Venezuelanos revendem produtos básicos para sobreviver na crise

Andrew Rosati

Em Caracas

  • Carlos Garcia Rawlins/Reuters

    Fila para entrar em mercado para comprar alimentos básicos em Caracas

    Fila para entrar em mercado para comprar alimentos básicos em Caracas

Ela se levanta às 2 horas da manhã, desce vagarosamente 12 lances de escada do conjunto habitacional onde vive e caminha três quarteirões até uma pequena farmácia na região leste de Caracas. A cidade está cheia de perigos à noite, mas quando Laura chega, dezenas de pessoas já estão por lá, guardando seus lugares na fila com a astúcia adquirida com a prática. Quando as portas se abrem, às 7h30, centenas de pessoas se acotovelam ao passar pelos seguranças. Laura consegue encontrar apenas um frasco de detergente e dois de xampu. Elas os venderá horas depois por um valor 10 vezes maior que o preço da prateleira.

A escassez de produtos e as filas na Venezuela são épicas. Os controles bizantinos distorcem os salários e o comércio. A inflação está fora de controle. Setores inteiros estão desaparecendo, tendência que apenas acelerou depois que o preço do petróleo, força vital do país, caiu em mais da metade. Mas dentro de uma economia que encolhe de forma inacreditável, um negócio está prosperando e gerando uma nova classe de empreendedores, frutos da necessidade. São os chamados bachaqueros. Laura, uma ex-faxineira de 30 anos, é um deles. Ela compra produtos básicos pelos preços oficiais do governo e vende-os no mercado negro.

"Eu percebi há cerca de um ano que poderia ganhar mais revendendo um único pacote de fraldas que limpando uma casa inteira", disse Laura, pedindo que seu sobrenome não fosse publicado porque, na prática, ela faz parte de uma rede criminosa. (É ilegal vender certos produtos básicos acima dos preços oficiais e o governo esporadicamente repreende a prática).

O termo bachaquero, criado em alusão à formiga-cortadeira (bachaco), que é capaz de carregar um peso muitas vezes maior que o seu, foi aplicado inicialmente aos contrabandistas que atuavam ao longo da fronteira ocidental da Venezuela, anos atrás. Agora a palavra é ouvida em todas as partes. A empresa de pesquisas Datanalisis, de Caracas, diz que mais de um quarto da população se envolveu com a prática nos últimos 12 meses.

Os lugares próximos ao começo da fila se tornaram tão valiosos que agora até mesmo eles estão à venda. Um bom lugar normalmente custa cerca de 500 bolívares. A quantia pode não ser muito alta quando medida em dólares -- algo em torno de US$ 1,25 --, mas não é ruim em um país onde o salário mínimo é de pouco mais de 15.000 bolívares por mês. Marilin Barrios, que tem 27 anos e quatro filhos, chegou à farmácia muito antes que Laura naquele dia, conseguiu um dos primeiros lugares e o vendeu horas depois.

Em um sistema que lembra o racionamento implementado nos países comunistas no século passado, aos venezuelanos são atribuídos certos dias na semana nos quais podem comprar os produtos considerados mais essenciais pelo governo. Laura espera na fila, mas troca de lugar com a mãe ou o marido no último minuto para que façam as compras reais com suas carteiras de identidade nos dias que não correspondem ao número dela.

Um ano após iniciar a nova carreira, Laura sente o desgaste. Ganhou peso -- resultado, segundo ela, das 14 horas por dia de atividade e da alimentação ruim -- e está ficando cansada do empurra-empurra e dos xingamentos direcionados a ela e aos outros bachaqueros: parasitas, trapaceiros, vagabundos. Ela disse que ficaria feliz em voltar a fazer limpeza se o antigo emprego pagasse mais. Enquanto isso, o mercado de revendas vai ficando mais difícil.

"A cada dia há mais gente fazendo isso", disse ela. "A cada dia que entro em uma fila, entro um pouco mais para trás".

 

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