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'Coma a paisagem': cidade transforma espaços feios e sujos em horta comunitária

Moradores de Todmorden plantam frutas, verduras e hortaliças em espaços públicos  - Reprodução/Facebook/Incredible Edible Todmorden
Moradores de Todmorden plantam frutas, verduras e hortaliças em espaços públicos Imagem: Reprodução/Facebook/Incredible Edible Todmorden

Juliana Carpanez

Do UOL, em São Paulo

31/08/2017 04h00

Era uma ideia simples, porém ousada. Transformar em horta comunitária todos os pedaços de terra subaproveitados naquela cidade. Critério para escolher os espaços: os mais sujos e feios. Critério para seleção de voluntários: pessoas que comem (“if you eat you are in”, em inglês).

Com essas premissas abrangentes, pouquíssima burocracia e muita confiança nas pequenas ações, os moradores de Todmorden, no Reino Unido, criaram em 2007 o projeto Incredible Edible (comestíveis incríveis, mantendo a rima em português).

Presidente do grupo, Mary Clear reforça que este é um movimento para as pessoas compartilharem bondade  - Divulgação  - Divulgação
Mary Clear reforça que este é um movimento para as pessoas compartilharem bondade
Imagem: Divulgação
Não se trata, como parece à primeira vista, de uma iniciativa para combate à fome --mesmo considerando que qualquer pessoa pode colher as frutas, as ervas e os vegetais. “Não plantamos para alimentar a cidade. O que queremos é demarcar as estações do ano, demonstrar a aparência das plantas e dos frutos, destacar a importância dos pássaros e das abelhas, além de praticar a bondade com o trabalho coletivo e o compartilhamento daquilo que colhemos”, explicou Mary Clear, 62, presidente da associação, em entrevista por telefone ao UOL.

A comida foi a “linguagem universal” encontrada para juntar indivíduos com esses mesmos objetivos.

Hoje são 300 voluntários ligados ao projeto na cidade com 12 mil habitantes, sendo o núcleo da jardinagem composto por 30 deles. A média de permanência das pessoas no projeto é de 4,5 anos.

Duas vezes por mês, eles fazem a manutenção de todas as plantações --estima-se que no total elas ocupam 500 metros quadrados-- e terminam o trabalho com uma refeição vegana. Ao menos na terra do Incredible Edible, existe almoço grátis, sim.

"Melhor pedir desculpas do que permissão"

Um ponto forte do projeto está em passar por cima da burocracia: fala-se muito no poder da iniciativa e das pequenas ações. Prova disso está no fato de não pedirem permissão para plantar: “Só usamos espaços malcuidados, que podemos deixar mais bonitos. Se alguém se chatear, voltamos atrás. É melhor pedir desculpas do que pedir permissão”, resume.

Não existe fracasso nesse tipo de iniciativa. Se em seis meses sua pequena horta virar banheiro de cachorro, você não perdeu nada. Vá lá e faça
Mary Clear

Com esses princípios todos trabalhados na iniciativa, há hoje hortas em estacionamentos, clínicas médicas, estações de trem, laterais de linhas ferroviárias, asilos, jardins residenciais, delegacia e até no cemitério da cidade. “O solo lá é extremamente bom”, avaliou Pam Warhust, cofundadora da iniciativa, em uma palestra no evento TED intitulada “Como Podemos Comer Nossas Paisagens”. Com a afirmação no mínimo insólita, arrancou risos da plateia.

Voluntários do Incredible Edible usam espaço no cemitério de Todmorden  - Divulgação  - Divulgação
Voluntários do Incredible Edible usam espaço no cemitério de Todmorden
Imagem: Divulgação
Por menores e mais improvisadas que sejam as áreas de plantio, elas viraram atração turística. A ponto de a associação criar a rota do “turismo de vegetais”, que já recebeu mais de 2.000 visitantes --o trajeto inclui áreas verdes, locais onde é possível ver abelhas em ação e também as mercearias e mercados com produtos locais. 

Mais comunidade, menos vandalismo

Dez anos depois de as primeiras sementes do Incredible Edible serem plantadas, a cidade colhe resultados positivos, como mostra um relatório de julho de 2017 elaborado pela Universidade de Central Lancashire.

'Está pronto. Colha e aproveite', diz a plaquinha em frente a uma das plantações - Reprodução/Facebook/Incredible Edible Todmorden  - Reprodução/Facebook/Incredible Edible Todmorden
'Está pronto. Colha e aproveite', diz a plaquinha em frente a uma das plantações
Imagem: Reprodução/Facebook/Incredible Edible Todmorden
A pesquisa indica que, para 1 libra (cerca de R$ 4) investida no projeto --dinheiro arrecadado via doações e palestras--, a comunidade tem retorno de 5,51 libras (cerca de R$ 22,5), considerando o fortalecimento do turismo e do mercado locais.

