O que a Coreia do Norte diz sobre sua eventual estratégia de ataque militar

Do UOL, em São Paulo

  • KCNA/via AFP Photo

Um estudo do Conselho Europeu para Relações Exteriores (ECFR, na sigla em inglês) analisou cinco anos de declarações e comunicados oficiais da Coreia do Norte e estabeleceu quais as diretrizes o regime aponta como sua estratégia militar em caso de guerra. O período corresponde à ascensão do Kim Jong-un ao poder após a morte de seu pai, Kim Jong-il.

A análise do ECFR, organização independente que produz conteúdos analíticos sobre geopolítica e diplomacia, foi publicada neste mês de novembro. Ela indica que toda a retórica norte-coreana contra os Estados Unidos e aliados como Coreia do Sul e Japão é estabelecida a partir de uma ideia de 'ataque preventivo de defesa'.

Em suas próprias palavras ao longo de cinco anos, o regime fez inúmeras ameaças de retaliação contra os inimigos, mas condicionou essa situação apenas em caso de um 'ataque iminente' contra Pyongyang.

Essa postura com foco na defesa, e não em uma eventual ofensiva, mostra a preocupação do regime em conter uma possível intervenção norte-americana e sul-coreana visando a deposição de Kim Jong-un. As ameaças dos EUA de lançar um ataque preventivo contra a Coreia do Norte para deter o avanço nuclear do rival aumentam essa preocupação em Pyongyang.

O estudo ressalta, no entanto, a possibilidade de a Coreia do Norte interpretar de forma precipitada uma movimentação militar de EUA e Coreia do Sul -como um treinamento conjunto, por exemplo - e iniciar um ataque a partir dessa percepção. O documento cita a 'capacidade limitada de inteligência' do regime como um agravante para essa hipótese de erro.

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Sem distinção entre alvos civis e militares

Outro aspecto importante do que a Coreia do Norte já disse sobre sua estratégia nuclear é que o regime não faz distinção entre atingir um alvo civil ou militar, com armas nucleares ou convencionais, em caso de um ataque preventivo. Ambas as possibilidades são citadas nos comunicados, apontando cidades e bases norte-americanas, sul-coreanas e japonesas.

A Coreia do Norte não estipula uma doutrina clara sobre a possibilidade de uso de armas nucleares, ao contrário de outros países. A doutrina francesa na Guerra Fria, por exemplo, citava que, em caso de invasão de forças soviéticas, as tropas rivais seriam alvo de um ataque nuclear direcionado. Se a estratégia não funcionasse, os franceses partiriam então para a opção de um ataque nuclear contra alvos civis na União Soviética, já levando em conta a escalada do conflito.

O regime de Kim Jong-un não deixa clara como ocorreria uma eventual escalada, o que também é estratégico. Essa postura de indefinição seria um ponto positivo para a Coreia do Norte para coibir uma ação inimiga, tendo em vista a capacidade limitada de sobrevivência do regime em caso de uma ofensiva norte-americana - apesar do poder bélico de Kim Jong-un, essa capacidade não se compara ao poderio dos Estados Unidos.

Estratégia não cita reunificação

Ao longo dos cinco anos, a Coreia do Norte não citou, em nenhum momento, a capacidade de usar sua força militar para forçar a reunificação da península, invadindo o território sul-coreano. O estudo, no entanto, não descarta a hipótese de a opção estar sendo discutida em Pyongyang, lembrando que o regime afundou uma embarcação da Marinha sul-coreana em 2010 e ameaçou retaliar se Seul respondesse.

Outro ponto que, em tese, poupa a Coreia do Sul é a afirmação de Pyongyang de que não atacaria países não-nucleares -como é o caso de seu vizinho na península, e também do Japão- a não ser que eles se juntassem a um "Estado nuclear hostil" em um eventual ataque à Coreia do Norte. É a tentativa de intimidar os dois países e o resto do mundo contra um possível apoio a uma coalizão comandada pelos EUA contra o regime.

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Retórica em escalada após a chegada de Kim Jong-un

A análise dos comunicados indica também o aumento no tom de ameaça após a chegada de Kim Jong-un ao poder - não somente por causa do aumento de testes balísticos e nucleares, mas também pela consolidação da Coreia do Norte como uma potência nuclear, característica formalizada em um documento do governo norte-coreano de 2012.

Kim Jong-il, por exemplo, levantava a hipótese de congelar o avanço nuclear, caso seus inimigos também o fizessem. Kim Jong-un não considera essa opção, pelo menos oficialmente: ele já declarou que a desnuclearização não é uma hipótese que será levada às mesas de negociação. Oficiais norte-coreanos citam, inclusive, o fim do programa nuclear como ponto motivador para a queda de regimes em países hostis a forças ocidentais como Líbia, Iraque e Ucrânia.

Blefe?

O documento compila material da agência oficial de notícias do regime, a KCNA, e do jornal local oficial 'Rodong Sinmun', destinado ao público norte-coreano. Apesar das dúvidas sobre a veracidade do conteúdo publicado por esses veículos, o estudo diz que eles fornecem uma visão clara sobre o pensamento de Pyongyang e são parcialmente confirmados por serviços de inteligência de outros países.

Há  também uma equivocada percepção de parte da mídia ocidental, segundo a análise, de que os comunicados oficiais de Pyongyang sobre suas armas nucleares sejam 'ameaças malucas'. O documento afirma, pelo contrário, que essas declarações são coerentes e coesos em relação ao pensamento de estratégia militar do regime, apesar da 'grande quantidade' de blefe misturada a informações concretas.

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