O que leva milhares de manifestantes às ruas do Irã há cinco dias?

Do UOL, em São Paulo*

  • AFP

    Uma mulher iraniana caminha em meio à fumaça de gás lacrimogêneo na Universidade de Teerã durante protesto impulsionado pela raiva sobre os problemas econômicos, na capital Teerã, em 30 de dezembro de 2017

    Uma mulher iraniana caminha em meio à fumaça de gás lacrimogêneo na Universidade de Teerã durante protesto impulsionado pela raiva sobre os problemas econômicos, na capital Teerã, em 30 de dezembro de 2017

País submetido durante anos a sanções internacionais por suas atividades nucleares, o Irã é palco, desde a última quinta-feira (28), de manifestações contra a situação econômica e contra o poder --os mais importantes protestos nos últimos anos.

Embora o número de manifestantes tenha se limitado a algumas centenas de pessoas nos primeiros dias, esta foi a primeira vez, desde 2009, que tantas cidades foram palco de protestos de cunho social.

Já chega a 13 o número de mortos nos protestos. Mais de 400 pessoas foram detidas até agora, na capital e em outras cidades onde milhares foram às ruas.

Hamed Malekpour/AFP
Dezenas de milhares de apoiadores do regime marcharam em cidades do Irã em uma demonstração de força para o regime depois de dois dias de protestos de raiva contra os governantes religiosos do país

Austeridade

Apesar das palavras de ordem dos manifestantes contra o governo, especialistas consideram que o atual movimento de protesto no Irã é fruto do mesmo sentimento de raiva que fez tremer outros países atingidos pela austeridade.

"O que faz os iranianos saírem às ruas com mais frequência são os problemas econômicos cotidianos, a frustração com a falta de emprego, a incerteza sobre o futuro de seus filhos", explicou à AFP o fundador do Europe-Iran Business Forum, Esfandyar Batmanghelidj.

Segundo o especialista, os confrontos dos últimos dias surgiram pelas medidas de austeridade adotadas pelo presidente Hassan Rouhani desde sua chegada ao poder em 2013, como as reduções nos orçamentos sociais, ou a alta dos preços dos combustíveis há semanas.

"Para Rouhani, é difícil fazer aprovar os orçamentos de austeridade, mas se trata de medidas necessárias frente à inflação e aos problemas de divisas e para tentar melhorar o atrativo do Irã para os investidores", afirmou Batmanghelidj.

"Após um período de sanções muito difíceis, porém, a austeridade pode minar a paciência das pessoas", completou.

"Existem provas, especialmente em Mashhad, de que as manifestações foram organizadas para marcar pontos políticos", declarou o especialista Tasnim Amir Mohebbian, de Teerã.

"Não me surpreendem essas manifestações. Nos dois últimos anos, vimos um desfile nas ruas contra os bancos e as sociedades de crédito", lembra o cientista político MokhtabaMusavi, que também vive em Teerã. "Muitos desses manifestantes pertencem à classe média que perdeu muitas de suas posses", disse.

Alguns especialistas não acreditam que as manifestações possam ser uma séria ameaça para o governo e consideram que não parece que estejam obedecendo a uma organização clara.

Os protestos políticos podem ser vistos, na verdade, como uma sorte para o governo.

"O sistema prefere as manifestações políticas às econômicas, porque são mais fáceis de controlar", apontou Musavi.

Ebrahim Noroozi/AP
Manifestantes iranianos portam cartazes anti-israelenses em uma manifestação em Teerã, no Irã, no sábado (30). Os rebeldes iranianos se reuniram para apoiar o líder supremo do país

Hoje, após mais uma noite de protestos violentos em várias cidades do país, que deixaram ao menos 12 mortos, o presidente Rouhani disse que o povo iraniano responderá "aos agitadores e aos que descumprirem a lei".

"O povo responderá aos agitadores e aos que descumprirem a lei", que são uma "pequena minoria", declarou Rouhani, segundo a página institucional on-line da Presidência iraniana.

Ao mesmo tempo, Rouhani reconheceu que o Irã deve abrir "um espaço" para que a população possa expressar suas "preocupações cotidianas", mas condenou os atos de violência e a destruição de propriedades públicas.

"A crítica não é o mesmo que a violência e que destruir os bens públicos", disse ele em uma reunião do Executivo, acrescentando que "os órgãos do governo devem dar espaço para a crítica legal e para os protestos", segundo a rede de televisão pública.

"Isso deveria ficar claro para todo o mundo: somos uma nação livre e, em virtude da Constituição, [...] o povo é absolutamente livre para expressar suas críticas e inclusive para protestar", afirmou.

Eddie Keogh/Reuters
Opositores do presidente iraniano, Hassan Rouhani, protestam do lado de fora da embaixada iraniana no oeste de Londres nesse domingo, dia 31

Trump diz que "é hora de uma mudança" no Irã

Também hoje, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que "o grande povo iraniano foi reprimido durante muitos anos" e que "é hora de uma mudança" no país, depois de vários dias de protestos contra as políticas econômicas do governo iraniano.
"O Irã está fracassando em todos os níveis apesar do terrível acordo que fez com a administração (do ex-presidente americano Barack) Obama", escreveu Trump em sua conta no Twitter.

"O grande povo iraniano foi reprimido durante muitos anos. Estão famintos por comida e liberdade. Junto com os direitos humanos, a riqueza do Irã está sendo saqueada. É HORA DE UMA MUDANÇA!", acrescentou.

Trump está há vários dias se manifestando sobre a situação no Irã, e neste domingo acusou o governo do país de "fechar a internet para que os manifestantes pacíficos não possam comunicar-se" e acabar com os protestos antigovernamentais, depois que as autoridades iranianas cortassem totalmente o acesso às redes sociais.

Em comunicado na última hora de domingo, a porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, ressaltou que os Estados Unidos "apoiam o direito do povo iraniano a expressar-se pacificamente" e disse que "suas vozes merecem ser ouvidas". "Encorajamos todas as partes a proteger este direito fundamental à liberdade de expressão e evitar qualquer ação que contribua para a censura", destacou Sanders em comunicado.

Alemanha pede calma e respeito a direito de manifestar

O ministro alemão das Relações Exteriores, Sigmar Gabriel, expressou hoje sua preocupação com a morte de manifestantes no Irã e apelou ao governo iraniano para que respeite os direitos das pessoas.

"Nós apelamos ao governo iraniano para que respeite os direitos dos manifestantes para se reunirem e pacificamente levantarem as suas vozes", disse Gabriel. "Após os confrontos nos últimos dias, é ainda mais importante que todos os lados se abstenham de ações violentas."

* Com agências internacionais

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Newsletter UOL

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos