Hoje símbolo de luta ao terrorismo, Tintim já foi contestado por racismo

Pedro Cirne

Do UOL, em São Paulo

  • Reprodução/Twitter/@mynameisjerm

    Homenagem do chargista sul-africano Jerm às vítimas do ataque terrorista em Bruxelas

    Homenagem do chargista sul-africano Jerm às vítimas do ataque terrorista em Bruxelas

A criação máxima do quadrinista belga Hergé, pseudônimo de Georges Remi (1907-83), o personagem Tintim está sendo usado nesta terça-feira (22) como símbolo da resistência ao terrorismo e à intolerância após os atentados de Bruxelas, que mataram mais de 30 pessoas.

Hoje reconhecido mundialmente como um jovem e aventureiro Tintim que roda o mundo fazendo reportagens, o personagem tem suas primeiras obras marcadas por polêmicas.

A história de estreia do personagem, "Tintim no País dos Sovietes" (1929), apresentava um desenhista ainda em formação e uma história cheia de hiatos. Era praticamente um manifesto anticomunismo, com a União Soviética mostrada como um país artificial, onde nada era o que parecia.

Reprodução/Twitter/@flegcartoon
Homenagem do cartunista canadense Fleg
 A história seguinte do personagem, "Tintim no Congo", é, até hoje, polêmica. Iniciada em 1930, mostra o jornalista e aventureiro Tintim convivendo com africanos estereotipados, o que levantou acusações de racismo contra o autor.

Nesta aventura, Tintim viaja ao Congo Belga (que depois viria a se chamar Zaire e, atualmente, República Democrática do Congo), então uma colônia da Bélgica --na primeira edição portuguesa deste livro, o nome foi alterado e virou "Tim-Tim em Angola", então colônia de Portugal.

Tintim figura, no livro, como mais forte e inteligente que os africanos, retratados com inocência infantil. Em uma cena, o jornalista substitui o professor dos jovens africanos e leciona aos congoleses sobre a sua "pátria, a Bélgica". Quando Tintim volta à Europa, os africanos criam um ídolo de madeira para adorá-lo como se fosse um deus.

Reprodução/Twitter/@VLADDO
"Meu Deus", exclama, em francês, Tintim, na charge do colombiano Vladdo
A mudança na trajetória de Tintim começa com o álbum "O Loto Azul", lançado em 1936, em que o protagonista conhece seu amigo asiático Tchang.

Biógrafos de Hergé apontam, para isso, a influência do artista chinês Zhang Chongren, amigo do quadrinista belga, que teria passado a criar histórias com um caráter mais humano e menos eurocêntrico. Chongren é a inspiração para Tchang.

"Tintim no Congo" foi publicada inicialmente em capítulos separados e reunida em livro em 1931. Em 1946, foi revisada por Hergé e relançada com alterações: não há mais a cena que Tintim explode um rinoceronte com dinamite e a aula sobre a pátria Bélgica é substituída por uma de matemática.

Processo e cinema

Quando "Tintim no Congo" foi lançada pela editora Egmont na Inglaterra, em 2005, trazia um aviso dizendo que o livro tinha estereótipos e que alguns leitores poderiam considerá-lo ofensivo.

Reprodução/Twitter/@FMPinilla
Homenagem do colombiano Fernando Pinilla: "Eu sou Bruxelas"
Em 2007, a CRE (Comissão para Igualdade Racial) pediu às livrarias britânicas que retirassem de suas prateleiras a HQ, devido ao conteúdo racista. A editora norte-americana Little Brown anunciou, também em 2007, uma caixa com todas as HQs de Tintim, exceto por este álbum, que seria publicado separadamente. Meses depois, recuou e divulgou que a coleção sairia integralmente.

Dois anos depois, "Tintim no Congo" foi retirado da Biblioteca Municipal do Brooklyn, em Nova York, devido a reclamações quanto ao teor racista da obra e por não ser adequada para crianças.

Em 2010, um congolês moveu, na Bélgica, uma ação contra "Tintim no Congo", pedindo sua proibição devido a representações racistas. Após dois anos de processo, a Justiça belga decidiu que não havia intenção de racismo por parte de Hergé no quadrinho.

A polêmica não atingiu a reputação de Tintim em Hollywood: lançada em 2011, a animação "As Aventuras de Tintim" teve direção de Steven Spielberg, Peter Jackson na produção executiva e nomes como Daniel Craig e Simon Pegg no elenco.

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