídeo no qual Dieudonné lamenta que um proeminente jornalista judeu não morreu "nas câmaras de gás". Segundo a lei francesa, essas palavras provavelmente seriam consideradas "incitação ao ódio racial". Jacques Verdier, o advogado de Dieudonné, disse que elas poderiam render ao seu cliente dezenas de milhares de euros em multas. Mas está menos claro se há alguma base legal para uma proibição de suas apresentações.
 
"A liberdade criativa é certamente importante", disse Valls, falando na rádio "RTL". "Mas no caso de Dieudonné, trata-se de ódio. E a responsabilidade de um ministro é dizer: 'Pare, basta'.  'Basta', precisamente porque ele está fazendo sucesso na Internet e em seus shows, e sua plateia precisa compreender."
 
Valls, um socialista de inclinação centrista, recebeu apoio de partidos tradicionais tanto da esquerda quanto da direita, apesar de notadamente não da Frente Nacional, o partido de extrema direita, que é contra a proibição, se posicionando como defensor da liberdade de expressão.

Governantes são feitores de escravos, diz humorista

Independente do resultado, Dieudonné, cujos vídeos online foram assistidos por milhões, agora se vê no centro de um debate nacional –um que ele parece apreciar.
 
"Eu sinto que sou apenas um intermediário, hoje, entre as pessoas e esse punhado de governantes  feitores de escravos", disse Dieudonné em um vídeo recente. "O movimento quenelle está atingindo seu ápice. Nós estamos no centro da atenção de todos, da TV, rádio, imprensa, 'La quenelle! La quenelle!'" ele disse rindo.
 
Ele então argumentou que o presidente francês não foi na verdade eleito pela população, mas sim escolhido pelo líder do CRIF, a organização judaica mais proeminente da França.
 
Mesmo assim, ele disse não ser antissemita. Por meio de seu empresário, Dieudonné recusou um pedido de entrevista. Segundo Verdier, o quenelle é na verdade um símbolo "antissistema, antiestablishment, antiesquerda, antidireita" que visa provocar a indignação dos politicamente corretos. Verdier disse que seu cliente, que lançou o gesto em 2005, "desaprova" quando é usado para promover o antissemitismo.

Autoridades criticam humorista

Essa alegação é dissimulada, argumentam as autoridades públicas. Por trás da "ambiguidade habilmente mantida" por Dieudonné, está o "antissemitismo mais claro e mais distinto", disse um funcionário do Ministério do Interior, que falou sob a condição de anonimato, de acordo com as regras internas.
 
"Ele é um especialista em turvar as questões", disse o coronel Bruno Louisfert, um porta-voz do exército que investigou o uso do quenelle por soldados no ano passado.
 
O CRIF, o grupo judeu, pediu que qualquer pessoa vista realizando o quenelle em frente a algum local judeu seja indiciada. O Ministério da Justiça respondeu favoravelmente, disse Roger Cukierman, o presidente do CRIF.
 
Os apelos de Cukierman por uma intervenção do governo se tornaram urgentes, ele disse, depois que um grupo de jovens judeus foi preso em Lyon, acusado de agredir pessoas que realizaram o quenelle. Os seis foram postos sob investigação formal recentemente.
 
Um resultado não intencional da intervenção do governo é a grande publicidade gratuita para Dieudonné, que deverá iniciar uma turnê de comédia stand-up neste mês. O governo rejeita essa preocupação, disse o funcionário do Ministério do Interior, porque Dieudonné já é bastante popular.
 
Essa é uma situação que o governo está buscando mudar. Mas uma proibição pode não ser a abordagem ideal, sugeriram vários comentaristas online.
 
A proibição de Dieudonné "apenas permite a ele que faça o papel de vítima do 'establishment' ao qual ele alega que seu 'quenelle' é uma resposta", escreveu Arthur Goldhammer, um observador da política francesa no Centro para Estudos Europeus de Harvard, em uma postagem recente em blog.