Cinco desafios que o novo presidente dos EUA irá enfrentar

Marcelo Moreira

Do UOL, em São Paulo

  • Carlo Allegri/Shannon Stapleton/Reuters

Remendar um país fraturado e tentar conter o ressurgimento agressivo de um antigo adversário da Guerra Fria. Estes serão alguns dos desafios que o novo presidente dos Estados Unidos terá de enfrentar a partir de sua posse, em janeiro de 2017.

Na eleição presidencial mais turbulenta desde o embate John Fitzgerald Kennedy e Richard Nixon, em 1960, especialistas ouvidos pelo UOL consideraram que a temperatura subiu muito, surpreendendo o meio político e os eleitores, levando a polarização política à beira de um racha generalizado - fato que deverá ter consequências importantes no próximo mandato.

Veja quais são os principais desafios que a democrata Hillary Clinton e o republicado Donald Trump terão pela frente caso sejam eleitos:

Unir para governar

Agressiva e extremamente polarizada, a campanha presidencial norte-americana de 2016 foi marcada por choques de alta voltagem nas primárias dos dois partidos. Hillary Clinton sentiu menos a tensão, já que a transição para se tornar a candidata democrata, após vencer Bernie Sanders, foi menos traumática do que a de Trump, que foi repudiado pelos concorrentes à indicação e por parcela expressiva dos dirigentes do partido.

"O país verificou uma fratura inimaginável nesta eleição. A polarização foi muito grande, assim como o tom agressivo que predominou em toda a campanha. O vencedor do pleito terá uma tarefa complicada, que será o de tentar apaziguar o cenário e governar com menos turbulência", diz Gunther Rudzit, coordenador do curso de relações internacionais da Faculdade Rio Branco, de São Paulo.

Para ele, o discurso radical de Donald Trump teve uma reverberação surpreendente, alcançando um público muito maior e aglutinando adeptos além do esperado. Mesmo que saia derrotado, terá uma musculatura de tal ordem que poderá até se credenciar a concorrer ao cargo de governador estadual, podendo até mesmo almejar uma nova candidatura presidencial em 2020. 

"Não há dúvida de que Trump poderá representar uma assombração para a política norte-americana caso seja derrotado, principalmente para o próprio Partido Republicano, que terá de domar o espectro do candidato 'outsider'", afirma Rudzit.

Rodrigo Gallo, professor de relações internacionais da FMU e da Fesp, também acredita que a fenda aberta e alargada nesta eleição será um problema político maior do que uma eventual minoria que o novo presidente vier a ter no Congresso. "O clima agressivo e a surpreendente força que Trump demonstrou desde as primárias republicanas representam um fato novo e isso influenciará o próximo governo."

Rudzit ainda lembra uma outra questão para aumentar a turbulência política: a possibilidade de Trump ter mais votos, mas um número de delegados menor, e perder a eleição, tal como ocorreu com o ex-vice-presidente Al Gore em 2000, quando perdeu para George W. Bush. "A 'fratura' política tende a aumentar se isso acontecer, já que o republicano vive dizendo que a eleição é manipulada, insinuando fraude." 

Oliver Stuenkel, professor adjunto de Relações Internacionais na FGV em São Paulo, onde coordena a Escola de Ciências Sociais (CPDOC), é mais contundente. em vez de fratura, detecta um abismo político que divide ao meio os Estados Unidos.

Para ele, a maior preocupação, quando surgir o vencedor, será como o novo presidente irá governar sem a aprovação de um contingente muito grande de americanos.

"A questão não é só a diferença bem pequena de votos entre os candidatos. Perto de um quarto dos norte-americanos simplesmente rejeita qualquer um dos dois, e provavelmente não reconhecerá o vencedor como legítimo. Será difícil lidar com esse desafio", diz o professor da FGV.

Crescimento econômico

Passado o furacão da crise econômica de 2008, a economia norte-americana demorou para ensaiar uma recuperação, que veio de forma lenta, mas consistente e até certo ponto, consolidada no segundo mandato do democrata Barack Obama.

O professor Gallo diz ser crucial manter os fundamentos econômicos que possibilitaram a recuperação de parte da economia americana. "Dependendo da composição do Congresso, será necessária uma dose bem maior de paciência para negociar projetos que criem novas condições de crescimento e de criação de empregos. As propostas dos dois candidatos são bem diferentes e os derrotados poderão criar dificuldades políticas."

