Mugabe, herói revolucionário ou o tirano que afundou o Zimbábue?

Do UOL, em São Paulo

  • Jekesai Njikizana/AFP

Robert Mugabe disse certa vez que iria governar o Zimbábue até os cem anos, levando ao extremo a imagem de déspota africano disposto a fazer de tudo para se manter no poder. Aplaudido em 1980 como herói da independência, o chefe de Estado mais velho do planeta ainda em atividade, aos 93, foi preso em sua residência nesta quarta-feira (15) pelas Forças Armadas, após se manter por 37 anos no poder.

Quando, em 1980, Mugabe assumiu o comando do país, recém-surgido da antiga Rodésia, colônia britânica onde governava uma minoria branca, seu discurso sobre reconciliação e união lhe valeu elogios em nível internacional. O ex-prisioneiro político convertido em líder da guerrilha chegou ao poder depois que o governo da minoria branca foi obrigado a negociar, em meio a sanções econômicas e à ameaça crescente da insurgência.

Arte UOL
O Zimbábue, governado por Mugabe com mão de ferro desde a sua independência, em 1980, se arrasta há anos em uma crise econômica, que se traduz em um desemprego em massa (quase 90% da população economicamente ativa), nos problemas nos serviços públicos e na falta de liquidez. Em outubro de 2017, o Zimbábue proibiu a importação de frutas e hortaliças para economizar divisas.

Nas últimas décadas de seu mandato, Mugabe recriou-se no papel de antagonista do Ocidente. Valendo-se de uma retórica agressiva, responsabilizou as sanções ocidentais pela crise econômica profunda do país.

Rob Cooper/AP
Mugabe fala durante um comício na cidade de Bindura (Zimbábue) em 7 de abril de 2000

Tirania e sucessão

Em abril de 1980, a Rodésia do Sul se converteu em Zimbábue. No estádio de Harare, centenas de milhares de pessoas assistiram com orgulho ao hasteamento da nova bandeira e ao show de Bob Marley, que cantou em homenagem à independência. Canaan Banana se converteu em presidente, um cargo honorífico. O primeiro-ministro foi Robert Mugabe, que se agarrou ao poder. Em 1987, Mugabe se tornou chefe de Estado, após uma reforma constitucional que instituiu o regime presidencial.

Em fevereiro de 2000, ocorreu a rejeição em referendo do projeto de nova Constituição que ele desejava aplicar, a primeira derrota eleitoral de sua carreira, e foi criada uma "milícia pessoal" --autodenominados veteranos de guerra da independência, apoiados pelas forças de segurança, que usaram violência e assassinatos. Mugabe deixou os veteranos de guerra da independência invadirem as propriedades agrícolas, a maioria dirigida por brancos. Mais de 4.000 brancos abandonaram suas terras.

Em 2002, o presidente foi reeleito em uma votação polêmica, marcada por atos violentos e intimidações.

Em 2008, o Movimento por uma Mudança Democrática (MDC), principal partido opositor, de Morgan Tsvangirai, tomou o controle do Parlamento da União Nacional Africana do Zimbábue - Frente Patriótica (Zanu-PF). Mas Mugabe seguiu como presidente, depois que Tsvangirai, na liderança do primeiro turno eleitoral, se retirou em consequência da onda de repressão à oposição.

Em 2013, Mugabe venceu novamente as eleições presidenciais (61%) e seu partido conquistou a maioria das cadeiras do Parlamento.

O tema da sucessão foi um tabu que se estendeu por décadas, mas, depois que Mugabe completou 90 anos, a elite no poder se envolveu em uma luta implacável. Após décadas no poder, a oposição contra Mugabe começou a ganhar força.

Grace, sua segunda mulher, é uma ex-secretária 41 anos mais jovem do que Mugabe e que está entre os candidatos a sucedê-lo. Na segunda-feira, Mugabe destituiu o vice-presidente, Emmerson Mnangagwa, por "traços de deslealdade", abrindo caminho para Grace. Foi quando o comandante do Exército, Constantino Chiwenga, ameaçou realizar uma intervenção militar.

Atualmente, para muitos países do Ocidente, Robert Mugabe é um pária e o acusam de fraude eleitoral, de uma violenta campanha de repressão contra a oposição e de arruinar a economia permitindo a confiscação de estabelecimentos rurais comerciais de brancos para serem distribuídos a agricultores de subsistência negros, o que cortou a renda obtida com exportações.

Philimon Bulawayo/Reuters
O ditador do Zimbábue, Robert Mugabe, e a primeira-dama, Grace, que espera sucedê-lo no cargo

Preso por uma década

Mugabe, nascido em 21 de fevereiro de 1924 em uma família católica na missão de Kutama, noroeste de Harare, foi descrito como uma criança solitária e estudiosa. Depois que seu pai abandonou a família, quando ele tinha dez anos, manteve-se dedicado aos estudos, e, aos 17 anos, tornou-se professor.

Inicialmente, identificou-se com o marxismo. Durante sua época de estudante na Universidade de Fort Hare, África do Sul, fez amizade com muitos dos futuros líderes africanos. Após trabalhar como professor em Gana, onde foi muito influenciado pelo presidente e fundador daquele país, Kwame Nkrumah, decidiu retornar à Rodésia, onde foi preso em 1964 por suas atividades políticas.

Mugabe passou dez anos na prisão. Nesse período, fez três cursos por correspondência, mas o tempo em que permaneceu preso deixou suas marcas. Seu filho de 4 anos, fruto do primeiro casamento, com a ganense Sally Hayfron, morreu enquanto ele estava preso. O líder da Rodésia, Ian Smith, não permitiu que Mugabe comparecesse ao funeral. (Com AFP e Bloomberg)

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