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Se fosse jovem, lutaria nos protestos, diz ucraniano de 80 anos em SP

O ucraniano Michael Kosimenko, 80, que mora em SP - Rafael Mansano
O ucraniano Michael Kosimenko, 80, que mora em SP Imagem: Rafael Mansano

Julia Affonso

Do UOL, em São Paulo

28/02/2014 06h00

A distância que separa o aposentado Michael Kosimenko, 80, morador da Vila Bela, zona leste de São Paulo, da dona de casa Ludmila Szymanskyj, 77, na Vila Brasilina, na zona sul, já foi bem maior do que os atuais sete quilômetros.

Antes de chegar ao Brasil, no fim da década de 40, seu Michael morava em Samary, uma cidade a oeste da Ucrânia, perto da fronteira com a Polônia, a mais de mil quilômetros de dona Ludmila, em Slaviansk, na região leste, próxima à Rússia. Hoje, ambos fazem parte da Comunidade Ucraniana de São Paulo e acompanham de perto os protestos anti-governo que já deixaram mais de 80 mortos e 700 feridos no país.

"Se eu estivesse lá e fosse mais novo, estaria lá na frente [das manifestações]. Tem que defender a terra da gente", afirma seu Michael, que deixou o país em 1942, aos 9 anos.

Imigrantes ucranianos em SP acompanham protestos na terra natal

No último domingo (23), ele, dona Ludmila e outras dezenas de expatriados e descendentes de ucranianos se reuniram na Igreja Católica Ucraniana, na Vila Bela, bairro da zona leste da capital paulistana, para uma missa em memória das vítimas que morreram nos protestos contra o governo do presidente Viktor Yanukovych.

"Acho que vai dar muita confusão ainda. Perigoso acontecer na Ucrânia, o que aconteceu no Egito (o país enfrenta uma crise política desde a derrubada do ex-presidente Mohamed Morsi)", diz o aposentado.

Impasse com a Rússia motivou revolta

As manifestações começaram em novembro, depois que o presidente Viktor Yanukovych anunciou sua decisão de não assinar um acordo de cooperação com a União Europeia, que poderia, no futuro, ter a Ucrânia como um de seus membros.

A questão, no entanto, é mais complexa e tem raízes na história recente do país, nascido após a desintegração da ex-União Soviética.

O país está no meio de uma disputa de forças entre grupos que querem mais proximidade com a União Europeia e outros que têm mais afinidade com a Rússia.

Ele e dona Ludmila fazem parte de um conjunto de milhares de pessoas que deixaram a Ucrânia durante os confrontos entre alemães e soviéticos na Segunda Guerra Mundial. De navio, a maioria dos imigrantes ucranianos que escolheu morar no Brasil chegou ao país pela ilha das Flores, no Rio de Janeiro.

“Eu e minha família viemos com quase nada, com pouca roupa. Nossa mala era recheada de nossas tradições e vontade para progredir. Ficamos muito felizes quando chegamos no Brasil. O povo era muito receptivo”, conta dona Ludmila.

Em contato frequente com a família em Kiev e em Slaviansk, ela afirma que os parentes apoiam os protestos e o afastamento do agora presidente deposto. Na quinta-feira (26), o novo governo interino da Ucrânia foi anunciado na capital ucraniana, após a deposição de Yanukovych, na semana passada. O novo premiê, Arseniy Yatsenyuk, foi escolhido pelos opositores que vinham protestando no país. O gabinete inclui ainda vários líderes ativistas.

"Tudo o que ele fazia, esperava o outro [Putin] falar, para depois agir. Chegou a um ponto que o povo não aguentou mais", explica dona Ludmila, que tem família em Kiev. "Eles [ativistas] queriam entrar na União Europeia, e ele [Yanukovych] não quis. A Rússia tem amor próprio para não deixar a Ucrânia sair da órbita dela."

Rico em recursos minerais e dono de um solo fértil, a região que corresponde ao atual território ucraniano é palco de frequentes enfrentamentos. Entre 1300 e 1600, poloneses e lituanos dominaram a maior parte do país. Anos mais tarde, em 1648, a Ucrânia foi partilhada entre Polônia e Rússia. A partir da criação da União das Repúblicas Soviéticas, em 1922, o território do centro-leste do país foi incorporado ao regime.

"A Ucrânia está sempre lutando para ser independente. No começo eram os turcos, tártaros, depois os poloneses, a Hungria, Rússia e Alemanha", diz seu Michael. "Minha família nasceu na mesma cidade, mas em épocas de dominações diferentes. Meu pai é húngaro, minha mãe e meus irmãos são poloneses e eu sou ucraniano. É uma salada."

A vida no Brasil

Os ucranianos que chegaram a São Paulo formaram uma colônia na zona leste da cidade e em São Caetano do Sul, ABC paulista. Na região, a maioria trabalhava na Indústria Matarazzo e em um frigorífico em Santo André.

"Tinha gente na Lapa, em Pirituba, mas só na Vila Bela tinha 60 famílias", lembra seu Michael.

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Desde que chegou ao Brasil, o aposentado nunca mais voltou à Ucrânia. O contato com a família foi perdido aos poucos, em cartas nunca respondidas. As lembranças, no entanto, ele não esquece.

"Eu fecho os olhos e vejo o lugar onde eu morava. Tem uma igreja, uma escola lá embaixo, outra mais perto de onde eu morava. A gente pulava a cerca e dava no colégio", conta.

Além das lembranças, dona Ludmila leva consigo os costumes ucranianos, que estão por todo o lado na casa. Nos quadros da parede, nos bordados das almofadas e na foto que tirou aos 12 anos, no navio que a levou ao Brasil.

A pouco mais de 40 dias da Páscoa, ela prepara ainda os tradicionais ovos coloridos, os Pêssanka. E entre uma pintura e outra, ela dá aula de ucraniano aos netos.

“É importante você manter a língua. Se você quer destruir um país, destrua sua língua", afirma a ucraniana.

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