Após ser afastada como homem, transgênero volta a ser policial como mulher

Luis Andres Henao

Da Associated Press, em Buenos Aires

  • Natacha Pisarenko/ AP

    A policial Analia Pasantino diante de seu escritório na polícia federal, em Buenos Aires, Argentina

    A policial Analia Pasantino diante de seu escritório na polícia federal, em Buenos Aires, Argentina

Analia Pasantino serviu a polícia federal da Argentina como um homem por 20 anos, então ela revelou ser uma mulher transgênero e foi forçada a se afastar da corporação.

Ela está sorrindo nestes dias, no entanto, orgulhosa de vestir um uniforme policial de novo. E o letreiro na porta de seu escritório diz: "chefe"

Aproximadamente uma década depois de avaliações psiquiátricas dizerem que Pasantino sofria de uma doença "irrecuperável" que a fez incapaz de servir, ela foi reincorporada à força policial esta semana e nomeada vice-comissária policial no departamento de comunicações judiciais.

"Isto é um marco", disse Pasantino, 49, à agência de notícias Associated Press nesta quinta-feira (11). Eu sou a primeira chefe policial transgênero da América Latina. É um passo sem precedentes e importante para mostrar para a América Latina e o mundo que nós somos uma instituição aberta".

A Argentina se tornou um líder mundial em direitos dos transgêneros em 2012 quando deu às pessoas liberdade para mudar sua identidade física e legal de gênero simplesmente porque eles queriam, sem ter de passar por processos judiciais, médicos ou psiquiátricos. O governo também legalizou o casamento gay em 2010.

"O mundo mudou", diz Pasantino. "Você pode viver a vida de uma identidade de gênero e não precisa mais viver uma vida dupla".

Natacha Pisarenko/ AP
Pasantino disse que foi forçada a pedir licença do departamento de polícia depois que se tornou uma mulher transgênero em 2008

Pasantino lutou com esta dualidade muito antes de ser aprovada a lei de identidade de gênero. Ela se uniu a força policial como um homem em 1988 e se tornou um policial condecorado, um respeitado porta-voz da polícia e então o líder de uma equipe de combate a narcóticos. Mas em seu lar, ela vivia como uma mulher.

Durante sua transição, ela sempre teve o apoio de sua mulher, Silvia Mauro.

Quando Pasantino começou a vestir saias e saltos altos, o casal passou a sair à noite pela porta da garagem para evitar os olhares dos vizinhos. Eles passavam por toda Buenos Aires, mas a Pasantino faltava a coragem de sair do carro.

"O momento decisivo aconteceu quando minha mulher finalmente me disse: 'ou você desce ou você nunca mais vai sair de casa vestindo desse jeito. Aguentei você se preparando por três horas e se maquiando'".

Pasantino e Mauro se apaixonaram durante a faculdade e vivem como um casal por 31 anos.

Juntos, eles lutaram contra a burocracia que inicialmente impedia a mudança do nome masculino de Pasantino na certidão de casamento e de obter seus direitos. Pasantino, que tem cabelos loiros até os ombros, ainda usa o mesmo anel de noivado que ela usou como um homem tempos atrás.

"Ela me apoiou em tudo", diz Pasantino sobre Mauro, que é uma advogada. "Foi meu pilar para suportar [tudo isso]".

Natacha Pisarenko/ AP
A policial Analia Pasantino fala com o agente Juan Romero

Pasantino disse que foi forçada a pedir licença do departamento de polícia depois que se tornou uma mulher transgênero em 2008. A cada três meses, ela apresentava uma avaliação psiquiátrica na  esperança de ser reintegrada à polícia, mas um comitê estendeu sua licença em repetidas ocasiões.

"Sempre era visto como uma doença", diz. "Por mais seco que soe, o diagnóstico final era; um distúrbio em identidade de gênero que me fez irrecuperável para a força policial".

Então a liderança da polícia federal mudou e ela conseguiu a reintegração, segundo Pasantino.

Ela também credita aos esforços de Mara Perez, uma mulher transgênero que lidera a divisão de diversidade do ministério de segurança da Argentina. "Os esforços de Mara não têm preço", diz Pasantino. "Quando eles disseram 'não' durante as administrações anteriores, ela continuou insistindo até ser bem-sucedida".

Esta semana, Pasantino recebeu mensagens de apoio de antigos colegas e pedidos para entrevistas depois que foi reintegrada à força policial durante sessão transmitida pela TV com a presença do ministro da segurança da Argentina e o chefe da polícia federal.

"Inicialmente me senti um pouco sufocada por tanta atenção. Mas estou orgulhosa por contar minha história", disse. "E espero que ela ajude outras pessoas".

Tradutor: UOL

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