"Agressões de todos os lados": jornalistas têm rotina de violência na Venezuela

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

  • Ivan Alvarado/ Reuters

    Jornalista corre de jato d'água lançado por carro das forças de segurança durante protesto contra o governo de Nicolás Maduro, em Caracas

    Jornalista corre de jato d'água lançado por carro das forças de segurança durante protesto contra o governo de Nicolás Maduro, em Caracas

A fotojornalista venezuelana Fabiola Ferrero foi cercada por mais de 20 civis armados enquanto cobria o dia da votação para a Assembleia Constituinte venezuelana. Ela ainda tentou se esconder atrás de uma árvore, mas era tarde demais: os homens, que estavam em motocicletas, a viram com o capacete e a máscara de gás nas mãos. De cara, a obrigaram a entregar o seu colete à prova de balas, item comum entre os profissionais que cobrem a crise no país.

Eles levaram também o restante dos equipamentos de segurança, sua bolsa e todo o seu material de trabalho, incluindo câmera fotográfica. Ela chegou a ser revistada por eles, para garantir que não estavam deixando nada para trás: encontraram o seu celular, e também o levaram.

"Você não pode trabalhar livremente porque te roubam, te agridem."

O relato de Fabiola é uma triste e comum realidade entre os profissionais de imprensa que atuam no país, ameaçados constantemente pelos chamados "coletivos", milícias civis armadas chavistas. Ela aguardava uma moto –o único meio de transporte possível para chegar e sair dos protestos com segurança e rapidez.

"O grupo que me cercou tinha entre dez e 15 motos, com duas pessoas em cada uma. Com certeza eram mais de 20 pessoas, e desceram com as armas apontadas para mim. E não adiantou esconder o colete com uma jaqueta, foi a primeira coisa que me obrigaram a entregar", conta a jornalista ao UOL.

Fabiola conta que é fácil identificar estes grupos, já que eles não fazem questão de esconder a sua atuação. Identificam-se inclusive com uma faixa nos braços. Este foi o primeiro ataque sofrido por ela. No mesmo dia da votação da Assembleia Constituinte, outros jornalistas relataram ter sofrido ameaças semelhantes. Segundo o Comitê de Proteção aos Jornalistas, quatro jornalistas foram presos.

Segundo ela, para manter o mínimo parâmetro de segurança, a imprensa tenta ficar o tempo todo unida nas ruas. E, segundo ela, quanto menor o protesto, mais ele é perigoso. "As marchas acabaram, agora são protestos pequenos, pessoas que entram em confronto com a guarda bolivariana. Isso significa que são poucas testemunhas do que está acontecendo, é mais perigoso tanto para os que protestam quanto para os jornalistas que acompanham o ato", explica a fotojornalista.

Juan Barreto/ AFP
Jornalistas se protegem durante confrontos em Caracas

Segundo ela, nas últimas semanas, os ataques contra jornalistas têm se tornado ainda mais frequentes. "Se você fica sozinho, é muito mais perigoso. Cada um faz o seu trabalho, mas tentamos sempre estar juntos, para que uns vejam os outros".

Todo o equipamento de trabalho foi levado no roubo da milícia. Como é freelancer, Fabiola ficou sem ter como trabalhar e com todo o prejuízo. Um dos jornais para o qual ela colabora frequentemente se dispôs a ajudá-la a comprar novos equipamentos –o país têm vetado a entrada de jornalistas estrangeiros no país, logo os jornalistas independentes são uma opção para acompanhar a crise política.

"As agressões vêm de todos os lados, tanto dos grupos armados quanto das forças de segurança ou dos grupos de resistência opositores."

"A crise política criou um clima em que o assédio e a violência física são parte da rotina diária de muitos jornalistas e impede que os meios de comunicação informem", disse Carlos Lauría, coordenador do programa das Américas do CPJ.

Impacto humanitário

A violência não é a única dificuldade enfrentada pela imprensa. A jornalista venezuelana Mariana Zuñiga destaca também o impacto psicológico, não só pela violência física ou verbal. "Algumas vezes é difícil não chorar com as histórias que escutamos todos os dias. É muito difícil entrevistar pessoas que passam fome e não têm como alimentar seus filhos, ou pessoas que sofrem com alguma doença e não conseguem ou não têm dinheiro suficiente para comprar medicamentos", diz Mariana.

"No jornalismo, supõe-se que você não deve interferir, dar dinheiro a seus entrevistados, isso é mal visto. Mas como ver uma situação dessa e não fazer nada para ajudá-los?", questiona a repórter.

Outra dificuldade são as chamadas "fake news" (notícias falsas). "As redes sociais e plataformas de mensagens digitais, como Whatsapp, se converteram em fonte de informação para muitos venezuelanos. O problema é que estas plataformas se transformaram em lugares ideais para difundir notícias falsas e rumores", diz Marina.

"É preciso evitar a todo custo e o tempo todo checar a informação antes de publicar qualquer coisa. Não importa se você é o último a publicar a notícias quando você sabe que o que está dizendo é o real", afirma a jornalista.

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