Não foi bem assim, Narcos: o que a 2ª temporada mudou na história de Pablo Escobar

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

ATENÇÃO, ESTE TEXTO CONTÉM MUITOS SPOILERS!!

Antes de cada episódio de Narcos, um aviso diz que a série é inspirada em fatos reais, mas que alguns personagens, cenas, nomes, locais e incidentes são fictícios. Mesmo as diferentes biografias de Pablo Escobar, líder do Cartel de Medellín, contam algumas histórias de formas distintas.

Até o filho de Escobar, Juan Pablo, conhecido hoje como Sebastián Marroquín, autor de uma destas biografias, apontou 28 erros na segunda temporada da série do Netflix. Muitos são praticamente impossíveis de serem checados, principalmente os que envolvem a relação nada amistosa entre os integrantes da família Escobar. Mas alguns deles são facilmente notados, e assim fica fácil ver que a história do maior mafioso colombiano não foi bem assim como a série conta.

A própria caracterização de Juan Pablo não faz muito sentindo cronologicamente. Enquanto ele aparece como uma criança nas duas temporadas, Juan Pablo tinha 16 anos quando o pai foi morto e atuava quase como uma espécie de porta-voz da família, atendendo a imprensa e intermediando entrevistas dos repórteres com o pai.

O UOL garimpou alguns casos em que a vida real divergiu com a série e conta para você aqui:

La Quica não estava na Colômbia

Reprodução/Netflix

Na segunda temporada da série, La Quica aparece como um dos sicários mais fiéis de Escobar. Mas acontece que ele já não estava na Colômbia durante o período pós-fuga da Catedral.

La Quica, cujo nome é Dandeny Muñoz Mosquera, foi preso nos Estados Unidos em setembro de 1991 –Escobar deixou a Catedral em julho de 1992. La Quica estaria envolvido no atentado contra o avião da Avianca em 1989. Hoje ele continua preso nos EUA, condenado a dez prisões perpétuas.

O Serviço de Inteligência da polícia colombiana o responsabilizou como autor intelectual pela morte de mais de 200 policiais em Medellín e por atentados com carros-bomba em Medellín, Cali e Bogotá. Na época da sua última prisão, acreditava-se que ele estava nos EUA cumprindo alguma missão a mando de Escobar, possivelmente para eliminar inimigos do cartel.

Reprodução/El Tiempo
La Quica efetivamente foi um dos homens importantes do Cartel de Medellín. Segundo arquivos da imprensa colombiana da época, ele esteve preso na Colômbia outras duas vezes, e a facção gastou milhões para resgatá-lo da prisão, já que ele seria importante para a execução das ações terroristas da organização.

Na primeira prisão, em agosto de 1988, La Quica deixou o presídio içado por um helicóptero junto com o seu irmão. Em 1991, quando foi preso pela segunda vez na Colômbia, policiais de Bogotá também receberam um suborno milionário para facilitarem sua fuga. Ele deixou o país rumo aos EUA pela cidade de Barranquilla com documentos falsos, até ser preso pelo DEA em Nova York.

Limón e as atividades da Catedral

Reprodução/Netflix

El Limón, ou Alvaro de Jesús Agudelo, realmente foi o último sicário a morrer ao lado de Escobar, como conta a série. Mas ele não foi recrutado pelo Cartel de Medellín após a fuga da Catedral, como mostra a série.

Limón foi motorista do irmão mais velho de Pablo Escobar, Roberto, o Osito, e teria entrado para o círculo de Pablo quando Roberto se entregou às autoridades em 1991.

Ele era o responsável por coordenar e pagar os subornos aos soldados e policiais para a entrada de caminhões na Catedral, de visitas e para que todos fizessem vistas grossas para o que acontecia por lá. Juan Pablo diz que conheceu Limón em uma destas viagens dos caminhões para a prisão de luxo de Escobar.

Juan Pablo diz que Limón era um desconhecido da polícia, sem ficha criminal, mas não era bem assim. A Procuradoria-Geral sabia que ele era o responsável pelos subornos, que entrava e saía da prisão sem qualquer problema.

