Análise: É preciso repensar a forma que enxergamos o casamento

Alain de Botton*

Prospect

  • Getty Images

As sociedades modernas desenvolveram ideias coletivas altamente detalhadas sobre como deve ser uma cerimônia de casamento apropriada, chegando aos arranjos florais especializados, as capas das cadeiras, os presentes para as damas de honra e a ordem correta dos discursos. Elas são absurdas e não ajudam em nada a cumprir a verdadeira missão da festa: contribuir para o sucesso do casamento.

Para começar, precisamos de novos votos. Os votos são promessas que fazemos em nome de pessoas que ainda não existem sobre circunstâncias que ainda não podemos imaginar plenamente. No entanto, eles têmuma função importante, a de pelo menos tentar orientar nossas reações às tensões do futuro.

O problema dos votos atuais é seu otimismo, que deveria ser radicalmente temperado para evitar a raiva e o ressentimento. Os votos deveriam prever com precisão o que nos fará querer o divórcio --e confirmar que nossa tristeza subsequente não será uma maldição incomum ou pessoal. Eis aqui uma seleção de votos que seriam feitos por um casal em minha utopia:

"Aceito que sou, de inúmeras maneiras que ainda não conheço, muito difícil de se conviver."

"Aceito não entrar em pânico quando, daqui a alguns anos, o que estamos fazendo hoje nos parecer a pior decisão de nossas vidas."

"Quando você for má, quando me chamar de "filho da p... de m...", eu me esforçarei para lembrar que, no fundo, é porque você está magoada --e não que você seja fundamentalmente maligna."

"Todo mundo tem algumas coisas muito importantes erradas. Prometemos não olhar para os lados. Não há ninguém melhor por aí, na verdade. Quando você os conhece, todo mundo é impossível."

Em um casamento utópico, os convidados dariam ao casal diversos tipos de presente. Basicamente, eles chegariam com relatos sobre por que seus próprios casamentos foram difíceis e por que eles mesmos são pessoas estranhas de se conviver.

Nada nos deixa mais felizes que notícias dos problemas alheios, como esses presentes reconheceriam implicitamente. Nos momentos sombrios do casamento, a pessoa recorreria a esses presentes e veria as descrições dos problemas materiais de seus amigos e parentes e sairia sentindo que sim, foi amaldiçoada, mas --muito importante-- não é absolutamente a única.

Em minha utopia, vocês seriam casados por um filósofo ou um psicanalista (em vez das duas atuais figuras inúteis, um sacerdote ou uma autoridade do governo local). A cerimônia de casamento seria uma comemoração para um casal que já teve um percurso substancial (não menos que 12 meses) de autoconhecimento e educação mútua na psicologia dos relacionamentos.

A cultura romântica sugere que os relacionamentos se baseiam essencialmente em estados emocionais, como ternura, sentir falta do outro e paixão sexual. Isto é evidentemente temerário, e na minha utopia haveria uma nova abordagem clássica, mais lógica, que recomendaria vigorosas tentativas conscientes de alcançar um entendimento maduro do amor. Muitas habilidades do casamento se confundiriam com as de um especialista em desativar bombas.

Na utopia, o dia do casamento seria como uma cerimônia de formatura, o apogeu de um ano de intenso estudo de uma das matérias mais difíceis e acadêmicas do mundo.

Eu também reformaria a abordagem das fotos de casamento. O objetivo das fotografias é captar a essência do casamento e torná-la disponível quando precisarmos mais tarde. Mas um álbum de casamento deveria não apenas ou mesmo basicamente ser um registro visual de um determinado dia e as provas de quem esteve presente.

A tarefa do fotógrafo é criar uma série de obras de arte, feitas em vários dias, e talvez nenhuma no dia do próprio casamento, para lembrar ao casal as respostas para algumas perguntas chaves. Por que nos unimos? Que virtudes vimos um no outro quando nos casamos? Que impacto a família de cada um tem no relacionamento? Quão normais são os problemas conjugais na sociedade em geral?

Rever suas "fotos de casamento" nos anos seguintes teria lugar então dentro do objetivo geral do casamento: ajudaria, de maneira reduzida, a nos convencer a continuarmos casados.

A ideia atual de um casamento --e os elaborados rituais que o cercam-- não põe em foco nossas necessidades reais. Mas isso não quer dizer que seria melhor dispensar toda a cerimônia. Ainda precisamos de cerimônias e instituições, só que melhores. Deveríamos levar muito a sério --e ser coletivamente ambiciosos a respeito-- o que os dias de casamento podem e devem ser.

O pensamento utópico soa como coisas de sonho. Mas na verdade uma das utilidades do pensamento utópico é nos afastar da fantasia tola. Em vez de ver o "casamento dos sonhos" em termos de palmeiras e piscinas infinity, deveríamos perguntar como seria uma cerimônia de casamento se ela adequadamente ajudasse os casamentos a ser melhores. Isso deveria nos dar inspiração ao tentarmos reformar as medíocres práticas de casamento que temos hoje.

*Alain de Botton é o autor de vários livros, mais recentemente "The Course of Love" [A maldição do amor].

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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