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Com um par de muletas, jovem de Goiás visita quatro países africanos

Jéssica Paula visitou quatro países africanos acompanhada de um par de muletas - Arquivo pessoal
Jéssica Paula visitou quatro países africanos acompanhada de um par de muletas Imagem: Arquivo pessoal

Jéssica Nascimento

Do UOL, em Brasília

31/01/2015 06h00Atualizada em 02/02/2015 12h24

"Antes eu vivia num preconceito comigo mesma. Hoje, percebo que ser deficiente física me ajudou em muita coisa. Querendo ou não, as pessoas não se sentem vítimas perto de mim." É assim que a jornalista Jéssica Paula, 23, goiana, inicia o relato de uma história de vida de superações, aventuras por países em conflito na África, uma infecção por malária e, por fim, o sonho de publicar um livro relatando tudo o que viveu durante dois meses fora de casa. A companhia? Um par de muletas que a acompanha desde os 14 anos.

Os obstáculos começaram aos seis anos após uma infecção de garganta migrar para a medula. Jéssica perdeu todo o movimento da perna direita e parte da esquerda. Com a doença, a jovem teve de reaprender a fazer atividades cotidianas, como andar e sentar. "Fiquei até os 12 engatinhando pela casa para conseguir me locomover e ter alguma autonomia. Na rua, utilizava cadeiras de rodas. Com o passar do tempo, fui conseguindo superar as sequelas da doença, me adaptei ao andador e aos 14, adotei as muletas", conta.

Com uma mochila nas costas, a jornalista decidiu, aos 20 anos, conhecer lugares esquecidos pela sociedade. Sozinha, passou por Etiópia, Sudão, Sudão do Sul e Uganda. A proposta era mostrar a realidade por trás dos números oficiais da ONU (Organização das Nações Unidas) e das ONGs (Organizações não Governamentais), que são umas das poucas fontes seguras para se obter informações sobre os lugares visitados, segundo Jéssica.

200 páginas de muitas histórias

O livro, que se chama "Estamos aqui", é composto por 200 páginas com narrativas e fotos. A obra conta as histórias de vida das pessoas com quem Jéssica cruzou pelo caminho. A jovem também descreve as milícias nos vilarejos, dá relatos de refugiados e conta sobre as dificuldades encontradas no caminho.

"Me passei por muçulmana, a borracha da muleta derreteu no calor de 52°C no Sudão, contraí malária e ainda conheci a ex-enfermeira de Joseph Kony, um dos 10 mais procurados no mundo, líder de uma milícia que devastou Uganda e outros três países. História é o que não falta no livro", afirma.

Uma das maiores dificuldades vividas pela jornalista durante a jornada ocorreu no Sudão. Jéssica precisava conhecer o lugar de onde vinham os refugiados para entender melhor a realidade vivida por eles. Porém, estrangeiros só possuem permissão para ficar na capital e, no máximo, visitar lugares turísticos no norte do país.

"Os locais de conflito ficam no Sul e todos são impedidos de entrar na primeira barreira policial. No entanto, peguei uma canga de praia [com o Cristo Redentor pintado], me fingi de muçulmana e fui com um amigo que conheci no país e que trabalhava para uma ONG", explica.

Jéssica e o amigo fingiram ser casados para não levantar nenhuma suspeita. Ao chegar num hotel próximo aos vilarejos, após seis horas de viagem, a jovem foi proibida de ficar por não possuir autorização para entrar no Estado.

"Meu colega deixou escapar que eu estava atrás de crianças soldado. Depois de implorar bastante, nos deixaram passar uma noite no hotel, mas já sabendo que oficiais de segurança viriam me interrogar no dia seguinte." E foi o que aconteceu. Logo cedo, o policial ordenou que Jéssica saísse do país, caso contrário, seria presa e deportada.

Além de uma extensa bagagem cultural, a jovem aventureira conta que aprendeu com a experiência a não julgar as pessoas. "Tudo tem uma justificativa, até mesmo para um menino de seis anos ser um soldado. Compreendi também que devemos respeitar todas as crenças."

Segundo Jéssica, a ideia de colocar o livro em um financiamento coletivo surgiu porque as grandes editoras não dão tanta atenção aos escritores iniciantes.

"Elas só pagam 8% para os autores. Depois de ter sido expulsa do Sudão e ficar vários meses fazendo minhas necessidades básicas em um buraco no chão --uma enorme dificuldade para quem usa muletas-- é no mínimo injusto receber tão pouco", diz. Para ela, ter uma obra independente facilita o cuidado pessoal com impressão, qualidade e diagramação. 

Para quem quiser ajudar, as doações podem ser feitas até o dia 5 de março pelo site http://www.catarse.me/pt/estamosaqui.

Jéssica Paula visitou quatro países africanos acompanhada de um par de muletas - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

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