'Vitória de Trump representa voz dos esquecidos', diz ex-embaixador brasileiro

Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo

  • John Locher/AP

    O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, pouco antes de seu discurso da vitória

    O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, pouco antes de seu discurso da vitória

O ex-embaixador do Brasil em Washington (EUA) Rubens Barbosa considera a eleição do republicano Donald Trump como expressão do descontentamento de um amplo setor da população média norte-americana. "A vitória de Trump representa a voz dos esquecidos dos Estados Unidos. [...] Pessoas de classe média, classe média baixa desiludidas com os resultados da globalização, que concentrou a riqueza", diz em entrevista ao UOL.

Para Barbosa, embaixador em Washington entre 1999 e 2004, no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, esse grupo de pessoas, que aderiu ao discurso nacionalista mais agressivo de Trump, sofreu as consequências diretas da crise financeira iniciada em 2008, perdendo emprego, casa, dignidade, endividando-se. "Muitas dessas pessoas se recuperaram, mas muitas delas ainda não", nota. "Trump soube como ninguém interpretar esse sentimento."

Edson Lopes Jr./UOL
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Caldo de cultura

A vitória de Trump seria mais um lance do movimento conservador que avança pelo mundo? Para o ex-diplomata, não exatamente. Trata-se, sim, de um "novo caldo de cultura", resultado do aprofundamento da desigualdade (e da concentração da renda) em todo o mundo e do crescente movimento de imigração.

Embora se diga um tanto surpreso com a vitória de Trump, influenciado pelas pesquisas que projetavam a eleição da candidata democrata Hillary Clinton, Barbosa pondera que a marca dessa eleição era a imprevisibilidade: "Foi a mais sui generis da história dos Estados Unidos, e a vitória de Trump não é, portanto, surpresa", diz.

Mas o resultado tem, em sua opinião, ao menos quatro grandes perdedores imediatos: a mídia, os institutos de pesquisa, o Partido Democrata e a ala do Partido Republicano refratária a Trump.

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Risco limitado

Barbosa minimiza o fator de risco da futura gestão Trump, citando o discurso da vitória dele, na madrugada desta quarta-feira (9), em que acenou com a união do país. "Ele foi magnânimo na vitória e já estendeu a mão a todo mundo."

O ex-embaixador lembrou também que "uma coisa é a campanha, e outra é governar", dizendo não acreditar no avanço de propostas polêmicas de Trump, como a envolvendo os imigrantes nos Estados Unidos. "Talvez pegue alguns ilegais, mas não vai expulsar 11 milhões do país", afirma. "Ele não vai governar sozinho. Não será um revolucionário."

Brasil

Sobre a relação diplomática do Brasil com os Estados Unidos, Barbosa acredita que nada mudará com o governo Trump. "O Brasil não é prioridade da política externa norte-americana", diz. Para o ex-diplomata, o aprofundamento das relações do Brasil com os Estados Unidos, do ponto de vista da economia, dependerá muito mais de os brasileiros "fazerem a lição de casa", com a aprovação de reformas.

Questionado sobre possíveis semelhanças entre a eleição de Trump e a de João Doria Júnior (PSDB) para prefeito de São Paulo (os dois apresentaram versões de mesmo programa televisivo, "O Aprendiz"), Barbosa diz haver apenas uma: "Os dois representam uma visão contra os políticos, contra as elites dirigentes. Só isso".

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