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México encerra campanha eleitoral com assassinatos, corrupção e expectativa de guinada à esquerda

Candidato da esquerda, López Obrador lidera as pesquisas de intenção de voto, na terceira vez que tenta a presidência do México - Pedro Pardo/AFP
Candidato da esquerda, López Obrador lidera as pesquisas de intenção de voto, na terceira vez que tenta a presidência do México Imagem: Pedro Pardo/AFP

Do UOL, em São Paulo

29/06/2018 04h01

Em sua terceira tentativa de chegar à presidência do México, o candidato de esquerda Andrés Manuel López Obrador, conhecido pela sigla AMLO, lidera as pesquisas de intenção de voto para as eleições agendadas para este domingo (1º). 

O resultado é considerado atípico, uma vez que vai na contramão da tendência à direita do resto da América Latina. A explicação, em boa parte, reside no desgaste do governo de Enrique Peña Nieto, de centro, no poder desde 2012 - o mandato presidencial no México é de seis anos, sem possibilidade de reeleição.

Nos últimos cem anos, o México foi governado apenas por dois partidos: o PRI (Partido Revolucionário Institucional), de Peña Nieto, e, por um período bem menor, o PAN (Partido da Ação Nacional), de direita. Uma vitória de Obrador, do Morena (Movimento Regeneração Nacional), seria uma ruptura com o passado político do país. 

Mas essa corrida presidencial não é marcada apenas por novidades nas tendências políticas. As eleições gerais de 2018 são as maiores já organizadas no México, em número de cargos disputados e de eleitores, têm também a campanha mais violenta da história.

Entenda os pontos-chaves das eleições de 2018:

Candidato de centro-direita, Anaya segue em segundo lugar nas pesquisas - Rodrigo Arangua/AFP - Rodrigo Arangua/AFP
Candidato de centro-direita, Anaya segue em segundo lugar nas pesquisas
Imagem: Rodrigo Arangua/AFP

A maior eleição mexicana

Esta é a maior eleição já realizada no país. Os mexicanos escolherão representantes não apenas para a presidência, mas também para cadeiras em governos de Estados, prefeituras, câmaras e senado. Ao todo, são mais de 3.400 mil postos políticos em níveis local e nacional a serem ocupados, segundo o Instituto Eleitoral Nacional.

É, além disso, a maior em termos de pessoas registradas para votar: 89 milhões de eleitores

Também a eleição mais sangrenta

Pelo menos 132 de pessoas foram assassinadas por conta das eleições entre setembro de 2017, início da pré-campanha, e a última segunda-feira (25). O número é da consultoria privada Etellekt, que afirma que em 2012 o patamar era muito menor: menos de 20 assassinatos. Especialistas temem que a violência impulsione a abstenção no dia do voto.

Entre os mortos nesta campanha, 48 eram candidatos - os demais prestavam serviços aos partidos políticos. A coalizão PAN-PRD-MC, de oposição, concentra 21 dos candidatos mortos. Mas houve mortos também entre governistas (14 vítimas entre PRI-PVEM-NA) e na aliança Morena-PT-PES (9 fatalidades).

Além dos assassinatos, foram contabilizadas 500 agressões contra políticos, como intimidações e ameaças. 

A vítima mais recente foi a candidata para chefe municipal de Ocampo pelo PRD (Partido da Revolução Democrática), morta em casa a tiros na sexta-feira (22). Na noite anterior, foi morto o candidato independente para a prefeitura de Aguililla, enquanto fazia um comício.

A União Europeia, assim como as embaixadas de seus países membros no México, manifestou preocupação com o nível de violência e intimidação. Em um comunicado conjunto, assinado também pelas embaixadas da Noruega e da Suíça, os países pediram às autoridades mexicanas que empreguem todos os esforços possíveis e realizem investigações para identificar e julgar os responsáveis pelas mortes.

Governo marcado por corrupção

O PRI, partido do atual presidente, Enrique Peña Nieto, está assolado por escândalos de corrupção. O maior deles foi o do ex-governador de Veracruz, Javier Duarte, preso por desviar US$ 3 bilhões, cerca de R$ 11,5 bilhões, dos cofres públicos.

O próprio Nieto passou por escrutínio após a revelação de que uma mansão de sua mulher, no valor de US$ 7 milhões (cerca de R$ 22 milhões), havia sido concedida por uma empresa que tem contratos com o governo. Não à toa, o candidato do PRI nessas eleições, José Antonio Meade, está apenas em terceiro lugar nas pesquisas.

Candidato pelo PRI, António Meade faz campanha em Morelia, região central do México - Raúl Tinoco/AFP - Raúl Tinoco/AFP
Candidato pelo PRI, António Meade faz campanha em Morelia, região central do México
Imagem: Raúl Tinoco/AFP

Quem é López Obrador

Em 2006 e 2012, o populista AMLO não teve mais do que 35% dos votos. Naquelas duas eleições, ele havia concorrido pelo PRD (Partido da revolução Democrática), que ajudou a fundar em 1989.

O cenário agora é outro: ele se candidata pelo partido Morena, criado há apenas cinco anos. 

Sua campanha, assim como o restante de sua carreira política, foi construída em cima de um discurso duro de combate à corrupção e ao que chama de “máfia do poder”, enquanto o atual governo enfrenta graves acusações. Além disso, ganhou apoio com promessas de cortes nos gastos públicos, pagamento de pensões aos pobres e aumento do salário mínimo. 

Como resultado, Obrador tinha em 27 de junho apoio de entre 38% e 54% dos eleitores, dependendo do instituto - nas eleições mexicanas, não há segundo turno e o candidato mais votado é feito presidente.

Em todas as pesquisas, os percentuais de AMLO são maiores do que o do principal concorrente, Ricardo Anaya, do PAN, que aparece, no melhor das hipóteses, com 27% das intenções de voto.