Macron quer governo de esquerda, direita e centro, diz estrategista da campanha francesa

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

  • Eric Feferberg/ AFP

A campanha de Emmanuel Macron diz que não tem o sucesso assegurado nas urnas neste domingo (7), mas espera uma votação vitoriosa para o candidato do movimento político En Marche! --que não se identifica exatamente como um partido. Para o consultor político de Macron, Luis Costa Bonino, é justamente o conceito político do En Marche! (Em Marcha), que se intitula independente, que assegurou o sucesso da legenda no primeiro turno: "Um projeto integrador, de união, acima da rivalidade esquerda-direita".

"Seria uma novidade na República francesa e abriria caminho para formar um governo amplo de centro, esquerda e direita liberal", diz Bonino em entrevista ao UOL por e-mail às vésperas do segundo turno.

Macron chega ao segundo turno liderando as pesquisas de intenção de voto contra sua rival, a direitista Marine Le Pen, da Frente Nacional, que passou para o segundo turno com 21,53% dos votos --contra 23,75% de Macron. Os resultados são próximos, mas refletem a disputa acirrada no primeiro turno francês, em que os quatro primeiros colocados apresentavam números bastante próximos, tanto que o ex-premiê François Fillon ficou com 19,91% dos votos, e Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical, ficou com 19,64%.

Fillon declarou seu apoio a Macron, e Mélenchon se recusou a apoiar qualquer candidato, ainda que seu partido, o França Insubmissa, tenha emitido nota afirmando que nenhum de seus integrantes votará em Le Pen.

Na avaliação de Bonino, o atentado ocorrido na avenida Champs-Élysées dias antes da votação que levou Le Pen ao segundo turno não influenciaram na votação da candidata.

"Fora da França existe esta crença de que todo ato terrorista aumenta automaticamente a intenção de voto da Frente Nacional e de Marine Le Pen. Mas a Frente Nacional tem 45 anos de idade e já passou por várias ondas terroristas, nos anos 80 e nos últimos dois anos, e o seu eleitorado subiu relativamente pouco neste período", avalia o estrategista político.

Bonino lembra ainda que a Frente Ampla nunca passou de pouco mais de 20% dos votos. "E os resultados eleitorais do primeiro turno mostraram números similares aos das pesquisas que foram feitas antes do atentado que tirou a vida de um policial", diz. Mas ele lembra que o terrorismo está em primeiro lugar nas preocupações de todas as forças políticas francesas atualmente, inclusive Macron.

"Macron, se eleito, terá uma força-tarefa sob seu comando direto exclusivamente para combater o Estado Islâmico dentro da França e fora de suas fronteiras", ressalta o estrategista. "O recrutamento interno só será controlado com inteligência militar e policial. Mas a perspectiva social também deve ser abordada para prevenir a radicalização de jovens em situação de marginalidade", opina.

"Político com todas as letras"

Esta é a primeira vez que Macron disputa uma eleição, ainda que ele tenha sido ministro da Economia do presidente François Hollande, que deixará o posto em breve. Ex-integrante do Partido Socialista de Hollande, deixou a legenda para fundar o seu próprio movimento em 2016. "Ele tem todos os atributos de alguém que pertence à mais tradicional elite política francesa. (...) Ele não é um 'não político', é um político francês com todas as letras", defende o conselheiro político, rechaçando o rótulo de que Macron seria um "não-político".

Se eleito, será o presidente mais jovem da história da França. Le Pen, sua rival, não está em sua primeira disputa pela presidência --ela já disputou em 2012, quando ficou em terceiro lugar com 17,9% dos votos.

É a segunda vez em que a Frente Nacional chega ao segundo turno: a primeira foi em 2002, com o pai de Marine e fundador da legenda, Jean-Marie Le Pen. Ele foi expulso do próprio partido pela filha, ainda que mantenha a presidência de honra. Marine até tentou acabar com a imagem de um partido antissemita e racista, mas mantém seu discurso de extrema-direita com enfoque antiglobalização, anti-imigratório e anti-UE --e, de quebra, atrai a classe operária, já que defende a preferência de empregos no país para os franceses.

Macron teve sua votação maior em centros urbanos, enquanto Le Pen tem maioria no interior e áreas mais rurais. Para a campanha de Macron, a explicação para isso, segundo Bonino, é o fato de movimentos políticos, partidos e ideias novas circularem com mais facilidade em contextos urbanos e grandes cidades --e isso, segundo ele, ocorre em todos os países, e não somente na França.

A aposta do En Marche! caso Macron seja eleito no domingo, para que ele consiga garantir uma maioria nas eleições legislativas de junho --para governar com apoio-- é que a vitória fortaleça o seu nome também nas áreas suburbanas e rurais.

Outra vantagem, na análise de Bonino, é a de que Macron tem o apoio de outras referências partidárias, como republicanos e dos socialistas, incluindo o ex-premiê Manuel Valls. "A coalizão será plural, e a diferença urbano-rural será seguramente dissolvida no primeiro governo se Macron for eleito."

Os programas de governo de Macron e Le Pen

Afinidades de Trump e Le Pen

Para analistas de todo o mundo, a radicalização do discurso político durante a campanha francesa é comparável à campanha de Donald Trump nos EUA e aos apoiadores do Brexit no Reino Unido (a saída do país da UE). Bonino lembra que o sentimento antieuropeu e protecionista não está somente na fala de Le Pen, mas também no esquerdista Jean-Luc Mélenchon, já que ambos promoveram a saída da França da União Europeia em suas campanhas, ainda que a França tenha ainda um apoio maior ao bloco.

"As afinidades de Le Pen com Trump são claras. O projeto dela pode ser visto até mesmo de forma mais extrema do que o de Trump, já que não podemos nos esquecer de que o seu partido foi cofundado em 1972 por Léon Gaultier, membro das Waffen SS", diz o cientista político em referência aos guardas nazistas.

O papel de Brigitte Trogneux

Eric Feferberg/AFP
Emmanuel Macron e sua mulher, Brigitte Trogneux, após o primeiro turno da eleição

Brigitte Trogneux roubou a cena na reta final da campanha quando a imprensa passou a destacar a diferença de idade do casal --a mesma entre Melania e Donald Trump-- e o fato de eles terem se conhecido na adolescência de Macron, quando ela era professora na escola em que estudava. Ela manteve um perfil mais discreto na campanha presidencial, mas esteve o tempo todo ao lado do marido.

Macron chegou a defender que, se eleito, gostaria que a primeira-dama tenha um papel mais ativo, contrariando a tradição da política moderna. Na opinião de Bonino, como desde os tempos de Charles de Gaulle (1959-69), o presidente tem o "domínio reservado" da política externa, Brigitte poderia adotar uma postura mais ligada às questões de ajuda e solidariedade internacional.

"Se ela tiver alguma atividade ligada à política interna, seria um diferencial muito forte e uma novidade, mas acho pouco provável", opina o estrategista político.

"A área de atuação de Brigitte , se ela se tornar primeira-dama, pode estar orientada pelo que foi Danielle Mitterrand", diz Bonino.

Danielle foi primeira-dama entre 1981 e 1995, e teve, além de uma fundação criada em 1996 que levava seu nome, uma atuação forte na defesa de minorias étnicas e de questões políticas como a tibetana e o Apartheid na África do Sul --quando Nelson Mandela foi libertado, sua primeira visita à França foi para Danielle Mitterrand.

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