 O filho de Escobar acusa o tio de ser informante da DEA e afirma que Limón o ajudou com informações sobre os passos do líder do cartel aos americanos e aos paramilitares dos Pepes.

A fuga para a Alemanha

Reuters

Na história contada pela Netflix, a família Escobar foge para a Alemanha depois de um ataque dos paramilitares a um dos esconderijos em que eles viviam com o narcoterrorista. Eles realmente tentaram entrar em território alemão em um voo da Lufthansa após um atentado contra a família, mas estavam, na verdade, já sob proteção da Procuradoria.

Enquanto a Justiça tentava negociar a rendição de Pablo, a família foi levada para um edifício em Medellín com seguranças. Mas um atentado com granadas foi realizado na recepção do prédio, e um mês depois das explosões, no fim de novembro de 1992, a família perdeu a proteção policial dada pela Promotoria. Por isso, decidiu embarcar para a Alemanha. Mas os passageiros que embarcaram na série não são os mesmos da história real.

Viajaram Maria Victoria Henao (a Tata), Manuela Escobar, Juan Pablo e sua namorada (a avó não viajou. Saiba mais sobre ela no próximo tópico). Tudo isso aconteceu dias antes da morte de Escobar. Impedida de entrar no país mesmo com o pedido de asilo, a família regressou e foi instalada pelo governo no hotel Tequendama, em Bogotá, para onde Escobar telefonava sem qualquer esquema de segurança --ele foi localizado graças a um desses telefonemas, quando falava com o filho.

Ao apontar os erros da série, Juan Pablo acusa a Promotoria de tratá-los como reféns durante o período em que estiveram sob proteção policial. "Sequestrados pelo nosso próprio Estado, acusados pelo crime de parentesco", disse ele.

A família só conseguiu deixar a Colômbia no fim de 1994, com uma nova identidade dada pela Colômbia –a partir daquele momento se transformaram em "Marroquín Santos". Tentaram viver em Moçambique, mas acabaram se estabelecendo na Argentina, onde vivem até hoje. Antes, segundo a imprensa colombiana, os Escobar chegaram a viver algumas semanas em São Paulo e no Rio de Janeiro, de onde partiram para Buenos Aires.

A avó que não deixou a Colômbia

Fredy Amariles/AFP

A série mostra que a mãe de Escobar, Hermilda Gaviria, viveu fielmente ao lado do filho durante todo o tempo de seu reinado no cartel. Mas o seu neto Juan Pablo não parece ser tão fã da avó: ele a acusa de ser informante do Cartel de Cali.

"Minha avó paterna traiu o meu pai e se aliou com o seu filho mais velho, Roberto, negociou com os Pepes e colaborou tão ativamente que isso permitiu que ela vivesse tranquilamente na Colômbia enquanto seguimos no exílio. Gostaria muito de ter a versão tão 'terna' da minha avó que a série mostra", diz ele.

Entre a onda de ataques realizados pelos Pepes em fevereiro de 1993 contra os familiares de Escobar está a explosão da casa de campo de Hermilda. Existem também boatos não provados de uma tentativa de sequestro. Em declarações aos jornalistas, ela nunca deixou de defender o filho e esteve no local em que Escobar foi morto após o ataque dos militares. Hermilda morreu em 2006 e foi enterrada no mesmo cemitério que o traficante.

O cunhado que morre sequestrado

Reprodução/Netflix

Carlos Arturo Henao Vallejo, o cunhado de Escobar, realmente morre durante a guerra do Cartel de Medellín com os Pepes, como mostra a série, mas de uma forma bem diferente. Enquanto na atração da Netflix ele morre no ataque dos paramilitares a um dos esconderijos da família, na vida real ele foi sequestrado, torturado e morto. Seu corpo foi encontrado com pés e mãos amarrados exposto em um local público de Medellín, como tradicionalmente era feito pelos paramilitares.

A imprensa da época identifica Carlos como contador e diz que ele teria ligação com a rede de tráfico de Escobar em Miami. Mas Juan Pablo afirma que o tio ele era vendedor de bíblias e nunca esteve envolvido em atividades ilícitas do pai.

