Análise: "O Aprendiz" deu o único requisito que Trump possui para ser presidente

Sam Tanenhaus*

Da Prospect

  • Amanda Edwards/Getty Images/AFP

    4.jul.2004 - Cena do programa "O Aprendiz", apresentado nos EUA por Donald Trump

    4.jul.2004 - Cena do programa "O Aprendiz", apresentado nos EUA por Donald Trump

Seja qual for o resultado em 8 de novembro, a eleição presidencial deste ano já se transformou em um evento importante na vida dos Estados Unidos: uma crise eleitoral, à medida que a candidatura de Donald Trump dá uma súbita guinada de anômala a anárquica.

Toda eleição presidencial é um teste do "sistema" no qual uma nação muito grande, atualmente com cerca de 320 milhões de habitantes e dentre os quais 130 milhões provavelmente votarão, decide quem preencherá os múltiplos papéis de chefe de Estado, administrador chefe do poder Executivo do governo, comandante-em-chefe das Forças Armadas, além de astro de televisão para todas as finalidades e "entertainer".

Trump, o candidato republicano, passou grande parte de sua vida adulta aperfeiçoando este último requisito. É para o restante do trabalho que ele parece historicamente inadequado, "terrivelmente despreparado" e "inapto para servir", como pronunciou o presidente Barack Obama em 2 de agosto, em um dos muitos momentos surreais da campanha. E não são apenas Obama e os democratas: 50 especialistas republicanos em segurança nacional, incluindo Michael Hayden, o ex-diretor da CIA (a Agência Central de Inteligência), assinaram recentemente uma carta declarando que Trump "seria o presidente mais temerário na história americana".

O argumento mais forte contra Trump é apresentado pelo próprio candidato, em uma série vertiginosa de tweets, reações destemperadas, insultos e difamações. Em um período de 24 horas no início de agosto, Trump persistiu em seu ataque aos pais muçulmanos de um herói de guerra condecorado, Humayun Khan, que foi morto no Iraque em 2004; sugeriu que os americanos deveriam sacar suas contas de aposentadoria do mercado de ações; se recusou a apoiar vários importantes republicanos para reeleição em novembro, porque eles não lhe demonstraram a devida deferência. E arrematou isso, em 9 de agosto, com um discurso na Carolina do Norte no qual disse que o "pessoal da Segunda Emenda" (isto é, os defensores dos direitos de posse de armas) poderia ser a última linha de defesa contra sua oponente, Hillary Clinton. Isso foi lido pela campanha de Hillary e boa parte da mídia como uma ameaça de violência contra Hillary, apesar de uma marcada por desespero, já que as pesquisas a mostram ampliando constantemente sua vantagem.

Evan Vucci/ AP
Jovem exibe tatuagem do candidato republicano Donald Trump na coxa. Na tattoo está escrito "politicamente incorreto"

Enquanto isso, o establishment republicano se prepara para uma surra. As eleições para a Câmara e o Senado ocorrerão no mesmo dia que a votação presidencial. "Se fracassarmos em proteger nossa maioria no Congresso, poderemos entregar uma carta branca para a presidente Hillary Clinton", alertou o presidente da Câmara, Paul Ryan, aos republicanos em um e-mail de arrecadação de fundos enviado 96 dias antes da eleição.

Isso pode ter parecido prematuro. Mas o punhado de profissionais de campanha da equipe de Trump praticamente jogou a toalha e Ryan e outros líderes do partido parecem ter decidido que a derrota é preferível à vitória: o presidente Trump poderia destruir permanentemente o Partido Republicano e talvez também a república americana.

Em um registro assustador na crescente literatura anti-Trump, o ex-jornalista Tony Schwartz desabafou em uma entrevista para Jane Mayer, da revista "The New Yorker", ao descrever as centenas de horas que passou com Trump na intensa colaboração de 18 meses que resultou no best-seller de Trump de 1987, "A Arte da Negociação". Como Schwartz disse a Mayer, um título melhor para o livro seria "O Sociopata".

Se Trump vencer e tiver acesso aos códigos nucleares, há uma alta possibilidade de que isso leve ao fim da civilização" Tony Schwartz

Duas semanas depois, veio à tona um relato de que em uma reunião com especialistas em política externa, Trump perguntou três vezes sobre armas nucleares: "Se as temos, por que não podemos usá-las?"

