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Coreia do Norte fechará central nuclear: por que o espetáculo deve ter pouco efeito

Base nuclear de Punggye-ri, que será destruída diante de jornalistas estrangeiros - Planet Labs Inc/Handout via Reuters
Base nuclear de Punggye-ri, que será destruída diante de jornalistas estrangeiros Imagem: Planet Labs Inc/Handout via Reuters

Eric Talmadge

da AP

23/05/2018 01h00

Jornalistas estrangeiros foram autorizados a viajar para as montanhas da Coreia do Norte nesta semana e observar o fechamento do centro de testes nucleares de Punggye-ri, em uma elogiada exibição de boa vontade do líder Kim Jong-un, antes do encontro com o presidente americano, Donald Trump, que estava previsto para 12 de junho --mas agora pode ser adiado.

Devemos esperar boas imagens, mas não muito mais do que isso.

A exibição pública do fechamento da unidade no Monte Mantap será, provavelmente, pesada no espetáculo e leve em conteúdo. E os meios de comunicação estarão gastando muito de seu tempo em uma estranha zona de turismo que a Coreia do Norte espera ser a próxima coisa importante para sua economia se as aberturas diplomáticas de Kim forem concretizadas nos próximos meses.

O fechamento do centro é, sim, algo histórico, marcando um fim para o último local ativo do mundo para testes subterrâneos e oferecendo algumas ideias importantes sobre o tom de Kim no momento em que ele prepara o palco para sua reunião com Trump.

Entenda o programa de mísseis norte-coreano

UOL Notícias

Veja abaixo um olhar para o que é exagero e o que vale a pena prestar atenção.

Conteúdo

Kim anunciou seu plano para fechar o centro de testes durante uma reunião de líderes do partido no mês passado, logo depois de seu encontro com o presidente sul-coreano, Moon Jae-in. Sua explicação para o partido foi a de que o desenvolvimento nuclear da Coreia do Norte está agora completo e que mais testes subterrâneos são desnecessários.

A Coreia do Norte realizou seis testes nucleares subterrâneos desde 2006. Sua mais recente e mais poderosa explosão, que o Norte alega ter sido de uma bomba de hidrogênio, foi em setembro. Todos os seus testes foram realizados em Punggye-ri, na região montanhosa do nordeste do país.

Antes do anúncio de Kim, a Coreia do Norte era o único país que ainda realizava testes subterrâneos.

A afirmação de Kim de que tais testes não são mais necessários pode ter algo de bravata. Embora o Norte tenha demonstrado que, sem dúvida, pode produzir armas nucleares viáveis e de alto rendimento, muitos especialistas acreditam que o país ainda poderia se beneficiar consideravelmente com a realização de mais testes.

Kim Jong-un abraça o líder sul-coreano, Moon Jae-in, em encontro histórico das Coreias - Korea Summit Press Pool via AP - Korea Summit Press Pool via AP
Kim Jong-un abraça o líder sul-coreano, Moon Jae-in, em encontro histórico das Coreias
Imagem: Korea Summit Press Pool via AP

"A Coreia do Norte certamente precisaria de mais testes para ter qualquer confiança em sua bomba H", disse o físico David Wright, codiretor do programa de segurança global da Union of Concerned Scientists (UCS). Wright afirmou que o teste mais recente do Norte é um excelente exemplo. Ele acredita que foi um "dispositivo de demonstração de princípio" que ainda não é pequeno ou leve o suficiente para ser entregue por míssil.

"A conclusão é que parar de realizar testes é importante para limitar a sua capacidade de construir ogivas confiáveis e possíveis de se construir --especialmente para uma bomba H", disse ele.

Então, nesse sentido, Kim está fazendo uma concessão significativa. E se Kim mudar de ideia e decidir testar de novo, certamente será pego. É difícil esconder uma explosão nuclear de alta potência. O cumprimento é verificável.

Mas a maneira como Kim planeja desmantelar o centro mostra que ele está, ainda, apenas disposto a parar por aí.