Há também um sentimento de orgulho entre aqueles que participam do projeto e um fortalecimento do espírito comunitário --como a mobilização organizada pelo Incredible Edible para ajudar as vítimas de enchentes em 2012 e 2015.

O estudo também aponta uma redução nas taxas de vandalismo. “Há plantações de milho que chegam a 1,5 metro. Antes, uma flor com metade desta altura seria arrancada. Mas nenhum de nossos jardins é vandalizado e estão todos em lugares públicos”, exemplifica Mary. E as pessoas não pegam tudo o que há disponível: sempre deixam uma parte para que os outros também possam colher. 

Questionada se há algum tipo de resistência da população em relação ao projeto, ela garante que não. “Esperávamos alguma, mas ela nunca aconteceu. Arrumamos tudo depois que terminamos de plantar, recolhemos o lixo da cidade. Como não vão gostar da gente? Somos adoráveis!”, brinca.

Na frente da delegacia, uma horta. Espaços 'sujos e feios' são escolhidos para plantio  - Reprodução/Facebook/Incredible Edible Todmorden  - Reprodução/Facebook/Incredible Edible Todmorden
Na frente da delegacia, uma horta. Espaços 'sujos e feios' são escolhidos para plantio
Imagem: Reprodução/Facebook/Incredible Edible Todmorden

Força para o mercado local 

O projeto está baseado em três pilares, sendo o primeiro justamente este do fortalecimento da comunidade.

Depois vem o dos negócios, que valoriza o turismo, o comércio e os produtores locais --o exemplo aqui são os moradores que passaram a vender os ovos excedentes, entrando no “mapa do ovo” do Incredible Edible. A campanha chamada “Todo Ovo Importa” começou com quatro produtores e passou a dezenas deles (64 em 2012, quando o número foi divulgado).

“Temos agora fazendeiros produzindo queijo e eles aumentaram seus rebanhos, estão fazendo massas, tortas e coisas que nunca tinham feito antes. Temos também mais lojas vendendo comida local”, contou Pam em sua palestra no TED, em 2012.

Segundo o relatório da Universidade de Central Lancashire, os moradores de Todmorden compram mais de produtores locais do que a média do Reino Unido. Questionada se a iniciativa de comida grátis não compromete a venda deles, Mary respondeu: “As pessoas, principalmente aquelas de baixa renda, hoje conhecem muito mais verduras e legumes do que antes. E elas só podem comprar aquilo que conhecem”.

O terceiro pilar é o da educação, para ensinar crianças e adultos a plantar e cozinhar. Inclusive no principal colégio da cidade, que cedeu uma área de cultivo e incorporou no currículo uma disciplina de plantio e preparo dos alimentos.

Japoneses percorrem a rota do 'turismo de vegetais' para conhecer a iniciativa inglesa - Reprodução/Facebook/Incredible Edible Todmorden  - Reprodução/Facebook/Incredible Edible Todmorden
Japoneses percorrem a rota do 'turismo de vegetais' para conhecer a iniciativa inglesa
Imagem: Reprodução/Facebook/Incredible Edible Todmorden

É possível copiar o modelo?

O Incredible Edible compartilha gratuitamente informações para que a iniciativa seja replicada em outros lugares do mundo: segundo eles, isso acontece nos Estados Unidos, na Nova Zelândia e no Japão. No mapa do projeto há também um registro no Brasil, com a explicação “essa marca é apenas uma hipótese, talvez esteja errada”. E está. O brasileiro indicado neste mapa é o economista Sergio Schlesinger, que foi até Todmorden em 2009 para conhecer o projeto, mas não com o intuito de replicá-lo no país.

“Passei por Todmorden para conhecer esta experiência, que é uma maravilha. Me impressionaram a alegria e o orgulho daquelas pessoas pelo trabalho. Vi alimentos plantados em todos os lugares possíveis, incluindo canteiros em plena rua. Diferentemente de algumas experiências daqui, qualquer um poderia colher”, contou à reportagem.

Mary Clear enfatiza que esse modelo pode ser incorporado em cidades muito maiores que a sua, inclusive São Paulo. “Uma cidade nada mais é do que um monte de vilas juntas. Em qualquer cidade do mundo há os bairros, que as pessoas reconhecem como sendo fronteiras. Humanos são criaturas tribais e temos de fazer a diferença onde a nossa tribo está. Mesmo que seja no estacionamento do seu prédio: coloque umas caixas e comece sua horta lá. Apenas tente.”

Incredible Edible começou em 2007; cerca de 30 voluntários trabalham diretamente nas hortas  - Reprodução/Facebook/Incredible Edible Todmorden - Reprodução/Facebook/Incredible Edible Todmorden
Incredible Edible começou em 2007; cerca de 30 voluntários trabalham nas hortas
Imagem: Reprodução/Facebook/Incredible Edible Todmorden

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