Ruim para os EUA, ótimo para as TVs

É fácil esquecer, à medida que a comédia se torna mais sombria, que há pouco mais de um ano observadores se preparavam para uma disputa intensa, aqui vamos nós de novo, entre Hillary e seu candidato legado gêmeo, Jeb Bush. Ambas as máquinas eleitorais (dinheiro, contatos, perícia, todas operando como engrenagens) pareciam impossíveis de deter. Mas então, 10 semanas depois, Trump e sua mulher, Melania, trajando branco vestal, desceram a escadaria revestida de mármore da Trump Tower em Nova York, para lançar a campanha presidencial mais incomum da história americana.

Damon Winter/The New York Times
Trump é visto pelo visor de uma câmera de TV durante campanha em New Hampshire

Como disse em fevereiro o presidente da (rede de TV) "CBS": "Pode não ser bom para a América, mas é ótimo para a 'CBS'". E para outras emissoras de TV também. A gigante de cabo de inclinação de esquerda, "MSNBC" lucrou com o reality show de Trump, assim como a "Fox News" de inclinação de direita. Ele também é bom para jornais e revistas.

Por mais aberrante que possa parecer, Trump canaliza as confusões do momento mais vividamente do que qualquer outro político. Esse é o motivo, apesar de suas quatro falências, dos 3.500 processos na Justiça nos quais está envolvido (ele foi réu em 1.300), e apesar de sua recusa veemente em divulgar suas declarações de imposto de renda, para Trump parecer intocável na "questão do caráter". Seus admiradores citam sua honestidade e franqueza, mas respondem na verdade à sua autenticidade não filtrada, algo que apenas antipolíticos podem conseguir no atual clima hiperpolitizado.

Trump não é apenas o adversário de Hillary, ele é a antítese dela, e apesar disso provavelmente não o eleger, poderá muito bem transformar a política americana em uma arena não para a perícia, mas para a exibição do ego, do estímulo e da sensação, da destemperança em vez de temperamento comedido. Ele foi perdoado porque nos permitia perdoar a nós mesmos.

Mas agora bateu o remorso, juntamente com um medo genuíno. Políticos de ambos os partidos estão preocupados. Assim como os aliados dos Estados Unidos. É impossível ler os grandes jornais do país, "The New York Times" e "The Washington Post", e não sentir um tremor, o sinal de uma nova unidade, mesmo que fugaz. O que por um quarto de século parecia uma divisão inconciliável entre a América "azul" e "vermelha", entre democratas e republicanos, entre os editores de esquerda da "The Nation" e os editores de direita da "National Review", parece ter sido deixada de lado no esforço coletivo para deter Trump.

Wallace, o Trump do passado

Mas e quanto aos 13 milhões de eleitores das primárias que o indicaram à presidência e os 40% ou mais da população geral (da secular Nova Inglaterra ao Sul evangélico, da Costa Leste à Oeste, democratas, republicanos e independentes) que aparentemente votarão nele em novembro? O que pensam esses eleitores?

A visão deles da eleição de 2016 é muito diferente. Singular em alguns aspectos, Trump é reconhecível em outros. Nos anos 50, a cruzada anticomunista de Joe McCarthy apavorou as elites, mas era adorada pelos fiéis republicanos. "Ele se dirigia a vastas multidões, era ovacionado, mas deixava as pessoas como as encontrou", escreveu um astuto observador na época, "tudo por McCarthy, mas sem envolvimento em qualquer movimento ou organização, e certamente sem despertar revolta ou descontentamento".

Reprodução
George Wallace foi candidato à Presidência dos EUA em 1968

McCarthy nunca concorreu à presidência, nem mesmo considerou seriamente fazê-lo. Isso foi deixado para um populista posterior, George Wallace, o segregacionista do Alabama que rompeu com o Partido Democrata para lançar uma campanha independente em 1968. Garry Wills, o pensador político americano, notou na época que Wallace "não era a causa, mas o efeito; ele era uma forma de medir o crescimento do ressentimento", uma avaliação que também serve para Trump. Wallace também, antevendo Trump, "carecia de plataforma, pessoal, história, futuro ou programa", como escreveu Wills, e "era um fenômeno de um homem só".