Stuenkel, da FGV, diz que a retomada consistente e firme do crescimento econômico passa por maior integração econômica com o mundo. "Hillary sabe disso e terá de fomentar acordos para fortalecer a economia, como Obama fez durante a maior parte de seu mandato. Trump, por sua vez, com suas propostas isolacionistas e de pouca disposição para o comércio bilateral, terá mais dificuldade para manter o crescimento."

Gunther Rudzit alerta para a influência dos conservadores que integram o bloco chamado Tea Party, que tendem a se fortalecer após o pleito tão acirrado, principalmente se os republicanos obtiverem maioria na Câmara e no Senado. "Será um cenário duro no caso de vitória de Hillary, com a possibilidade de acirramento da fratura por conta das discussões econômicas."

Doug Mills/The New York Times
O presidente da Rússia, Vladimir Putin

Ressurgimento da Rússia como potência

Duas décadas depois do fim da União Soviética, a sua principal ex-república, a Rússia, retoma o desejo de ser considerada superpotência e tenta ressurgir como elemento relevante na política internacional.

"O novo presidente terá de agir com firmeza para conter ou contornar as ações russas na política internacional. O maior exemplo disso é a influência do presidente Vladimir Putin na Síria. Seu apoio ao presidente sírio, Bashar al-Assad, é uma contestação aos Estados Unidos, que apoiam os rebeldes. As divergências tendem a aumentar", afirma Rudzit.

O professor Rodrigo Gallo concorda: "Putin já há algum tempo vem mostrando um discurso mais agressivo, querendo marcar território e demonstrar que a Rússia é relevante na política internacional. Vai fazer de tudo para ser ouvido e ter sua opinião acatada".

Oliver Stuenkel diz que o mundo pós-comunismo, que todos imaginavam ter mais estabilidade, convive na segunda década do século XXI com muitas incertezas. "A hegemonia dos Estados Unidos tem limite, e hoje vemos uma Rússia empoderada, em busca de afirmação e querendo ser ouvida. Hillary é bastante experiente e contará com uma política estabelecida pelo governo Obama. Já a política externa de Trump é uma completa incógnita." 

Oriente Médio conflagrado e descontrolado

Donald Trump traçou, em sua estratégia de campanha, ataques frontais à política externa do presidente Barack Obama, desenhada, em grande parte, por Hillary Clinton enquanto secretária de Estado. "O mundo está uma bagunça, e a culpada é Hillary", diz o republicano em todos os seus discursos.

Gunther Rudzit afirma que a questão do Oriente Médio será um dos grandes problemas para o próximo presidente. "A região está conflagrada e nada indica que haja perspectiva de solução. A guerra civil na Síria e a existência do Estado islâmico também no Iraque indicam que as potências ocidentais têm menos controle da situação do que achavam que tinham pouco tempo atrás."

Gallo acrescenta outra preocupação para os Estados Unidos na região em 2017: o preço do petróleo. "Pacificar a área é um ponto que estará na mira do novo presidente. Os Estados Unidos ainda precisam do petróleo produzido pelos países do Oriente Médio e a tensão constante é um fator de instabilidade política e econômica."

Reuters
Militantes islâmico balança bandeira do Estado Islâmico em Raqqa, na Síria

Terrorismo

Nenhum dos dois candidatos apresentou propostas concretas para o combate ao terrorismo internacional, e terão de apostar na eficiência dos serviços de segurança nacionais dos Estados Unidos.

Os professores Rudzit  e Gallo dizem que o terrorismo seguirá como item prioritário até em razão dos insucessos que o Estado Islâmico tem colecionado nos últimos 18 meses. "O encolhimento do grupo terrorista, que sofre derrotas militares e vê diminuírem as fontes de financiamento, pode levar à origem de tudo, que é o terrorismo puro e simples em várias partes do mundo", diz Gallo.

Para Rudzit, será um desafio para o futuro presidente estabelecer novas estratégias para combater o terrorismo. "É um erro achar que a Europa Ocidental é o alvo por conta dos mais recentes ataques na França e na Alemanha."

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