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Marcha Republicana: "Fiquei devastada, mas não senti medo. Por isso estou aqui"

Peter Dejon/AP
A praça da República, em Paris, foi tomada por manifestantes durante a "Marcha Republicana" Imagem: Peter Dejon/AP

Adriana Ferreira Silva

Para o UOL, em Paris

2015-01-11T21:55:00

11/01/2015 21h55

Atendendo ao chamado do presidente da França, François Hollande, mais de um milhão de parisienses saíram de casa para participar da “Marcha Republicana”, cujo objetivo era protestar contra os ataques terroristas que assombraram o país na última semana. O ponto de encontro era a praça da República e para facilitar o acesso, todos os meios de transporte circularam com passagem gratuita o dia todo. A segurança também foi reforçada por milhares de policiais e militares.

Às 11h, a praça estava tomada por manifestantes e o movimento era intenso em estações de metrô como Les Halles, próxima ao Museu do Louvre. Ali, para embarcar, era necessário ter paciência e esperar por até três trens. Uma vez dentro do veículo, a atmosfera era de alegria e cumplicidade. Portando cartazes, adesivos, camisetas ou faixas que traziam estampada a frase "Je Suis Charlie" (“eu sou Charlie”), lema de resistência e homenagem aos mortos da revista “Charlie Hebdo”, as pessoas trocavam sorrisos e cumprimentos.

Por volta das 14h30, a praça da República estava completamente tomada e era impossível caminhar. Para percorrer um espaço de poucos metros, gastava-se até 20 minutos. Em cima de postes, bancas de jornal ou apinhados sobre o monumento central da praça, jovens entoavam a "La Marseillaise", hino nacional francês, ou puxavam coro para frases como "Je Suis Charlie" e "Liberté, Laicité" (liberdade, secularismo).

Aos poucos, as redes 3G desapareceram e os telefones ficaram mudos. Muitos se abrigaram num McDonald’s próximo para usar o wi-fi gratuito da lanchonete. Às 15h, horário em que a marcha deveria começar, era impossível caminhar. As centenas de crianças que estavam ali buscavam refúgio, espremendo-se entre as pernas dos pais ou montadas no cangote dos adultos.

Os irmãos Amy, 9, e William, 12, escoravam-se na mãe reclamando de cansaço. "Ontem jogamos videogame até a 1h!", disse William. A mãe, Brigitte Hazard, levou 45 minutos de sua casa, na periferia oeste de Paris, até o centro, para participar do encontro. "Fiz questão de trazê-los para que eles compreendam a importância da liberdade de expressão e de culto", explicou. "Os direitos que conquistamos com a Revolução Francesa não podem simplesmente desaparecer."

Como a maioria que estava ali, Brigitte dizia-se revoltada. "O assassinato desses jornalistas [da revista “Charlie Hebdo”] é inadmissível. Fiquei devastada com o que aconteceu nos últimos dias, mas não senti medo. Por isso estou com meus filhos aqui."

Finalmente, às 16h, a praça da República começou a se esvaziar e, no centro, as pessoas depositavam velas, flores e lápis coloridos em torno de papéis que traziam os nomes dos mortos da revista "Charlie Hebdo". Além de prestar sua homenagem, muitos aproveitaram para fotografar os animados jovens que protestavam de cima do monumento.

Entre eles, o casal Constance Gozhal e Gilles Cormior, ao lado dos filhos pequenos, Thea, 4, e Tidiane, 5. "É a primeira vez que eles vêm a uma manifestação", afirmou o pai. "Temos obrigação de lhes falar sobre o que aconteceu regularmente para evitar que isso se repita. Nossa esperança está neles", completou a mãe.

Constance contou estar preocupada com a consequência dos violentos episódios da última semana. "Trabalho na periferia ao lado de muçulmanos, judeus e cristãos. Entendo que há muitas dificuldades e desigualdade social, mas nada justifica a violência. Temos de superar juntos esses problemas e jamais suportar algo como o que aconteceu", disse ela. "É preciso que os governos promovam mudanças políticas e econômicas, não só na França, mas no mundo todo", completou Gilles.

Do outro lado da praça, Nassira Sebbouh, francesa de origem argelina e muçulmana, também iniciava os filhos, Abdel, 15, e Mahmoud, 10, nas manifestações pacíficas. "Não estou aqui somente pelo que aconteceu ao 'Charlie Hebdo', mas principalmente para protestar contra o terrorismo", afirmou Nassira. "Os terroristas não são muçulmanos, eles são bandidos. Nossa religião é contra a violência. Sou muçulmana e convivo e tenho amigos judeus e cristãos. Acredito que o que está acontecendo hoje é uma grande manifestação de solidariedade."

Enrolado em uma faixa onde se lia a palavra "coexistência", nome de uma organização de jovens que prega a liberdade de culto, o estudante Ismael Modgdob, 20, também muçulmano, disse não concordar com as charges que retratavam o profeta Maomé publicadas pela revista satírica "Charlie Hebdo". "Costumo dizer que o 'Charlie Hebdo' jamais me fez rir, mas também nunca me fez chorar. Como francês, tenho orgulho de nossa liberdade de expressão. Por isso, estou aqui."

Esse discurso de tolerância não era compartilhado por todos. Lassale Anoire, que lutou pela França na Guerra de Independência da Argélia, e sua amiga, Justine Poullain, apresentaram uma opinião crítica sobre os imigrantes. "O governo deveria fazer um controle mais severo de nossas fronteiras. Há muitas pessoas que entram no país ilegalmente", disse Justine. "Não temos a mesma dimensão dos Estados Unidos para receber tanta gente. Aqui há muito desemprego. Estamos nos transformando na lixeira do mundo", completou Lassale.

Dividida, a multidão se espalhou pelas principais avenidas que levam à praça da Nação, caminhando lentamente em direção ao endereço final. No trajeto seguido pelo bulevar Voltaire, moradores dos prédios saíam às janelas para saudar a marcha. Cartazes e adesivos em homenagem aos cartunistas do jornal "Charlie Hebdo" foram distribuídos ou vendidos por entidades que prometiam reverter a renda para o semanário.

Próximo à praça da Nação, grande parte dos participantes se dispersou, entrando nos bares, restaurantes e lanchonetes da boêmia região da Bastille. Agora, em clima de festa. 
 

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