E como Trump, Wallace explorava os ódios raciais, mas não era principalmente um racista. Ele era, mais profundamente, um niilista, que "não oferecia nem paliativo e nem uma cura real; apenas uma chance de gritar para as trevas. Era uma espécie de exercício perverso em honestidade, uma proclamação de que as trevas estão lá". Mais importante, suspeitava Wills, o wallacismo não era o beco sem saída que muitos presumiam, mas um prenúncio:

"Um voto niilista é algo novo na América. Em uma terra da 'melhora' (social), foi deprimente perceber que mesmo assim Wallace obteve mais de 13% dos votos nacionais. O eleitor de Wallace sentia que 'o sistema está quebrado', que não mais protege o cidadão (talvez não queira), que o cidadão está por conta própria e vulnerável, não interessa aos tribunais, intelectuais, diplomatas. Então vamos removê-los."

Grande parte da América estava fechada para Wallace, uma criatura local do Sul rural. Os gritos de um cidadão urbano e astro da mídia como Trump chegam mais longe e lhe deram o controle de um grande partido. Mas, assim como os demagogos que o precederam, ele parece não ter ideia do que pretende fazer. Um político apenas instintivo, sem reflexão, ele é menos um tribuno de "seus" eleitores e mais um representante temporário, em um momento em que o partido não conta com líderes confiáveis.

Conheça algumas curiosidades sobre as eleições americanas

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Convenções do baixo astral

A Convenção Nacional Republicana em Cleveland foi notável por muitas razões, mas acima de tudo pela ausência total de suas poucas figuras respeitadas nacionalmente. Os dois ex-presidentes republicanos ainda vivos (Bush pai e filho) permaneceram em casa, assim como os dois ex-candidatos presidenciais do partido, John McCain e Mitt Romney. A única eminência visível foi Bob Dole, o candidato de 1996. Do começo ao fim, o evento parecia um exercício de alienação brechtiana, visando incomodar, não encantar. Em vez de fazer as pazes com Ted Cruz, o senador do Texas e seu rival derrotado pela indicação presidencial, Trump continuou se engalfinhando com ele e da forma mais pública. Enquanto Cruz falava em um comício ao ar livre, Trump sobrevoou de forma barulhenta em seu avião.

Quando Cruz falou na penúltima noite, fazendo um discurso que por pouco não foi um endosso tradicional, Trump, que aprovou previamente o texto, se materializou no fundo da sala para liderar as vaias e zombarias que afugentaram Cruz do palco. O próprio discurso de Trump no dia seguinte, assistido por cerca de 32 milhões de pessoas pela televisão, foi um grito para as trevas, um catálogo de males: "terrorismo em nossas cidades (...) violência em nossas ruas (...) caos em nossas comunidades".

O alto astral foi deixado para os democratas, mas não puderam aproveitar o momento. Quando cheguei à convenção deles na Filadélfia, os protestos já tinham começado. Mil ou mais simpatizantes de Bernie Sanders, o adversário de Hillary na disputa presidencial democrata, marchavam e cantavam. Alguns dos simpatizantes dele estavam convencidos de que "Bernie" ainda poderia vencer, seja por meio de um levante popular ou por uma debandada do salão. A esperança deles se apoiava em um crescente escândalo recente: 20 mil e-mails vazados, publicados pelo WikiLeaks, que mostravam o Comitê Nacional Democrata (DNC, na sigla em inglês), sob a liderança de Debbie Wasserman Schultz, uma deputada da Flórida, favorecendo descaradamente Hillary durante a disputa pela indicação, quando deveria exercer o papel de árbitra neutra. O campo de Sanders vinha se queixando de "DWS" há meses e agora queria reparação. Na verdade, os e-mails não revelaram nada errado, apenas a confirmação embaraçosa do óbvio: o Partido Democrata queria que Hillary vencesse e fez o que podia legalmente para ajudá-la.

Mesmo assim, deixou um gosto amargo. Hillary já contava com todas as vantagens.

Diferentes, mas...

Será que o establishment também precisava inclinar o campo de jogo? Também deixou implícita a cumplicidade dos ricos, em sua guerra do alto contra os pobres, assim igualando Trump e Hillary. Apesar de agora serem oponentes amargos, os dois têm mais em comum do que gostariam de admitir.

