Como a menstruação virou questão política e causou até prisão na África

Rodney Muhumuza

Da Associated Press

  • Stephen Wandera/AP

    Mulher trabalha na fabricação dos absorventes conhecidos como 'Makapads', em fábrica em Kampala

    Mulher trabalha na fabricação dos absorventes conhecidos como 'Makapads', em fábrica em Kampala

Algumas garotas menstruadas estavam trancadas em quartos enquanto os garotos estavam em salas de aula. Para evitar a humilhação, algumas ficaram em casa.

À medida que mais garotas deixam de ir para a aula porque elas não podiam pagar por absorventes, autoridades em uma escola fora da capital Uganda, em Kampala, foram forçadas a fazer o que poucos fizeram: fornecer absorventes de graça.

"Nós olhamos a taxa de ausência e você veria que em uma sala de aula onde seis pessoas estão ausentes, pelo menos quatro delas são meninas. Algumas corajosamente vieram até nós e disseram: "Quando estamos no nosso período não existe nenhum cuidado, então é por isso que preferimos ficar em casa", disse Vincent Odoi, professor da escola secundária Wampewo Ntakke.

A higiene íntima surgiu como um assunto sério e muitas vezes emocional na África, onde alguns especialistas dizem que governos devem fornecer absorventes gratuitos para as estudantes que ocasionalmente estão em risco de abandonar a escola por causa da vergonha.

Essa questão recentemente se tornou um problema político em Uganda, quando um proeminente acadêmico foi preso por chamar o presidente Yoweri Museveni de "um par de nádegas" depois que o governo quebrou a promessa de oferecer absorventes gratuitos para as estudantes em diversos locais do país.

Stephen Wandera/AP
Absorventes biodegradáveis conhecidos como 'Makapads' são produzidos em Kampala, na Uganda

Uma de cada dez estudantes africanas faltam à escola durante o período de menstruação, de acordo com as Nações Unidas. Muitas, depois de um tempo, acabam abandonando os estudos.

Em junho, o presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, assinou uma lei autorizando o governo a fornecer absorventes para adolescentes em escolas públicas em todo o país. A Zâmbia anunciou um plano similar em 2016 visando estudantes em áreas rurais e semi-rurais do país.

Mas em outros lugares da África, os apelos por absorventes gratuitos não foram bem sucedidos.

Stella Nyanzi, pesquisadora da Universidade Makerere de Uganda, enfrentou acusação de crime depois de dizer que a família que governa o país não se preocupa com as pessoas comuns quando o governo disse que não poderia doar absorventes.

"Garotas e mulheres novas não vão parar de menstruar em um futuro próximo ou distante", disse Nyanzi à imprensa logo após ser libertada da prisão em maio, divulgando a campanha apelidada de #Pads4GirlsUg. A campanha arrecadou quase US$ 10 mil, e Nyanzi visita escolas onde ela distribui absorventes em meio de muita música e dança.

Cerca de 34% da população da Uganda vive abaixo da linha de pobreza, vivendo com menos de US$ 2 por dia, segundo dados do Banco Mundial. Grande parte da África subsaariana enfrenta níveis similares de pobreza, ou piores.

Na escola secundária Wampewo Ntakke, autoridades uma vez confinaram garotas menstruadas em quartos porque não havia água corrente e algumas meninas, que estavam sem absorventes, sangraram em classe. Mas havia outro problema: os absorventes importados estavam rapidamente preenchendo as latrinas (banheiros, vasos sanitários), impondo novos custos para esvaziá-los com frequência.

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Fábrica de absorventes biodegradáveis em Uganda

No final, o conselho da escola decidiu, em 2013, que seria mais inteligente fornecer absorventes biodegradáveis, feitos localmente, a todas estudantes. O ato quase terminou em absenteísmo ligado à higiene sanitária, disse Odoi, que supervisiona o programa.

"Isso é algo que colocamos em nosso orçamento, como qualquer outra despesa como eletricidade, água e outras", disse ele. "Nós pensamos, 'vamos providenciar uma certa quantia de dinheiro para ser destinado a isso', e funcionou. Não vimos que as despesas afetam profundamente os nossos bolsos. Isso pode ser feito"

A escola gasta cerca de US$ 1.000 em absorvente para cada trimestre escolar.

A estudante Patricia Mukashema disse que a generosidade da escola ajudou famílias que não podiam pagar por absorventes. "Agora nós não colocamos essa pressão sobre nosso país", disse ela.

Outra estudante, Patience Atim, disse que ela foi tocada por notícias de meninas estudantes da área rural de Uganda que dizem ter "muito sofrimento" quando usam outros substitutos dos absorventes.

"Elas usam lenços grandes ou fibras", disse ela.

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Papiro é utilizado na fabricação dos absorventes biodegradáveis

O absorvente dado na escola é conhecido como Makapad, o produto foi criado por um acadêmico ugandense que o criou com o apoio da Fundação Rockefeller. Os absorventes -- feitos de papelão e com papiro como absorvente -- vendem pela metade do preço dos absorventes importados, mas não há grande demanda por elas, disse o inventor Moses Musaazi.

Para Musaazi US$ 0,63 (cerca de 2.300 xelins da Uganda) por um pacote de 10 Makapads ainda é muito dinheiro para alguns ugandenses, disse Musaazi.

"Essa é uma mentalidade de pobreza. Quando alguém é pobre, você não quer gastar um xelim, mesmo se isso for algo vital para sua vida. O que eles acham essencial não é um absorvente".

Desde 2005, quando os Makapads foram revelados, a maioria foi comprado pela agência de refugiados das Nações Unidas em Uganda, disse Juliet Nakibuule, que gerencia a "Technology for Tomorrow", uma empresa local que os distribui.

Odoi, um funcionário da escola, disse que começou a pensar nos absorventes como algo essencial para o bem-estar das alunas, sendo algo tão importante quanto os alimentos e as bebidas.

"Se outros professores pudessem seguir o mesmo exemplo e dar absorventes de graça, eu acho que isso seria muito bom para o país", disse ele.

Tradutor: UOL

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