Sem querer, americanos podem estar financiando o projeto nuclear da Coreia do Norte

Do UOL, em São Paulo

  • Ng Han Guan/AP

    Trabalhadora norte-coreana e retratos de líderes do país são vistos em dormitório de fábrica de processamento de frutos do mar, em Hunchun, na China

    Trabalhadora norte-coreana e retratos de líderes do país são vistos em dormitório de fábrica de processamento de frutos do mar, em Hunchun, na China

Ao comprar um pedaço de salmão em um supermercado local, cidadãos norte-americanos podem estar, sem saber, subsidiando o programa nuclear norte-coreano, além de contribuir com a escravidão moderna de trabalhadores norte-coreanos terceirizados na China.

É o que aponta uma reportagem da agência de notícias AP, publicada nesta quinta-feira (5), que aponta que 70% dos salários de norte-coreanos que atuam em fábricas chinesas, que exportam para os EUA, é confiscado pelo governo da Coreia do Norte.

A importação de produtos fabricados por trabalhadores norte-coreanos, onde quer que eles atuem, no entanto, é proibida nos Estados Unidos, de acordo com uma lei assinada em agosto pelo presidente norte-americano Donald Trump.

No momento em que sanções internacionais fazem com que a Coreia do Norte deixe de faturar cerca de US$ 1,5 bilhão por ano com exportações, o dinheiro de trabalhadores que atuam fora do país pode ser uma a importante fonte de financiamento dos programas de armas nucleares e de mísseis desenvolvidos no país, que segundo a Coreia do Sul, custou mais de US 1 bilhão. 

A investigação da AP identificou em Hunchun, na China, três processadores de frutos do mar que empregam norte-coreanos e exportam para os EUA: Hunchun Dongyang Seafood Industry & Trade Co. Ltd. & Hunchun Pagoda Industry Co. Ltd (cuja distribuição global é feita pela empresa Ocean One Enterprise); Yantai Dachen Hunchun Seafood Products, e Yanbian Shenghai Industry & Trade Co. Ltd. 

Ng Han Guan/AP
Frutos do mar congelados são armazenados em geladeira em fábrica chinesa que usa mão de obra norte-coreana

Segundo Zhu Qizhen, gerente da Hunchun Dongyang, a empresa não emprega mais trabalhadores da Coreia do Norte –a reportagem da AP no entanto, localizou trabalhadores daquele país atuando na fábrica. Já as outras empresas chinesas não responderam aos pedidos de entrevista.

Foram importados pacotes de caranguejo de neve, filetes de salmão, anéis de lula e outros frutos do mar por distribuidores americanos, incluindo Sea-Trek Enterprises, de Rhode Island, e The Fishin 'Company, da Pensilvânia.

A Fishin 'Company afirmou que os laços com os processadores chineses, tendo obtido a última carga nos últimos meses --os proprietários de ambas as empresas disseram pretendem investigar o caso.

Segundo a reportagem, em algumas vezes, mariscos processados por trabalhadores norte-coreanos na China já chegavam nos EUA com embalagens do Wall Mart ou do Sea Queen, marca de frutos do mar vendida em 35 Estados do país. 

Saul Loeb/AFP
Reportagem da AP afirma que a rede de supermercados norte-americana Walmart era uma das importadoras de frutos do mar processados por norte-coreanos na China

A porta-voz do Walmart, Marilee McInnis, disse que as autoridades da empresa constataram há um ano problemas em uma fábrica em Hunchun, na China, e proibiram seus fornecedores, incluindo a The Fishin 'Company, de trazerem frutos do mar processados de lá.

À AP, John Connelly, presidente do Instituto Nacional de Pescas, a maior associação de comércio de frutos do mar nos EUA, afirmou que foi pedido a todas as empresas americanas que examinem suas cadeias de suprimento.

"Embora entendamos que a contratação de trabalhadores da Coreia do Norte possa ser legal na China", disse Connelly, "estamos profundamente preocupados com o fato de que qualquer empresa de frutos do mar possa estar inadvertidamente apoiando o regime despótico".

Líderes do Senado norte-americano também se pronunciaram sobre o caso, dizendo que os EUA precisam manter os produtos fabricados pelos norte-coreanos fora dos Estados Unidos.

Uma pressão para que a China se recuse a contratar trabalhadores norte-coreanos também é necessária, segundo o principal democrata do Senado, Chuck Schumer.

Ruim na China, pior na Coreia do Norte

As condições de trabalho dos norte-coreanos não são boas. Eles não podem deixar seus postos sem permissão, devem andar em pares ou em grupos --com vigilantes norte-coreanos garantindo que eles não se afastem--, não tem acesso a telefones e e-mails e tem 70% do salário confiscado pelo governo norte-coreano.

Estima-se que há cerca de 3.000 trabalhadores norte-coreanos atuando em Hunchun, um centro industrial distante poucos quilômetros das fronteiras com a Coreia do Norte e da Rússia.

Fontes ouvidas pela AP divergem do salário recebido pelos norte-coreanos nas fábricas chinesas. Li Shasha, gerente de vendas da Yanbian Shenghai Industry and Trade Co., afirma que o salário dos norte-coreanos é o mesmo que o dos chineses que ali atuam: entre US$ 300 a US $ 385 mensais.

Outros dizem que os norte-coreanos ganham, em média, US$ 300 por mês, ao passo que os chineses recebem cerca de US$ 540 mensais.

O trabalho é exaustivo, com turnos de até 12 horas diárias e apenas um dia de folga. A vigilância para que eles não fujam também é intensa. 

Ng Han Guan/AP
Macacão azul distingue trabalhadores norte-coreanos de chineses em fábrica de processamento de frutos do mar, em Hunchun, na China

Apesar das más condições de trabalho na China, estes empregos são valorizados pelos norte-coreanos, que veem neles uma chance de ganhar mais dinheiro do que poderiam ganhar na Coreia do Norte, onde os salários oficiais geralmente equivalem a US$ 1 por mês.

Luis CdeBaca, ex-embaixador dos Estados Unidos em questões de tráfico de pessoas, admite que trabalhadores da Coreia do Norte na China podem gostar de seus empregos, mas pondera: "A questão não é 'Você está feliz?', a questão é 'Você está livre para sair?'".

De acordo com uma estimativa da agência de inteligência da Coreia do Sul, entre 50 mil e 60 mil trabalhadores norte-coreanos atuavam fora do país em 2014, gerando uma receita de US$ 200 mil a US$ 500 mil ao governo. O valor foi calculado com base em documentos de pesquisa acadêmica, relatórios de inteligência sul-coreanos e fontes na comunidade empresarial chinesa.

Esse número pode, atualmente, chegar a 100 mil, de acordo com Lim Eul Chul, um estudioso da Universidade da Kyungnam, da Coreia do Sul, que entrevistou ex-trabalhadores norte-coreanos.

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