Por que o depoimento do ex-diretor do FBI ao Senado é uma ameaça a Trump

Do UOL, em São Paulo

  • Yuri Gripas/ AFP

O ex-diretor do FBI James Comey testemunhará no Senado norte-americano nesta quinta-feira (8), um episódio com potencial de comprometer Donald Trump caso Comey relacione o presidente a um possível crime de obstrução da Justiça.

Comey comandou o FBI (a polícia federal americana) até 9 de maio, quando foi demitido por Trump. Comey era o responsável por liderar as investigações sobre a suposta influência russa nas eleições presidenciais americanas do ano passado, incluindo as suspeitas de ligações entre agentes do Kremlin e membros da campanha de Trump.

A demissão de Comey gerou uma onda de protestos contra Trump, com pedidos até do impeachment do presidente por supostamente ter interferido em investigações que o atingem diretamente.

Como foi a demissão de Comey do FBI

Joshua Roberts/Reuters
22.jan.2017 - James Comey, então diretor do FBI, cumprimenta no Salão Azul da Casa Branca

Segundo o jornal "The New York Times", Trump pediu a Comey que interrompesse a investigação envolvendo seu ex-assessor de segurança nacional, Michael Flynn, e as ligações com agentes russos.

"Espero que você possa deixar isso para lá", disse Trump, segundo um memorando escrito por Comey, de acordo com o "NYT". O presidente negou.

Além disso, a imprensa americana também publicou que Trump pediu que o diretor do FBI "jurasse lealdade" ao presidente, e Comey teria respondido que entregaria apenas "honestidade".

Esse foi um dos fatores que teriam causado a demissão, assim como o descontentamento geral de Trump com a investigação em cima de sua campanha. Para ele, Comey e o FBI deveriam focar seus esforços em descobrir quem estava vazando para a imprensa as informações sobre as investigações em andamento.

Primeiro, a Casa Branca divulgou que Comey estava sendo destituído por causa da sua atuação na investigação sobre os e-mails de Hillary Clinton, pouco antes da eleição de 2016. Trump, no entanto, admitiu depois que tinha em mente a questão da Rússia quando tomou a decisão de destituir Comey.

"De fato, quando me decidi, disse a mim mesmo: 'Este assunto com a Rússia, Trump e Rússia, é uma história inventada'", disse o presidente em entrevista à NBC News.

Trump alega que o ex-diretor do FBI lhe disse três vezes que não estava sendo pessoalmente investigado e utiliza essa alegação para justificar que não o demitiu em benefício próprio.

O que Comey pode revelar e como isso pode afetar Trump

Comey se manteve em silêncio após a demissão, e suas poucas palavras sobre a saída do FBI se deram em uma carta dirigida a seus ex-subordinados na agência.

"Sempre acreditei que um presidente pode demitir o diretor do FBI por qualquer motivo, ou por motivo nenhum. Não gastarei meu tempo falando sobre como a decisão foi tomada e espero que vocês também não façam isso. Foi decidido, e eu ficarei bem, apesar de saber que sentirei falta de vocês e desta missão", escreveu.

O ex-chefe do FBI, no entanto, falará ao Senado sobre as supostas pressões da Casa Branca. Dependendo do teor de seu depoimento e dos memorandos detalhados que Comey escreveu sobre todos os encontros com Trump, o presidente pode ser enquadrado em um cenário de obstrução da Justiça --e, consequentemente, em um processo de impeachment no Congresso--, caso fique comprovado que ele tentou interferir na investigação.

Essa hipótese, no entanto, ainda gera dúvidas por causa da abrangência do termo "obstrução de Justiça" no sistema de leis norte-americano e se isso poderia de fato se aplicar à demissão do diretor do FBI. Além disso, existem as implicações políticas; um impeachment teria de ser referendado por maioria simples na Câmara e dois terços do Senado, sendo que as duas Casas têm maioria republicana.

Outro ponto a favor de Trump é o depoimento de Andrew McCabe, diretor interino do FBI, que disse ao Senado americano dois dias depois da demissão de Comey que a Casa Branca não interferiu na investigação.

Entenda o envolvimento da Rússia na política americana

Quem é James Comey

Comey, 56, fez carreira como procurador federal em Nova York e chegou ao cargo de vice-secretário de Justiça em 2003, durante o governo de George W. Bush, ficando até 2005.

Nesse período, entrou em conflito com membros da Casa Branca sobre um programa de vigilância de cidadãos que seria adotado pelo governo. Comey apoiou a posição do então secretário de Justiça, John Aschcroft, contrários aos métodos do programa, e ambos foram pressionados por integrantes do governo Bush.

O presidente, no entanto, aceitou a determinação do Departamento de Justiça e fez alterações no programa.

Depois de passar alguns anos trabalhando no setor privado, Comey retornou ao governo pelas mãos de Barack Obama, assumindo o comando do FBI em maio de 2013 para um mandato de dez anos --tradição do cargo.

Kevin Lamarque/Reuters
28.out.2013 - Comey meses depois de ser indicado ao FBI por Obama

Hillary culpou Comey por derrota para Trump

Até o início da investigação sobre os laços entre a campanha de Trump e os russos, Comey havia indignado mais democratas que republicanos por causa de sua atitude durante a investigação sobre o uso que Hillary Clinton fez de um servidor privado de e-mails quando era secretária de Estado de Obama.

O FBI iniciou a investigação em 2015 e, em julho do ano passado, Comey afirmou que Hillary não seria indiciada por nenhum crime, mas ressaltou que os democratas haviam sido "extremamente descuidados" no tratamento de informações confidenciais.

Onze dias antes da eleição, o FBI anunciou a reabertura da investigação e só a encerrou, novamente sem condenação a Hillary, na antevéspera da votação.

Hillary chegou a dizer que perdeu a eleição para Trump por causa da decisão do diretor do FBI de reabrir as investigações.

"Estava no caminho para a vitória até que a carta de Jim Comey de 28 de outubro e o WikiLeaks russo geraram dúvidas na cabeça das pessoas que se inclinavam a meu favor e que acabaram ficando com medo", declarou a ex-candidata democrata em maio. "Se a eleição tivesse acontecido no dia 27 de outubro, eu teria sido presidente."

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