Venezuelanos no Brasil apelam a viajantes desconhecidos para enviar remédios

Mirthyani Bezerra

Do UOL, em São Paulo

  • Carlos Garcia Rawlins/Reuters

    Clientes veem prateleiras de remédios quase vazias em farmácia de Caracas

    Clientes veem prateleiras de remédios quase vazias em farmácia de Caracas

Venezuelanos que estão no Brasil recorrem a pessoas desconhecidas para enviar medicamentos àqueles que ficaram na terra natal. "Preciso mandar urgente uns medicamentos a minha mãe. É preciso só um espaço pequeno, como um estojo", disse um membro de um grupo no Facebook que reúne 925 venezuelanos que vivem em São Paulo. "Estou viajando para Caracas na segunda-feira pela manhã. Se alguém precisa enviar algo importante, estou à disposição", afirmou outro integrante.

A Federação Farmacêutica da Venezuela calcula que 85% dos medicamentos no país estão em falta. Algumas pessoas chegaram a usar remédio veterinário como substituto a algum medicamento em falta. A ministra venezuelana da Saúde, Luisana Melo, nega a dimensão do desabastecimento. Segundo ela, 15% dos remédios estão em falta no país.

Reprodução/Facebook
O comerciante José Gregorio Gouveia, 33

O comerciante José Gregorio Gouveia, 33, foi procurar no aeroporto algum passageiro que levasse a Caracas um remédio que um parente precisava com urgência.

"Entraram na casa do meu primo para roubar. Ele acabou levando um tiro na cabeça e estava muito mal no hospital. Precisava de um medicamento que não tinha lá. Eu comprei aqui em São Paulo, procurei o primeiro voo que ia para Caracas. Consegui convencer um brasileiro que estava indo a negócios a levar o remédio para o meu primo", disse.

Quando o comunicador social Daniel Maggi, 33, decidiu que ia voltar a morar em Caracas, em dezembro do ano passado, ao terminar seu mestrado no interior de São Paulo, também levou remédios para desconhecidos. "Eram uns remédios para tireoide. Uns conhecidos de um venezuelano que estudava na UFSCar ficaram sabendo que eu ia e me pediram. Eu nem conhecia a pessoa, mas levei", afirma.

Segundo a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), qualquer medicamento só pode ser transportado para fora do Brasil se o passageiro tiver uma prescrição médica, contendo o nome do paciente e a assinatura do médico, seja um remédio de uso controlado ou não, como um paracetamol. Além disso, a agência informa que o documento apresentado deve ser o original, não pode ser uma cópia nem um arquivo escaneado. Caso não cumpra as regras, o passageiro pode ter os remédios apreendidos. 

Segundo informações contidas no site do Seniat (Serviço Nacional Integrado de Administração Aduaneira e Tributaria) da Venezuela, medicamentos entram no rol de produtos novos que podem entrar no país desde que seja para uso pessoal e cujo valor não ultrapasse US$ 1.000, como roupas, eletrônicos, brinquedos, artigos de higiene pessoal. É preciso fazer uma declaração informando a origem e pagar os impostos correspondentes caso esse valor seja ultrapassado.

Dá para mandar dinheiro?

Emanuel Amorer, 34, arrumou um jeito de mandar dólares para ajudar a mulher e a filha de um ano e meio do casal através de um primo que vem com frequência ao Brasil. "Minha mulher é professora universitária lá. Somos geólogos. Ela voltou para Venezuela com a nossa filha e eu continuei aqui para terminar o doutorado na Unicamp. Ela ganha o equivalente a US$ 28 por mês, considerando o valor no câmbio negro, que é o que acaba regulando as transações, e esse dinheiro dá para pagar o aluguel, as despesas e sobra pouco para comprar comida", conta.

Arquivo pessoal
O geólogo Emanuel Amorer, 34

Daniel Maggi tinha que mandar um valor para a mãe que mora em Caracas e aproveitou uma viagem dela ao Chile para fazer isso. "Ela foi visitar o meu irmão que mora lá. Então eu enviei o dinheiro para a conta dele, ele tirou em pesos, comprou os dólares e deu para ela levar", diz. Mesmo com os impostos pagos com essa transação financeira, segundo ele, ainda assim é mais vantajoso fazer isso que enviar dinheiro direto para a Venezuela.

O país possui dois câmbios oficiais, um voltado para importação de produtos básicos e outro que regularia transações financeiras . No entanto, o câmbio paralelo, que oferece valores maiores que o oficial, acaba regulando as transações feitas no país por ser baseado em taxas do mercado internacional. Em geral, o mercado negro não aceita a moeda brasileira.

No Brasil, a Receita Federal informa que só é possível sair do país com até R$ 10 mil em espécie na bagagem -- ou o mesmo valor em moeda estrangeira -- sem precisar declarar a origem do dinheiro.

Entenda por que falta comida na Venezuela

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