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Forasteiro, desconfiado e anônimo: o olhar de 3 testemunhas do caso Jean Charles

AP/Arquivo pessoal
Imagem: AP/Arquivo pessoal

Marcelo Freire

Do UOL, em São Paulo

21/07/2015 06h00

A morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, baleado pela polícia britânica no metrô de Londres, ainda gera discussão e julgamentos dez anos após ele ter levado sete tiros na estação Stockwell ao ser confundindo com um terrorista. A família do mineiro da cidade de Gonzaga, que vivia em Londres desde 2002 até ser morto aos 27 anos no dia 22 de julho de 2005, continua na luta para que os policiais envolvidos sejam punidos.

O UOL procurou três personagens que vivenciaram a tragédia –Fernando “Tubarão”, conhecido de Jean e da comunidade brasileira em Londres, Henrique Goldman, diretor do filme “Jean Charles”, e Alexandre Xavier, um dos primeiros jornalistas a descobrir que o jovem morto era brasileiro– para que eles dessem seus testemunhos e contassem detalhes que ficam à parte das investigações criminais do caso.

"Ele era o típico mineiro, desconfiado de tudo"

Em 2005, Fernando Tubarão já estava em Londres havia dez anos, tendo trabalhado como motoboy, lavador de prato e limpador de carpetes até se firmar como promotor de eventos. Na época, gerenciava em Londres turnês de artistas como Seu Jorge, Tom Zé, Ed Motta e Simoninha e produzia duas noites na casa de shows Guanabara, onde a comunidade brasileira matava a saudade do forró e do samba.

Brasileiros usam bandeiras brasileira e mineira em Londres após a morte de Jean Charles de Menezes, em 2005 - Alexandre Xavier/Arquivo pessoal - Alexandre Xavier/Arquivo pessoal
Brasileiros usam bandeiras do país e de MG em Londres após a morte de Jean Charles
Imagem: Alexandre Xavier/Arquivo pessoal

Um desses personagens era Jean Charles, que frequentava a casa ao lado do irmão de Tubarão, Fausto. Durante dois anos, os dois trabalharam juntos em muitas reformas –Fausto como encanador, Jean como eletricista. “Eles estavam sempre juntos. Jean era um cara meio na dele, mais tranquilo. Levava uma vida típica de brasileiro morando fora do Brasil, desconfiado de todo mundo. Era o mineiro desconfiado de tudo.”

“Eu fiquei sabendo da morte quando saiu a notícia e meu irmão ligou chorando. Eu não era muito amigo dele, mas fiquei chocado quando vi que um brasileiro morreu naquela confusão toda. Já estava chocado com o lance do terrorismo e das bombas no metrô. O medo pairava na cidade”, lembra. “A polícia disse que o Jean fugiu, mas não tinha imagem das câmeras, os depoimentos eram diferentes, era tudo muito suspeito. Gerou revolta em todo mundo, e depois a polícia voltou atrás.”

Figura conhecida da comunidade brasileira em Londres, Tubarão passou a apoiar o irmão, que ficou muito abalado com a morte do amigo, concedendo entrevistas e enfrentando o intenso assédio da imprensa. Anos depois, voltaria a São Paulo, onde hoje é curador do espaço Puxandinho da Praça, na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo. Ele lembra de como a sensação de insegurança em Londres sobre o trabalho da polícia era diferente daquela que sente no Brasil.

“A história da polícia mentir para tentar incriminar indignou não só os brasileiros, mas os ingleses também. Porque isso não acontece lá. No caso do Jean, foi um momento de desespero em que fizeram besteira e tentaram encobrir. Mas eu não me sentia ameaçado quando a polícia me parava, como acontece aqui. Quantos inocentes morrem na mão da polícia brasileira todo final de semana?”

"Quis contar seu lado ambicioso e divertido"

O diretor de cinema brasileiro Henrique Goldman morava em Londres já naquele mês de julho de 2005 e presenciou a comoção que a morte de Jean Charles causou na comunidade brasileira e na população local. Quatro anos depois, Goldman levou a história às telonas em “Jean Charles”, em que Selton Mello interpreta o protagonista da narrativa cujo triste fim todos conheciam.

O diretor Henrique Goldman, do filme "Jean Charles", sobre o brasileiro Jean Charles de Menezes - Fernando Donasci/Folhapress - Fernando Donasci/Folhapress
Henrique Goldman, diretor e co-roteirista do filme "Jean Charles"
Imagem: Fernando Donasci/Folhapress

Foram pelo menos dois anos de preparação, entrevistando amigos, familiares e conhecidos de Jean Charles para finalizar o roteiro, que assinou ao lado de Marcelo Starobinas. A premissa sempre foi tirar o foco da investigação sobre os erros da polícia e mostrar uma atmosfera alegre, que “afirmasse a vida, não a morte”. “Queria contar o lado ambicioso e divertido dele, suas particularidades. Mesmo sendo uma ficção, que tivesse o retrato dele e também dessa ‘diáspora’ brasileira, de motoboys e ‘peões’ que trabalhavam por aqui”, conta.

