Contra crime, ONG paga universidade a ex-membros de gangues nos EUA

Carlos Oliveira

Colaboração para o UOL

  • Romana Vysatova/Divulgação

    Giovanne Morris, Gerard Scott e Giovanny Martinez, participantes de programa que subsidia educação a ex-membros de gangues em Boston (EUA)

    Giovanne Morris, Gerard Scott e Giovanny Martinez, participantes de programa que subsidia educação a ex-membros de gangues em Boston (EUA)

Matt Jackson, 34, cresceu em uma família envolvida no tráfico de drogas em Boston, nos EUA. Entrou no crime, passou cinco anos preso e nunca mais conseguiu emprego fixo. O nascimento de sua filha, em 2011, foi o estopim para começar um longo processo de mudança. Hoje ex-membro de gangue, ele recebe US$ 400 (cerca de R$ 1.250) por semana para estudar na universidade e incentivar jovens em seu bairro a não repetir sua história.

O apoio é parte do programa Boston Uncornered (Boston Libertada, em tradução livre), que busca diminuir a criminalidade ao incentivar a educação e reinserção social. "Eu preciso sustentar minha filha e procurava algo que me permitisse evoluir e também ser o melhor pai possível. Agora tenho mais tempo para ela", diz Matt, em entrevista ao UOL.

"Nosso país falhou"

"Nosso país falhou no desafio de transformar os bairros apenas por meio da educação ou de iniciativas contra a pobreza", avalia Mark Culliton, CEO da ONG College Bound Dorchester e idealizador do projeto. "Mesmo investindo bilhões de dólares e atingindo diversas famílias, as áreas com alta taxa de crime e pobreza não melhoraram", acrescenta.

O executivo menciona um ciclo vicioso visto nessas zonas: bairros pobres e violentos não oferecem oportunidades para as novas gerações, deixando os moradores sem dinheiro para se mudar.

A solução seria, portanto, atuar ao mesmo nas ruas, universidades e famílias. É o que o programa busca promover recrutando ex-presidiários ligados às gangues - os chamados influenciadores.

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O CEO Mark Culliton (esq.) e o estudante Matt Jackson

"O papel deles é se aproximar de quem tem problemas, como aqueles que voltam para as gangues após sair da prisão, e convidá-los a refletir e mudar o sistema", elabora.

"Eu achava que minha época na sala de aula já tinha passado, mas o meu tutor me acompanhou passo a passo no começo.", diz o estudante Matt, que ingressou em Terapia Ocupacional.

"Na hora de escolher uma graduação, sabia que queria ajudar os outros, seja alguém viciado em drogas, seja alguém perdido na vida. Só quero retribuir à comunidade o que recebi", acrescenta.

Romana Vysatova/Divulgação
Rua de Dorcherster, bairro foco da atuação do programa Boston Uncornered. Segundo ONG, nos últimos cinco anos, jovens ligados a gangues foram responsáveis por mais do que metade dos homicídios da cidade

Andamento

Em projetos anteriores, que não incluíam o apoio financeiro, cerca de 220 influenciadores foram recrutados, sendo que 60% continuaram estudando após dois anos. O resultado foi uma diminuição de 71% na reincidência de crimes.

A nova iniciativa começou em maio último e tem duração prevista de três anos. Entre os 40 beneficiados, a reincidência caiu 85%. A meta é colocar 250 pessoas na universidade e acolher 600 influenciadores até 2019.

Além da bolsa de estudos, os estudantes recebem apoio acadêmico e sócio-emocional por meio de um supervisor com história de vida similar a sua. Juntos, eles preparam uma espécie de plano de vida e o tutor deve se certificar que o projeto está sendo seguido.

Para analisar os acertos e erros, a ONG firmou parceria com cientistas do Laboratório de Ação contra a Pobreza do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets) e de uma escola de criminologia local. A ideia é gerar estatísticas que ajudem a criar modelos do programa aplicáveis em escala nacional.

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Matt Jackson, participante de programa que subsidia educação a ex-membros de gangues em Boston (EUA)

Orçamento

O orçamento da iniciativa, colhido por doações e editais, é de US$ 18 milhões, dos quais cerca de US$ 4,8 milhões já foram arrecadados.

Pressionado sobre possíveis críticas ao modelo, o CEO apresenta dois números: o auxílio custa US$ 30 mil ano por estudante. Já manter cada um desses jovens na prisão custaria US$ 100 mil ao ano para o Estado em manutenção, agentes de justiça e condicional, entre outros itens.

"Cada dólar investido nesses estudantes resulta em menos dinheiro gasto em encarceramento e reabilitação", argumenta.

 

O FBI (a polícia federal dos EUA) contabiliza 33 mil gangues, com um total de 1,4 milhão de membros, em atividade no país.

E o prognóstico é pessimista: "Gangues de todos os tipos mantêm-se firme em seus objetivos de gerar receita e ganhar controle dos territórios onde habitam; e, em sua dedicação a esses objetivos, continuam a crescer em número e a expandir suas atividades criminais", conclui o último Relatório Nacional de Gangues, elaborado pela instituição em 2015.

Segundo a ONG, nos últimos cinco anos, jovens ligados a gangues foram responsáveis por mais do que metade dos homicídios da cidade.

"Os influenciadores desse grupo têm carisma natural, inteligência e talento. Eles eram líderes nas ruas, influenciavam e tinham seguidores. Com a motivação certa e apoio, essas qualidades podem ser aproveitadas para transformá-los em modelos positivos", defende o CEO.

"Um dos meus sonhos é completar o mestrado", confidencia Matt. "Meu objetivo final é abrir uma ONG fora de Boston, em algum lugar que não tenha oportunidades. Eu senti na pele como um programa desses pode ajudar as pessoas e quero continuar esse trabalho."

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