Topo

Envolvida em polêmicas, líder croata roubou a cena na final da Copa --e pode ter sido proposital

Presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarovic, com o presidente da França, Emmanuel Macron, antes de França x Croácia - Damir Sagolj/Reuters
Presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarovic, com o presidente da França, Emmanuel Macron, antes de França x Croácia Imagem: Damir Sagolj/Reuters

Do UOL, em São Paulo

18/07/2018 04h00

Vestindo uma camisa da seleção croata, ao lado de outros políticos engravatados, e abraçando um a um os jogadores dos dois times finalistas da Copa do Mundo sob uma forte chuva, a presidente da Croácia, Kolinda Grabar-Kitarovic, roubou a cena em Moscou, no último domingo (15).

De acordo com a Mediatoolkit, uma empresa croata que analisa o conteúdo das reportagens publicadas no país, Grabar-Kitarovic foi tema de 25% mais matérias jornalísticas do que qualquer outro jogador que disputou a final pela Croácia, incluindo o craque da Copa, Luka Modric, vencedor da Bola de Ouro pelo torneio. Além disso, em 80% dos casos, as histórias eram positivas para a presidente.

Nas redes sociais aqui do Brasil, Grabar-Kitarovic virou rapidamente uma queridinha, principalmente após ter ido à Rússia pagando a passagem do próprio bolso, viajando de classe econômica ao lado de torcedores comuns e assistindo à maioria dos jogos na arquibancada. A presidente croata só perdeu a partida semifinal contra a Inglaterra porque precisou participar de um encontro da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

Mas, na Croácia, nem todos gostaram da atitude da presidente na Rússia. Para o jornal "24sata", o mais vendido no país, Grabar-Kitarovic "se esqueceu de preservar sua dignidade". De acordo com a revista alemã "Focus", um comentarista croata disse na TV que foi "bom que começou a chover, senão ela teria beijado os gandulas".

À dir., Kolinda Grabar-Kitarovic abraça o técnico croata na chuva durante premiação - Dylan Martinez/Reuters
À dir., Kolinda Grabar-Kitarovic abraça o técnico croata na chuva durante premiação
Imagem: Dylan Martinez/Reuters

Além disso, muitos jornalistas croatas afirmam que Grabar-Kitarovic aproveitou a final da Copa do Mundo para adiantar sua campanha. A presidente é o principal nome da União Democrática Croata (HDZ, na sigla local), um partido conservador repleto de ex-militares que participaram da guerra nos Bálcãs, e a esperança da sigla para se reeleger no ano que vem.

"A presença dela na Copa do Mundo definitivamente pode ser descrita como um extenso vídeo pré-eleitoral. Ela usou isso para reforçar sua estratégia de relações-públicas de ser a presidente do povo. Isso é algo que ela tem feito na Croácia por algum tempo. Só que, em vez de se limitar ao público croata, esse tipo de vídeo de campanha foi visto por bilhões de pessoas em todo o mundo", afirmou o jornalista político Boris Dezulovic ao jornal inglês "The Guardian".

O HDZ é um partido patriótico de direita que já se viu envolvido em diversos escândalos de corrupção ao longo dos anos. O partido foi qualificado de "organização criminosa" em uma sentença judicial em 2013 e o ex-primeiro-ministro Ivo Sanader foi preso. A sigla vê em Grabar-Kitarovic uma possibilidade de renovação da imagem.

Ela estudou fora do país, fala inglês fluentemente e já foi secretária-geral adjunta da Otan e embaixadora da Croácia nos Estados Unidos. Além disso, como presidente, uma de suas principais funções é justamente representar a Croácia no exterior, já que, como presidente, Grabar-Kitarovic não manda quase nada. Quem de fato governa o país é o primeiro-ministro, Andrej Plenkovic. Ela ajuda a moldar a política externa, comanda os serviços de inteligência e é a comandante-em-chefe das Forças Armadas.

O problema é que todo esse patriotismo externado por Grabar-Kitarovic muitas vezes se confunde com o pior tipo de nacionalismo. Em 2016, por exemplo, quando já era presidente, Grabar-Kitarovic causou indignação ao se deixar fotografar, no Canadá, com a bandeira do Ustache, os fascistas croatas que ajudaram os nazistas na Segunda Guerra a exterminar judeus, ciganos, sérvios e bósnios. Além disso, também é suspeita sua amizade com o empresário Zdravko Mamic, acusado de corrupção.

Grabar-Kitarovic, contudo, já afirmou ser favorável a estabelecer uma comissão para investigar "a verdade" sobre o antigo campo de concentração de Jasenovac, onde mais de 83 mil sérvios, ciganos e judeus foram mortos.

Quando era embaixadora nos Estados Unidos, o marido de Grabar-Kitarovic, Jakov Kitarovic, foi acusado de usar o veículo oficial para fins privados. E, já como presidente, no ano passado, ela precisou se explicar quando apareceu em Washington DC, mesmo sem agenda oficial no país. Para disfarçar, ela deu uma entrevista à TV estatal croata em frente à grade da Casa Branca. Mas do lado de fora.

Notícias