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Irã ameaça acusar manifestantes de crimes punidos com pena de morte

Do UOL, em São Paulo

02/01/2018 10h42

Seis dias após o início dos protestos que tomaram o Irã na virada do ano, as autoridades da República Islâmica ameaçaram os manifestantes em todo o país de serem acusados por crimes punidos com a pena de morte.

Até o momento, ao menos 21 pessoas morreram durante as manifestações e mais de 450 pessoas foram presas apenas na capital. Os protestos começaram no dia 28 de dezembro.

"A cada dia que passe e as pessoas sejam detidas, aumentará seu crime e castigo e nós já não os consideramos manifestantes pelos seus direitos, mas como pessoas que querem prejudicar o regime", disse hoje o presidente do Tribunal Revolucionário de Teerã, Musa Ghazanfarabadi, segundo a agência iraniano de notícias "Tasnim".

Os detidos serão declarados culpados de diferentes delitos, entre os quais figuram "atentado contra a segurança nacional" e "inimizade com Deus", ambos punidos com a pena de morte, esclareceu Ghazanfarabadi.

"Os que estiveram presentes à frente dos distúrbios serão acusados, entre outros delitos, de 'inimizade com Deus', uma vez que estão relacionados com os serviços de Inteligência estrangeira e aplicam seus programas", antecipou o presidente do tribunal.

Gabinete de Governo do Irã/via AP
O presidente Hassan Rouhani afirmou que os protestos contra seu governo são feitos por uma "pequena minoria" Imagem: Gabinete de Governo do Irã/via AP


Além disso, os detidos podem ser considerados culpados de "destruição de bens públicos, destruição de bens pessoais das pessoas" entre outros, explicou Ghazanfarabadi.

As manifestações foram consideradas ilegais pelo Ministério do Interior, o que pode agravar a punição dos milhares de iranianos que saem às ruas contra o governo. 

Trump chama regime de corrupto

O presidente Donald Trump elogiou nesta terça-feira os manifestantes iranianos por denunciar o regime brutal e corrupto de Teerã, depois de vários dias de protestos.

"O povo do Irã está finalmente agindo contra o brutal e corrupto regime iraniano", tuitou Trump, um dia depois de afirmar que chegou a hora da mudança na República Islâmica.

Em resposta, um porta-voz do governo iraniano afirmou nesta terça que o norte-americano deveria estar atento aos problemas dos EUA. "Ao invés de perder seu tempo enviando tuítes inúteis e insultantes contra outros povos, (Trump) deveria se ocupar dos problemas internos de seu país, principalmente o assassinato diário de dezenas de pessoas e milhões de desabrigados e famintos", declarou Bahram Ghassemi.

Crise econômica explica insatisfação

Os protestos começaram na segunda maior cidade do Irã, Mashhad, na quinta-feira e aumentaram em todo o país pedindo a renúncia dos religiosos no poder.

Parte das críticas são dirigidas ao ayatollah Ali Khamenei, quebrando um tabu em torno do homem que tem sido líder supremo do Irã desde 1989.

Apesar das palavras de ordem dos manifestantes contra o governo, especialistas consideram que o atual movimento de protesto no Irã é fruto do mesmo sentimento de raiva que fez tremer outros países atingidos por cortes sociais e crise econômica.
 
"O que faz os iranianos saírem às ruas com mais frequência são os problemas econômicos cotidianos, a frustração com a falta de emprego, a incerteza sobre o futuro de seus filhos", explicou à AFP o fundador do Europe-Iran Business Forum, Esfandyar Batmanghelidj.
 
Segundo o especialista, os confrontos dos últimos dias surgiram pelas medidas de austeridade adotadas pelo presidente Hassan Rouhani desde sua chegada ao poder em 2013, como as reduções nos orçamentos sociais, ou a alta dos preços dos combustíveis há semanas.
 
"A austeridade pode minar a paciência das pessoas", completou.
 
"Não me surpreendem essas manifestações. Nos dois últimos anos, vimos um desfile nas ruas contra os bancos e as sociedades de crédito", lembra o cientista político Mokhtaba Musavi, que também vive em Teerã. "Muitos desses manifestantes pertencem à classe média que perdeu muitas de suas posses", disse.
 
(Com agências internacionais)