A rainha do narcotráfico que não existe

Reprodução/Netflix

Judy Moncada, a personagem forte e vingativa da série, não é real --é mais um dos personagens criados para amarrar a série. Ela é a representação das famílias Moncada e Galeano na vida real, ex-sócios do Cartel de Medellín que realmente se aliaram aos paramilitares e ao Cartel de Cali para derrubar Escobar. E sim, Fernando Galeano e Gerardo Kiko Moncada foram mortos, esquartejados e tiveram os corpos queimados dentro da Catedral.

Os irmãos Fidel e Carlos Castaño lideravam os Pepes (Perseguidos por Pablo Escobar), grupo que teve origem nas Autodefesas Camponesas de Córdoba e Urabá, que lutava contra as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

O filho de Escobar diz que não foi a CIA quem propôs a criação do grupo mercenário, e que ele teria sido fruto de uma decisão de Fidel Castaño, com o apoio de Cali e autoridades locais e estrangeiras (que faziam vista grossa para as atrocidades cometidas pela facção). O próprio Fidel Castaño, em uma entrevista dada em 1994, diz ter sido o criador do grupo contra Escobar.

O envolvimento da CIA nas operações paramilitares é uma incógnita não-solucionada até hoje, mas a ligação do grupo com políticos colombianos é revelada até os dias atuais.

A repórter que não morreu

Reprodução/Netflix e Hernán Díaz/Site oficial de Virginia Vallejo

Valeria Vélez, a jornalista amante de Pablo Escobar que é torturada e morta e cujo corpo é deixado diante do Tequendama na série, foi inspirada na jornalista Virginia Vallejo García, que está viva e mora nos Estados Unidos sob proteção do governo.

Ela só confirmou em 2006 os boatos de que teria sido amante de Escobar por cinco anos, na década de 1980. Segundo ela, o governo americano a tirou da Colômbia depois de ela aceitar testemunhar no caso da morte de um dos candidatos à Presidência envolvendo Escobar e o ex-senador Aberto Santofimio, que estava sendo julgado. Virginia diz ter colaborado ainda em outros casos com os EUA, envolvendo evidências contra o Cartel de Cali com políticos colombianos.

Segundo a jornalista, ela tem desde 2010 o status de asilo político concedido pelos EUA.

Juan Pablo nega que sua mãe tenha tido qualquer tipo de contato com Virginia. Logo, segundo ele, nunca existiram telefones especiais enviados por Pablo Escobar (os telefonemas eram feitos em linhas normais, e foi assim que a localização do traficante foi descoberta). O filho ainda acusa a jornalista de ter sido amante dos chefes do Cartel de Cali enquanto se relacionava com Escobar.

A proteção de Gustavo de Greiff

Reprodução/Netflix e Reprodução/Facebook

Juan Pablo afirma que o gabinete do Procurador Gustavo de Greiff estaria totalmente infiltrado pelo Cartel de Cali, além de criticar as condições em que a família teria sido mantida isolada durante o período em que estiveram sob proteção policial.

De Greiff de fato negociou para que Escobar se entregasse e teve suas diferenças com o governo. Em seu livro, o irmão de Pablo, Roberto, acusa o procurador de ter recebido suborno para negar o envolvimento de La Quica no atentado contra o avião da Avianca –De Greiff efetivamente o inocentou do crime, mas nega categoricamente a propina e diz não ter evidência do envolvimento do sicário de Pablo no atentado.

"De Greiff era uma figura um tanto excêntrica e bastante liberal, mas não era envolvido com narcotráfico. Não aceitaria suborno. Ficou conhecido por negociar com narcotraficantes e paramilitares, tentou uma série de acordos para que os narcos se desmobilizassem", diz Gustavo Duncan Cruz, autor de "Los Señores de la Guerra" e professor da Universidad EAFIT em Medellín.

O procurador chegou a ter o visto americano recusado pelo governo Clinton depois de ter defendido a descriminalização das drogas em um evento nos EUA. Quando questionado sobre a sua suposta proteção aos líderes do Cartel de Cali, De Greiff disse, na década de 1990, que o governo americano não entendia que a redução de penas em troca de colaboração para desmantelar organizações seria uma boa política, e não um indulto ou uma imunidade.

