Crise pode deixar venezuelanos até sem acesso a ligações telefônicas

Patricia Laya e Fabiola Zerpa

  • JUAN BARRETO/AFP

Além da escassez de alimentos e remédios, os venezuelanos agora enfrentam o risco crescente de ficarem desconectados do restante do mundo porque a impossibilidade de obter moedas estrangeiras ameaça o acesso a ligações telefônicas internacionais e até a sites do exterior.

As operadoras de telefonia móvel Telefónica e Corporación Digitel já suspenderam os serviços de roaming e de ligações para o exterior na Venezuela por não conseguirem prolongar as condições de pagamento com empresas estrangeiras de telefonia. Os preços do serviço de internet vêm aumentando e até os consumidores que podem pagar têm dificuldades para conseguir conexões operativas devido à infraestrutura desgastada e ao equipamento obsoleto.

"Há operadoras que simplesmente deixaram de oferecer serviços porque não podem ter acesso a dólares e a inflação está tão desenfreada que elas não sabem que preço cobrar", disse Tina Lu, consultora sênior da Counterpoint Technology Market Research em Buenos Aires. "A triste realidade é que, mesmo se o serviço existir, os preços agora não estão ao alcance de nenhum venezuelano com um salário médio".

Na semana passada, o presidente Nicolás Maduro proibiu as operadoras de telecomunicações de elevarem as tarifas, o que poderia reduzir ainda mais a possibilidade de as empresas pagarem as conexões. As empresas de telecomunicações tinham multiplicado os preços por 10 para pagar uma parte de suas próprias contas de interconexão no exterior, deixando os serviços de telefonia fixa, móvel e de internet fora do alcance de muitos venezuelanos.

A situação poderia piorar se os provedores de internet não conseguirem pagar a conexão com o mundo externo, porque muitos venezuelanos dependem de serviços web como o WhatsApp para se comunicarem com familiares no exterior. Em muitos países, inclusive na Venezuela, os provedores de internet precisam compensar seus pares estrangeiros ou um intermediário pelos dados transmitidos a suas redes. Se os problemas de câmbio forçarem as empresas a interromper os pagamentos, os venezuelanos poderiam ficar impossibilitados de acessar dados de internet armazenados fora do país, disse José Otero, diretor para a América Latina e Caribe da associação do setor 5G Americas.

"Se a falta de dólares continuar, a Venezuela poderia entrar em períodos de muitas restrições para acessar a internet, inclusive de impossibilidade de acessar conteúdos armazenados externamente", disse Otero em uma entrevista. "Se não houver internet, não haverá comunicação; isso é muito mais do que um problema apenas do setor, porque existe o potencial de uma enorme censura".

Se as empresas de telecomunicações não podem resolver os problemas, elas deveriam ser vendidas ao Estado, disse Maduro à rede de televisão estatal na noite de segunda-feira.

"A Venezuela já está isolada fisicamente, com cada vez mais empresas aéreas cancelando seus serviços no país", disse Pablo Bello, secretário-geral da Associação Interamericana de Empresas de Telecomunicações, com sede no Uruguai. "Agora, as operadoras não podem ter acesso a moedas estrangeiras e vemos um novo tipo de isolamento, que poderia envolver a comunicação e a conexão, e que nos preocupa enormemente".

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