Nascidos com um ano de diferença (ele em 1946, ela em 1947), eles combinam as liberdades de estilo de vida dos anos 60 e 70 com o carreirismo na base da cotovelada dos anos 80 e 90. E seus círculos se cruzam. O casal Clinton esteve presente no casamento de Trump com Melania, em 1995. Bill Clinton já foi colega de golfe de Trump. Há um rumor persistente de que Bill Clinton encorajou Trump a concorrer à presidência. Tudo isso prejudica Hillary.

Ela é, segundo qualquer medida, a mulher com mais realizações na política americana, com um histórico de serviço idealista por quase 50 anos. Mas para muitos eleitores, incluindo alguns seguidores leais de Sanders, o longo rastro de iniquidades dela, como o uso de servidores privados de e-mail quando foi secretária de Estado, a tolerância (e acobertamento) das práticas irregulares na Fundação Clinton (a caridade global administrada por seu marido), as muitas investigações durante os anos do casal na Casa Branca e mais, igualam e até mesmo ultrapassam o histórico de Trump de falências e condutas ilegais nos negócios.

O fato de ele não ter uma história compensadora de boas obras como Hillary (em direitos civis e direitos humanos, lei de família, saúde da mulher e da criança) pouco importa. Esse é o paradoxo da política em 2016: ela deixa a nação obcecada, mas deixou de ser o domínio da ação honrosa.

De comum, só a faixa etária; veja diferenças entre Hillary e Trump

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Tudo isso esteve por trás dos protestos pró-Sanders na Filadélfia e dos cantos de "Não DNC, não votaremos em Hillary". Mesmo após Wasserman Schultz renunciar e se afastar, os sentimentos permaneceram exaltados. Na segunda-feira, quando tomei o ônibus de translado do centro da Filadélfia ao Wells Fargo Center, a arena esportiva onde ocorria a convenção, com seu vasto espaço de estacionamento ao redor, suas legiões de policiais e um helicóptero ou dois sobrevoando, manifestantes se comprimiam no alambrado gritando sua fidelidade a "Bernie" e encorajando jornalistas a fotografá-los.

"De jeito nenhum vou votar em Hillary", me disse posteriormente um jovem delegado de Sanders. "Eu não tinha problemas com ela até se mostrarem condescendentes com o pessoal de Bernie". O que ele quis dizer é que durante a primária de New Hampshire, a primeira vitória de Bernie se deu graças a uma coalizão de pessoas muito jovens, incluindo mulheres jovens, um choque profundo para Hillary e sua geração de aliadas feministas.

"Há um lugar especial no inferno para mulheres que não ajudam umas às outras", disse Madeleine Albright, a ex-secretária de Estado e uma ferrenha aliada de Hillary, ao apresentar a candidata em um evento de campanha em New Hampshire. "Ela diz isso desde que a conheço, o que já faz cerca de 25 anos", explicou Hillary, tentando acalmar o furor, sem perceber que esses 25 anos faziam parte do problema. Para a nova geração, Hillary não é uma pioneira, mas uma anciã privilegiada.

Divisão interna coerente

Todavia, apesar de todas as suas diferenças, os democratas têm a vantagem de estarem divididos mais coerentemente do que os republicanos. Enquanto Trump e Cruz travavam uma guerra de egos, os democratas peneiravam um conflito de ideias. Duas linhas de progressismo se enroscavam: a de Sanders, baseada no sonho socialista de solidariedade de classe, e o de Hillary, enraizado nos direitos civis e feminismo.

Muitos dos oradores na convenção democrata, em Estado após Estado, não eram brancos, inclusive de Estados do Sul, que há meio século eram redutos de democratas segregacionistas. Os republicanos se esforçam em suas convenções para levar ao palco o máximo de políticos não brancos e celebridades que conseguem encontrar, em uma demonstração de diversidade. Mas na convenção republicana, em Cleveland, a composição do partido era clara a partir dos delegados sentados no salão, que formavam um mar branco.

Durante o último meio século, com a ascensão do "movimento conservador", o Partido Republicano, o "partido de Lincoln", se transformou em um cálice enferrujado da Velha Confederação, enquanto os democratas abraçaram o multiculturalismo. Mas ao fazê-lo, os democratas tiveram que abrir mão de algo: a identidade do partido ligado ao interior rural. Essa ideia mais velha e bruta ainda persiste em alguns bolsões, antes pró-democratas, onde o grito de Trump está sendo ouvido. Seu eco remonta há muito tempo.

