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Internacional

Protagonista de foto icônica, "homem do tanque" nunca foi identificado

Do UOL, em São Paulo

04/06/2014 06h00

Vinte cinco anos depois do massacre na praça da Paz Celestial em Pequim (China), o homem solitário que se colocou em frente a tanques de guerra, protagonista de uma foto icônica e símbolo da luta pela democracia, permanece anônimo. O “homem do tanque”, como ficou conhecido, nunca teve a identidade nem destino conhecidos. 

A revista "Time" apontou o "homem do tanque" como uma das cem pessoas mais influentes do século 20. Pela foto "O Rebelde Desconhecido de Tiananmen", Widener concorreu ao Prêmio Pulitzer e ganhou diversos prêmios. Ainda assim, nenhuma agência de notícias ou organizações de direitos humanos conseguiram determinar o que pode ter ocorrido com o homem que desafiou as forças de segurança chinesas.

Ao UOL, em 2009, o fotógrafo Jeff Widener disse acreditar que o protagonista da imagem era “apenas um jovem garoto que ganhou algumas semanas de liberdade e alegria e terminou perdendo amigos e familiares no massacre”. “Eu gostaria de ter conhecido ele... Gostaria de apertar sua mão.”

Cronologia: massacre da praça da Paz Celestial (1989)

  • 15 de abril

    Morre o líder reformista Hu Yaobang, ex-membro do Partido Comunista

  • 22 de abril

    No funeral de Hu Yaobang, manifestantes pedem reformas; governo ignora

  • 13 de maio

    Início da greve de fome dos estudantes, que acampam na praça Tiananmen

  • 15 de maio

    Visita do presidente da União Soviética, Mikhail Gorbachev, a China

  • 20 de maio

    Com o crescimento dos protestos, o governo chinês decreta lei marcial

  • 4 de junho

    Soldados invadem a praça e entram em confronto com manifestantes desarmados

  • 5 de junho

    Manifestante solitário para diante de comboio de tanques e vira ícone

  • 6 de junho

    Exército chinês monta guarda nos arredores da praça e impede aglomerações

Teorias

O governo chinês nunca divulgou o saldo de presos ou mortos no confronto na praça da Paz Celestial (em chinês, Tiananmen) em 1989. Estima-se porém que milhares de chineses foram presos por participarem do protesto pró-democracia da “Primavera de Pequim”. “Muitos deles foram sentenciados à prisão perpétua ou executados –não se sabe se o homem do tanque estava entre eles”, escreveu a jornalista Lily Kuo em um artigo no site “Quartz” sobre o tema.

Em entrevista ao “Epoch Times”, jornal independente de Nova York especializado em notícias da China, um professor de Hong Kong afirmou ser amigo do “homem do tanque”. Ele seria um arqueólogo de Changsha, que foi para Pequim participar do protesto pró-democracia. Esse professor diz que o amigo fugiu para Taiwan após o ocorrido e trabalhava no Museu do Palácio Nacional –mas a instituição negou a informação.

Outra teoria, exposta pelo tabloide britânico "Sunday Express", afirma que Wang Willin, um estudante de 19 anos que fora preso na época, seria o “homem do tanque”. Porém, seu nome não aparece em nenhum documento do Partido Comunista chinês sobre detenções nos protestos.

Em 2006, o documentário “Tank Man”, da rede de TV norte-americana PBS, procurou testemunhas da cena para tentar identificar seu protagonista, também sem sucesso.  

A foto do “homem do tanque”, bem como termos ligados ao massacre da praça da Paz Celestial, é censurada pelo governo chinês. Isso fez com que a foto, ainda que icônica para o mundo, permaneça completamente desconhecida por muitos jovens na China. Para driblar a restrição, ativistas online criam memes com a foto icônica.

Bastidores dos protestos pró-democracia

Os protestos que culminaram no massacre de 300 a 4.000 pessoas na praça da Paz Celestial –os números são estimados por organizações de direitos humanos– ocorreram em um cenário de derrocada dos países comunistas

Foi em 1989, alguns meses após as manifestações em Tiananmen, que o Muro de Berlim veio abaixo, marcando o fim de uma era.

Montagem mostra Tiananmen, a praça da Paz Celestial, no centro de Pequim (China), em 1989 e em 2014 - AP - AP
Acima, praça da Paz Celestial tomada por manifestantes em 1989; abaixo, o local em 2014
Imagem: AP

O estopim dos protestos foi a morte de Hu Yaobang, ex-secretário geral do Partido Comunista chinês. Considerado um liberal reformista, ele foi expulso do governo por Deng Xiaoping em 1987, o que na época provocou protestos estudantis.

Em 15 de abril de 1989, Yaobang morreu após sofrer um ataque cardíaco durante uma reunião do Politburo --partido comunista da União Soviética. Logo que foi anunciada a sua morte, estudantes da Universidade de Pequim começaram a reclamar a reabilitação da visão oficial de Hu Yaobang.

Na semana seguinte, durante o funeral de Yaobang, um grupo de estudantes se reuniu na praça da Paz Celestial e reivindicou um encontro com o primeiro-ministro Li Peng, conhecido por ser o adversário político de Yaobang.

O pedido foi negado. Então, os estudantes incitaram uma greve nas universidades de Pequim.

No princípio, as manifestações reuniam 500 pessoas. Em 29 de abril, três dias após o jornal "Diário do Povo" acusar os estudantes de causar tumultos, os protestos contavam com cerca de 50 mil pessoas nas ruas de Pequim. Algumas estimativas indicam que no auge dos protestos a praça da Paz Celestial chegou a reunir um milhão de manifestantes.

Greve de fome dos estudantes

Em 13 de maio, os estudantes na praça da Paz Celestial iniciaram uma greve de fome. Dois dias depois, Gorbachev visitava a China, marcando a distensão das relações entre a China e a União Soviética. Mas a tensão em Pequim permaneceu. Em 20 de maio, o governo decretou lei marcial, sem surtir efeito.

A greve de fome completava a terceira semana quando os líderes do governo decidiram adotar a força para encerrar a crise. Forças de segurança foram deslocadas para Pequim. Manifestantes tentaram conter o avanço com barricadas, mas de nada adiantou. Em 4 de junho, as forças de segurança invadiram a praça com tanques.

O dia do massacre: 4 de junho de 1989

Manifestantes desarmados entraram em confronto contra os soldados, que responderam com tiros. O caos se espalhou pelas ruas ao redor da praça. Relatos divulgados ao longo desses anos desenham um cenário de caos. Moradores de edifícios vizinhos eram alvejados diante da janela. Feridos eram levados aos hospitais por condutores de riquixás. Em algumas horas, a crise se encerrava e deixava um cenário de campo de batalha.

Foi no dia seguinte, 5 de junho, que o protesto produziu a imagem que se tornou um ícone das manifestações. Uma coluna de tanques segue pela avenida após o fim da crise. Um manifestante solitário para diante dos tanques e interrompe o avanço do comboio. O homem desafia o Exército por alguns minutos, até ser expulso do local. Ao longo dos anos houve especulações sobre a sua real identidade. Seu paradeiro continua um mistério.

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