Adam Mount, um pesquisador sênior da Federation of American Scientists (Federação de Cientistas Americanos), acredita que, ao convidar a imprensa internacional em vez de monitores internacionais, a Coreia do Norte "evitou um princípio de verificação." Os jornalistas não têm a perícia técnica, o tempo gasto no local ou o equipamento necessário para analisar e avaliar adequadamente o processo.

"Quando os Estados Unidos não forçaram Pyongyang a estabelecer este padrão, perderam a primeira disputa pública sobre a verificação", disse.

Imagem do Google Earth do Monte Mantap, na Coreia do Norte, mostra os locais dos seis testes nucleares do país. Em vermelho, o local do maior deles - Reprodução - Reprodução
Imagem do Google Earth do Monte Mantap, na Coreia do Norte, mostra os locais dos seis testes nucleares do país. Em vermelho, o local do maior deles
Imagem: Reprodução

Evento exagerado

O fechamento do centro vai ocorrer entre quarta (23) e sexta-feira (25), dependendo do tempo.

O Ministério das Relações Exteriores da Coreia do Norte convidou jornalistas da China, Rússia, Estados Unidos, Reino Unido e Coreia do Sul para voar em um avião privado de Pequim para o que está chamando de "cerimônia" marcando o evento.

A Coreia do Norte diz que o processo envolverá o fim de todos os túneis com explosões, bloqueando completamente suas entradas, removendo todas as instalações de observação e pesquisa e derrubando estruturas usadas para guardar o local. Imagens de satélite sugerem que alguns dos trabalhos já começaram.

O quanto que os jornalistas, incluindo uma equipe de televisão da AP, será capaz de ver é uma questão ainda sem resposta. Os jornalistas foram colocados em um hotel em Faraway  Wonsan, onde o centro de imprensa será localizado, e irão fazer o que promete ser uma longa viagem para o centro nuclear por meio de um trem especial. Não se sabe quanto tempo eles serão autorizados a permanecer no local.

O que é bem claro é a razão da escolha de Wonsan, provavelmente a cidade mais apresentável na Coreia do Norte após a capital.

É o centro de uma zona de turismo onde o Norte vem gastando uma boa quantidade de dinheiro em um grande esforço de promoção do local.

Os jornalistas passaram por seu novo e brilhante aeroporto e estão em um de seus opulentos novos hotéis turísticos. Se não forem realmente levados para lá, eles vão, sem dúvida, ficar sabendo da existência de Masik  Pass, a estância de esqui do de luxo do Norte, e o cenográfico monte Kumgang, que apenas uma década atrás estava aberto para turistas sul-coreanos, estão apenas a uma curta distância de carro.

Dois coelhos, uma cajadada, como dizem.

Funcionários do resort de esqui em Wonsan, Coreia do Norte - Ed Jones/AFP - Ed Jones/AFP
Funcionários do resort de esqui em Wonsan, Coreia do Norte
Imagem: Ed Jones/AFP

'Filme' antigo

Observadores veteranos da Coreia do Norte notam que já vimos este filme antes.

Com negociações internacionais para desmantelar o seu programa nuclear em curso em 2008, a Coreia do Norte convidou alguns meios de comunicação estrangeiros para filmar a demolição de uma torre de 20 metros de altura que fazia a refrigeração do reator nuclear de Yongbyon. A mudança levou Washington a tirar a Coreia do Norte de sua lista de Estados patrocinadores de terrorismo e cancelar algumas sanções.

Mais tarde, as conversas não avançaram e o reator em Yongbyon voltou a produzir plutônio.

Portanto, a cautela é justificada. Nada disso tem a ver necessariamente com a desnuclearização.

A declaração do Norte de que terminará seus testes subterrâneos e fechará o local de Punggye-ri poderia apenas também ser interpretada como um movimento para reforçar a reivindicação de Kim que seu país é agora uma potência nuclear responsável e apazigua as preocupações de seu vizinho e salvador econômico, China.

"Ninguém mais faz isso", disse Joshua Pollack, um pesquisador associado do Instituto de Estudos Internacionais Middlebury em Monterey, na Califórnia. "Então, se você quiser afirmar que você é um Estado nuclear armado de pleno direito, a tendência é a de que sua mensagem será prejudicada se você continuar a fazer testes."

Tradutor: Thiago Varella