A esquerda ainda não aprendeu a transpor o individualismo caloso dos mais calosos na América" Norman Mailer, ele próprio um membro orgulhoso dessa mesma esquerda, em 1968, o ano da insurreição de Wallace.

Diz algo sobre a natureza humana, ou talvez sobre a democracia americana, o fato de Trump, apesar de todas as suas falhas, ter se saído tão bem na política presidencial. A respeito das políticas, ele pode não saber do que está falando, mas diferente da às vezes insensível Hillary, ele sempre sabe para quem exatamente está falando e o que essas pessoas querem ouvir. E ele é um vendedor experiente.

Em janeiro, pesquisadores da Rand Corporation informaram os resultados de uma pesquisa. "Entre as pessoas que provavelmente votarão na primária republicana", eles descobriram que 86,5% "apresentam maior probabilidade de preferir Donald Trump como primeira opção acima de todos os demais se concordarem 'fortemente' ou 'um pouco' com a frase 'pessoas como eu não têm voz no que o governo faz'". A pesquisa apontou que "essa crescente preferência por Trump supera qualquer preferência baseada em gênero, idade, raça/etnia, status de emprego, escolaridade, renda do lar, postura em relação aos muçulmanos, postura em relação aos imigrantes ilegais e postura em relação aos latinos dos entrevistados".

Essa conclusão tem um corolário na emergente literatura sobre as divisões de classe nos Estados Unidos, livros com títulos como "White Trash" (lixo branco, tradução livre) e "The End of White Christian America" (o fim da América cristã branca, em tradução livre).

Há um alto contingente de pessoas que parecem extrair um senso de superioridade ao desprezar os pobres" J.D. Vance, autor da nova autobiografia best-seller "Hillbilly Elegy" (algo como elegia caipira, em tradução livre), ao "The New York Times Book Review".

Vance teve uma criação modesta em Ohio, mas agora está em uma firma de investimento em San Francisco. "O problema, como eu vejo, é que esses grupos não ocupam o mesmo mundo. Estão segregados em bairros diferentes, cidades diferentes e até mesmo Estados diferentes." Donald se comunica com essa divisão.

Getty Images
Donald Trump durante campanha na Universidade Drake, em Iowa

Um exemplo: Pensilvânia

A Pensilvânia é importante por ser vários Estados em um, urbana, suburbana, rural, Cinturão da Ferrugem (velha região manufatureira em decadência) e presente nos cálculos dos candidatos presidenciais. Um dos 11 Estados indefinidos (Colorado, Virgínia, Iowa, Carolina do Norte e Wisconsin estão entre os outros), ela é um barômetro populoso da América "do meio" imponderável, tão crucial para a ideia que cada partido tem de si mesmo.

Os republicanos venceram pela última vez na Pensilvânia em 1988, também a última eleição na qual o partido provou ser realmente nacional (de lá para cá ele venceu no voto popular em apenas uma eleição presidencial, a vitória de George W. Bush em 2004). Obama obteve 52% dos votos na Pensilvânia em 2012, um percentual um pouco melhor do que obteve nacionalmente, mas uma queda em comparação aos 55% que obteve em 2008.

O pensamento, como explicado por especialistas no rádio enquanto eu me dirigia ao comício de Trump em Harrisburg, a capital do Estado, é que se o candidato desenterrou uma nova base de apoio entre a classe trabalhadora branca, então a Pensilvânia, com sua economia industrial desgastada, deve ser um veio rico de votos.

No momento, a taxa nacional de emprego está crescendo (255 mil vagas de trabalho foram criadas em julho) e o desemprego caiu abaixo de 5%. Mas na Pensilvânia, o ponteiro está emperrado em 5,6% e os empregos existentes pagam mal: o salário mínimo do Estado, US$ 7,25 (cerca de R$ 23,35) por hora, não sobe desde 2008 e é um dos mais baixos do Nordeste.

