Campanhas apostam em voto jovem para mudar rumos do Brexit

Lais Cattassini

Colaboração para o UOL, em Londres

  • Phil Noble/Reuters

    Jovens tiram selfie com Jeremy Corbin, líder do Partido Trabalhista, de oposição, em Leeds (Inglaterra)

    Jovens tiram selfie com Jeremy Corbin, líder do Partido Trabalhista, de oposição, em Leeds (Inglaterra)

Jovens entre 18 e 25 anos são alvo de campanhas de incentivo ao voto nas vésperas das eleições gerais no Reino Unido. O grupo de eleitores, que não teve grande participação durante o referendo pelo Brexit, poderá definir como será a saída da União Europeia.

Apesar de o Reino Unido já ter ativado o artigo 50, comunicando o rompimento com o bloco econômico, os representantes eleitos na próxima eleição serão responsáveis por negociar com os outros países europeus questões como acordos econômicos e imigração com os outros países europeus.

Para levar os jovens às urnas, a Comissão Eleitoral do Reino Unido tem realizado campanhas em programas de rádio, TV e redes sociais. O Palácio de Westminster, onde funciona o Parlamento, também está oferecendo a jovens entre 18 e 24 anos visitas gratuitas à Casa dos Comuns, Casa dos Lordes e ao Westminster Hall, tour que custa cerca de 18 libras (cerca de R$ 73).

Oportunidades de emprego e o trânsito livre entre países europeus são algumas das principais preocupações dos mais jovens com relação ao Brexit. Um levantamento com cerca de 250 mil jovens realizado pela Represent, plataforma destinada a aumentar a participação e o diálogo entre eleitores e legisladores no Reino Unido, listou algumas das prioridades e interesses dessa geração.

Entre as demandas principais está manter o direito de estudar na Europa, não dificultar a imigração de pessoas da União Europeia e garantir que os jovens sejam mais bem representados no futuro. Em geral, os jovens gostariam que o Reino Unido continuasse parte do mercado europeu e desejam que o direito de trabalhar e transitar entre os países do bloco econômico seja mantido.

Lais Cattassini/UOL
Mahesh Chhiba, 22, votou contra a saída o Brexit no referendo

"Sempre quis trabalhar na Alemanha, na Suíça ou na Áustria, onde as oportunidades de emprego e o clima são melhores do que na Inglaterra. Mesmo saindo da União Europeia eu espero que seja possível manter acordos de visto de turismo ou visto de trabalho", afirma Dhruv Joshi, de 22 anos.

As eleições poderão definir como será realizada a saída do Reino Unido da União Europeia, estabelecendo que direitos ou restrições serão mantidos com o bloco econômico. "Há coisas pequenas em jogo nessas eleições que podem influenciar as negociações, mas muito já está em movimento", avalia Kathryn Corrick, COO e co-fundadora da Represent.

Mais de 170 mil pessoas com menos de 25 anos já se registraram para votar, de acordo com dados do governo britânico. Logo após a primeira-ministra Theresa May convocar as eleições, cerca de 58 mil jovens buscaram o direito ao voto, um recorde de inscrições.

"Eu acho que o Brexit mostrou como a política afeta nossas vidas diretamente e isso vai encorajar os jovens a moldar como será realizada a saída da União Europeia. Aqueles com menos de 25 anos têm o dever de se fazerem ouvir sobre o futuro do país. Se eles querem que algumas políticas que os beneficiam diretamente sejam adotadas, então precisam mostrar que se importam. Votar é a maneira mais fácil de fazer isso", afirma Rachael Farrington, fundadora da organização Voting Counts, destinada a encorajar jovens a votarem. 

Lais Cattassani/UOL
Rhushabh Maugi, 24

Segundo levantamento da London School of Economics, cerca de 64% das pessoas com até 25 anos que podiam votar no referendo compareceram às urnas. Entre os eleitores com mais de 65 anos, o índice de participação foi de 90%. De acordo com a organização YouGov, que monitora dados políticos no Reino Unido, pessoas mais jovens votaram majoritariamente para que o Reino Unido continuasse parte da União Europeia.

"O Brexit mudou tudo para os jovens, porque a maioria das pessoas que votou para deixar a União Europeia eram mais velhos. Eu acho que a discussão se tornou mais pública. Os jovens estão mais envolvidos, especialmente porque essa eleição vai definir como vamos realizar o Brexit e, no fim, é a geração mais nova que vai lidar com as condições estabelecidas para essa saída", avalia o estudante Nathan Ritchie, 25.

Para o estudante Nisarg Acharya, 24, que votará pela primeira vez, as eleições gerais serão uma oportunidade para se fazer ouvir. "Eu aprendi que eu preciso começar a votar. É uma maneira da sua voz ser ouvida. Se você não vota, mesmo que tenha opiniões políticas, as pessoas acham que você não tem o direito de dar a sua opinião", afirma.

Mahesh Chhiba, 22, votou pela primeira vez durante o referendo pelo Brexit, esperando que o Reino Unido continuasse parte do bloco econômico. "Não acho que os jovens estejam tão interessados em política quanto deveriam. Minha geração precisa estar mais a par do que está acontecendo no mundo, porque no fim o futuro é nosso", afirma.

"O Brexit é um exemplo perfeito de como cada geração está preocupada com suas próprias questões e não leva em consideração as gerações futuras ou os mais velhos. Os jovens estavam mais interessados em se movimentar dentro da UE e em como isso afetaria oportunidades de emprego, não como isso poderia melhorar o Reino Unido no futuro", avalia Rhushabh Maugi, 24.

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O estudante Nisarg Acharya, 24, votará pela primeira vez

Para Kathryn Corrick, o alto número de jovens que já se registraram para votar mostra um maior interesse desse público na política, mas há também uma preocupação com a fatiga de processos eleitorais.

"Há um interesse maior, sim, mas também uma fatiga maior. Nos últimos dois anos tivemos três eleições de impacto nacional, o que não é comum para a nossa política. Além disso, as pesquisas prévias se mostraram pouco confiáveis, o que leva as pessoas a ficarem mais cansadas da política. Muito pode mudar. Pode ser que mais gente apareça para votar, mas também que até junho os eleitores se cansem do debate."

"É muito encorajador que tantos jovens já tenham se registrado para votar", avalia a diretora de campanhas da comissão eleitoral, Emma Hartley. "Nossas pesquisas mostram que além de estudantes e pessoas que mudaram recentemente de distrito eleitoral, os jovens com menos de 25 anos não costumam se registrar para votar."

"Se envolver com a política é algo de longo prazo e exige comprometimento. Os jovens enfrentam muitas barreiras para se interessarem e se envolverem na política. É por isso que é importante colocar esses jovens em contatos com os responsáveis pelas decisões do país", completa.

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