Carrillo só morreu na ficção

Reprodução/Netflix

Como Juan Pablo afirma, Escobar não matou Horacio Carrillo em uma cena de vingança –afinal, é um personagem da ficção, levemente inspirado no comandante do Grupo de Busca, Hugo Martínez Poveda. Logo, Escobar não matou nenhum comandante. A confusão fica maior na série, já que Martínez entra na história –e sim, foi o filho de Martínez, também militar, quem encontrou Escobar em uma janela e alertou para a ação que matou o líder do cartel. Há que diga que a série faz um desserviço ao minimizar as táticas de Martínez, que pouco aparece na segunda temporada e é considerado o herói da captura de Escobar.

A morte de Pablo Escobar

Reprodução/Netflix

Este é um ponto sensível e depende da versão em que você quer acreditar. A polícia colombiana (e a série) diz que o narcotraficante foi morto durante a fuga em um telhado e que os tiros foram todos dados por oficiais. O filho de Pablo sustenta a versão de que seu pai cometeu suicídio e afirma que ambos já tinham conversado sobre isso. "Meu pai se suicidou como me disse dezenas de vezes. Não me surpreendeu que o tiro que lhe tirou a vida tenha sido de sua própria mão e pistola, a dois milímetros de distância, de onde sempre me jurou que ele mesmo o faria", disse Juan Pablo.

O filho vai além e diz que não foi a polícia quem promoveu a ação em que o pai acabou morto, mas os paramilitares. Ele diz que o próprio Carlos Castaño confirmou esta informação para sua mãe. A necropsia revelou que um dos tiros que atingiu Escobar foi dado na cabeça, perto da orelha direita.

Martínez, ex-comandante do Grupo de Buscas, recusa categoricamente qualquer versão que não seja a de que os militares tenham abatido o narcotraficante. Ele nega o envolvimento de paramilitares na ação, a participação de agentes do DEA e até mesmo que Escobar tenha sido morto com um "tiro de misericórdia", como sugere a série.

Segundo Martínez, o americano Steve Murphy, que aparece na famosa foto ao lado do corpo, só chegou ao local minutos depois da morte de Escobar, e foi até lá com a carona do próprio comandante colombiano. Ele admitiu, entretanto, que os irmãos Castaño, líderes dos Pepes, eram informantes esporádicos dos militares, e entregavam informações sobre Escobar.

A reunião com Cali

Reprodução/Netflix e AFP/arquivo

A série mostra Tata, a versão de María Victoria na Netflix, em busca de ajuda do Cartel de Cali. Ela pede apoio para deixar o país, e Gilberto Rodríguez Orihuela, um dos líderes da facção, diz que tudo o que os Escobar possuíam será tomado por eles. Já Juan Pablo afirma que sua mãe não procurou o Cartel de Cali, e sim foi convocada para a reunião com os integrantes da facção. Segundo ele, mais de 40 chefes mafiosos da Colômbia participaram do encontro. Quem teria salvado a vida de María Victoria, segundo o filho, foi Miguel Rodríguez Orihuela, e não Gilberto, como mostra a série. "Nessa ocasião nos roubaram os bens herdados e repartiram entre eles como parte do saque da guerra", acusa o filho.

Houve um encontro em fevereiro de 1994 entre narcotraficantes no Valle do Cauca, região onde fica Cali, que foi noticiada pela imprensa na época como o "pacto de paz da máfia". O envolvimento de María Victoria e Juan Pablo nestas negociações é citado pelas reportagens da época. A fortuna de Escobar seria supostamente usada para indenizar as vítimas da guerra dos cartéis em Cali segundo a imprensa.

O que se sabe é que a estrutura do narcotráfico em Medellín acabou mesmo na mão de paramilitares, como Dom Berna, e a região se manteve como uma das principais exportadoras de cocaína. Os bens da família Escobar foram expropriados pelo governo ao longo dos anos. Mas tudo isso deve ficar (ou não) para a próxima temporada, focada no Cartel de Cali.

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