Trump, como a maioria dos republicanos, é contrário ao aumento do salário mínimo. Ele também empolga as plateias com promessas nostálgicas de uma revitalização da indústria da mineração de carvão, apesar dele e de seus ouvintes saberem que isso não acontecerá. A "economia limpa" é um fato da vida do século 21. Mas Trump não lida com fatos. Ele lida com emoções. E toda vez que ele fala em reviver o carvão, ele enfia outra faca na elite insensível, que parece indiferente ao destino daqueles que costumavam ser chamados de americanos "legítimos".

Graças a Trump, e também a Sanders, Hillary também teve que abordar esse assunto. Durante sua visita a Harrisburg, ela prometeu US$ 275 bilhões em infraestrutura ao longo de cinco anos (o Congresso precisa aprovar o dinheiro). Trump apresentou números ainda maiores, como US$ 500 bilhões e mesmo US$ 1 trilhão, dependendo do dia, como comentou o colunista Jonathan Chait no início de agosto.

O que mais se ouve em um comício de Trump? "Saia daqui"

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O clima de um comício de Trump

Trump esteve em Harrisburg três dias depois de Hillary e fui ouvi-lo. O evento ocorreu em um subúrbio, Mechanicsburg, que soa operário, mas é bastante próspero. Entre as concessionárias de carros estavam as da Alfa Romeo, Maserati e Mercedes. "Há um motivo para terem escolhido esse lugar", me disse John Micek, que cuida da página editorial do "Harrisburg Patriot-News". "O condado de Cumberland é republicano. Eu fui checar os números em 2008 e 2012. Tanto McCain quanto Romney venceram por grande margem. Romney obteve quase 60% dos votos."

O local do comício era o Cumberland Valley High School, um colégio com estádio de futebol e um grande estacionamento. Eram 15h. Trump só apareceria às 19h e provavelmente atrasaria, já que estava vindo de avião de um evento em Ohio. As bancas de alimentos montadas no interior vendiam linguiças, cachorro quente e carne de churrasco. O dinheiro era destinado à equipe de luta greco-romana da escola. Um simpatizante de Trump me disse que levou seus filhos para vê-lo em abril, no Farm Show Complex & Expo Center. Foi divertido: a música, os cantos ("Trump! Trump! Trump!"), as camisetas ("Hillary na Cadeia 2016").

Evan Vucci/ AP
Trump discursa em Cumberland Valley High School

Uma das muitas simplificações exageradas na cobertura de Trump é que a grande maioria de seus simpatizantes consiste de "trabalhadores pobres", desempregos e pessoas sem condições de serem contratadas. O comentário muito ridicularizado de Trump, "eu amo as pessoas sem muita instrução", foi interpretado como um apelo cínico aos que foram deixados para trás na globalização. Isso é enganador. Durante as primárias, ele se saiu bem junto à maioria dos blocos do partido, incluindo os eleitores endinheirados do meu Estado, Connecticut. E apesar da renda média dos eleitores de Trump (US$ 72 mil) ficar abaixo do nível típico dos republicanos, ele ultrapassa confortavelmente a média nacional (US$ 56 mil). Trump é o candidato da ampla faixa média americana.

A própria Harrisburg lembra muitas outras cidades americanas em sua composição étnica e racial: 52% afro-americana, 18% latina e 30% branca. Mechanicsburg, com uma população de pouco menos de 9.000, é 92% branca, segundo o censo de 2010. Em 2000, era 97%. Esse aumento de 5 pontos percentuais diz muito.

O apelo de Trump é maior entre aqueles que sentem estar perdendo espaço. E foi assim com o público que lotou o colégio naquela noite. O limite legal era de 3.200 pessoas. A imprensa foi instruída a permanecer atrás da plataforma ocupada por câmeras da "Fox News". Mas os seguranças eram amistosos e circulávamos livremente.

Às 18h, a área principal estava lotada, com o público excedente vazando para um segundo auditório onde as pessoas assistiam por um telão. Outras mil estavam reunidas do lado de fora. O que era notável era não apenas a ausência de negros, mas de quase qualquer um que não fosse branco. O clima era festivo, amistoso, agradável. Um DJ tocava sucessos dos anos 60 e 70.