“Ao contrário do que muita gente pensa –e esse pensamento é muito atual, como se vê no caso dos haitianos chegando ao Brasil– o imigrante não é um vagabundo. Ele migra para trabalhar e ganhar dinheiro, fazer parte de uma sociedade e se inserir nela, e não ser um marginal. Isso valia para a comunidade brasileira em Londres, de gente jovem, trabalhadora. O filme é sobre isso, sobre ‘outsiders’ [forasteiro, em tradução aproximada]. O Jean era um outsider.”

Essa ideia de se concentrar na vida girou o foco do filme para Vivian, uma das primas de Jean em Londres. “Após a morte do Jean, havia uma pessoa muito comovida, que não entrou naquela instrumentalização política do assassinato. Foi a Vivian. Eu quis que ela fosse um personagem principal, porque a Vivian se torna a herdeira dos sonhos dele. E o filme é sobre isso, sobre o lado mítico do imigrante, que sai de casa com o sonho de uma nova vida.”  

“Vivian era essa prima do interior, linda, simples, tímida, mas com uma riqueza interna. O filme começa com ele livrando ela de problemas e querendo que a prima deixasse de ter medo, que não fosse preguiçosa, que perseguisse seu sonho. Tudo isso é verdade, a Vivian foi para Londres por causa do Jean. Ela tinha medo de permitir que eu fizesse o filme como eu queria, porque a imprensa fez um jogo sujo, retratando ele como drogado, dizendo que ele fugiu da polícia. Demorei, mas no fim ela acabou confiando em mim.”

"Descobre quem é esse brasileiro sumido"

Alexandre Xavier, que cobriu a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes para o jornal britânico "The Observer" - Alexandre Xavier/Arquivo pessoal - Alexandre Xavier/Arquivo pessoal
Alexandre Xavier, brasileiro que cobriu o caso para o jornal britânico "The Observer"
Imagem: Alexandre Xavier/Arquivo pessoal

Alexandre Xavier era um jovem jornalista de 22 anos quando chegou à redação do semanário londrino “The Observer” para fazer um curto estágio de duas semanas e ganhar experiência na profissão que havia escolhido anos antes. Desembarcou numa terça-feira; quatro dias depois, o estagiário brasileiro repentinamente se tornava um dos principais repórteres do jornal.

“Na sexta-feira [dia da morte], se pensava que um terrorista havia sido morto. Mas, durante a madrugada, um jornalista nosso que tinha contato com a polícia descobriu que alguma coisa tinha dado errado. Uma fonte contou para ele que o passaporte era diferente, talvez brasileiro, e que o rapaz não estava na lista de terroristas. Esse jornalista comentou na redação e minha chefe me falou: ‘Vai lá e descobre se alguém da comunidade está sumido, quem é esse brasileiro. Se a polícia matou um inocente, é um escândalo’.”

Xavier, então, foi para a comunidade para descobrir quem era o brasileiro anônimo. A embaixada e o consulado não sabiam. A família de Jean Charles também ainda não havia o reportado como desaparecido. “Fiquei o dia inteiro caçando informações. Descobrimos o nome, onde ele morava, e conversei com seu primo Alex, que confirmou a morte. Fomos os primeiros a ter essa informação. De repente, passei a ser um contato para quem estava no Brasil, à medida em que a notícia ia chegando lá, com ligações do consulado, imprensa e até de conhecidos dele. Avisei até o Itamaraty da história. Tinha hora que estava até difícil de apurar, porque eu não parava de atender o telefone.”

Capa do jornal britânico "The Observer" sobre a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes - Reprodução/Arquivo pessoal Alexandre Xavier - Reprodução/Arquivo pessoal Alexandre Xavier
Capa do jornal britânico "The Observer" revelando a identidade de Jean Charles
Imagem: Reprodução/Arquivo pessoal Alexandre Xavier

No domingo, dois dias depois do assassinato, o “Observer” chegou às bancas com a manchete “Homem morto em caça ao terrorismo era um jovem brasileiro inocente” e a história escandalizou a opinião pública britânica.

“A partir daí, a imprensa ficou em cima, ninguém se conformava com o que a polícia havia feito. A indignação não foi só dos brasileiros.” O estágio de duas semanas foi estendido por outras duas, e Xavier teve então uma das experiências mais marcantes de sua vida profissional e pessoal.

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