Às 19h, o playlist de Trump foi acionado (que inclui Rolling Stones e Elton John). Por toda parte havia pessoas sexagenárias e septuagenárias, muitas usando camisetas e bonés de Trump. Em uma fileira lotada, uma mulher dançava com desenvoltura. Ela parecia velha o bastante para ter ouvido aquelas canções quando foram lançadas. Havia alguns jovens, mas de idade escolar, na companhia de pais e avós. Um adolescente vestia uma camiseta com a imagem de Obama e a legenda "Você está demitido!", a famosa frase de Trump em seu reality show "O Aprendiz". Os oradores habituais de aquecimento se apresentaram, a maioria deles políticos locais. Um prometeu vigorosamente que sob o presidente Trump, não haverá mais "um conjunto de regras para Hillary e outro para o restante de nós". O público repetia o canto que ficou famoso na Cleveland: "Cadeia para ela!"

Já passava das 20h e ainda nenhum sinal de Trump. Um murmúrio começou quando "You Can't Always Get What You Want" (você nem sempre consegue o que quer, em tradução livre) foi repetida. A dançarina estava sentada, parecendo cansada. Surgiram alguns gritos: "Queremos Trump! Queremos Trump! Queremos Trump!" Um membro da campanha estava agora ao microfone. Stephen Miller, um consultor de políticas, trazido da equipe do senador Jeff Sessions, o falcão anti-imigrantes que foi o primeiro legislador influente a apoiar Trump.

Delegados são quem elege presidente dos EUA; entenda o processo

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Miller tratou de alguns temas de Trump, como proteção da fronteira ("Vamos levantar o muro!"), criação de empregos e pouco mais. Então, finalmente, Trump subiu ao palco e se posicionou no atril, com pose para as câmeras de notícias e streaming ao vivo. Ele sorria largamente em meio aos vivas, aplausos e batidas de pé, cartazes e iPhones erguidos para fotos e vídeos. Ele pediu desculpas pelo atraso. Ele estava encantado com a presença de público. "Tiveram que impedir a entrada de 5.000", ele disse. (Uma melhor estimativa era 1.000.) "Assim, o total é de cerca de 12 mil." Provavelmente era metade daquilo (e a campanha estava distribuindo ingressos). "Hillary esteve aqui na semana passa, e contou com cerca de 800", disse Trump. Os jornais noticiaram como sendo mais de 2.000. Mas esse é Trump. Contestá-lo com fatos sobre esses assuntos o ofende, assim como a seus simpatizantes.

A mídia é mentirosa, ele diz em quase toda parada. Ele também repetiu essa acusação em Mechanicsburg. Apontando para nós, reunidos no extremo oposto do ginásio, digitando e escrevendo, ele pediu: "Digam para eles o que vocês pensam". As pessoas ao meu redor sorriram timidamente.

Passados 20 minutos, a empolgação evaporou. A multiplicação de erros por Trump nos últimos dias pode ser resultado de esgotamento (ele completou 70 anos em junho). Mas ele é um entertainer e deve dar ao público o que deseja. Ele se ergueu algumas vezes, chamou Hillary de "o diabo" e prometeu eliminar o Obamacare (a reforma da saúde de Obama), sem dizer como o substituiria para dar cobertura aos 20 milhões que perderiam seu seguro-saúde. Ele prometeu que o carvão voltaria (gritos e vivas), lembrando que Hillary deseja substituí-lo por energia verde, não que ele seja contrário a ela, mas que o momento não é o certo, ele disse. Após 30 minutos disso, algumas das pessoas mais velhas, aquelas com crianças, começaram a sair. Era quase 21h e permanecer até o final significava se deslocar em meio ao estacionamento lotado.

Se transformou em um esporte adivinhar em que era passada Trump pensa quando promete fazer o relógio voltar e "tornar a América grande de novo". Ele fala dos anos 50? Dos anos 60? A resposta, quando se está na presença de Trump e de seus simpatizantes, parece mais simples. Ele não tem em mente nenhum momento específico. E por que deveria? A América era grande sempre que era a última a se sentir jovem.

No dia seguinte, fazendo campanha na Virgínia, Trump disse à plateia que tinha acabado de vir de Harrisburg, e quando sobrevoou suas fábricas abandonadas, a cidade "parecia uma zona de guerra". No final da semana, mais resultados de pesquisa foram divulgados. Os especialistas disseram que a Pensilvânia estava perdida.

* Sam Tanenhaus é um escritor americano. Seu próximo livro será uma biografia de William F. Buckley Jr.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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