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"Preços sobem todos os dias": custo de vida está fora de controle no país mais pobre do Ocidente

Veículos queimados durante protesto contra alta no preço dos combustíveis - Dieu Nalio Chery/AP
Veículos queimados durante protesto contra alta no preço dos combustíveis Imagem: Dieu Nalio Chery/AP

Ezequiel Abiu Lopez

Da Associated Press, em Porto Príncipe (Haiti)

25/07/2018 04h00

O frango é um alimento básico na dieta haitiana, mas seu preço dobrou em quatro anos. O óleo e o arroz subiram 10% nos últimos 12 meses. Um litro de leite custa mais da metade do salário mínimo diário, o que o torna inacessível para a maior parte do país.

O custo de vida parece estar ficando fora de controle para muitos haitianos, tornando a vida ainda mais difícil para a nação mais pobre do hemisfério ocidental.

"É muito difícil", disse Cassandre Milord, um contador em uma pequena loja na capital do Haiti, Porto Príncipe, sobre a inflação está em dois dígitos desde 2014. "Você nunca sabe quanto dinheiro é necessário para ir ao mercado. Os preços sobem todos os dias."

É uma queixa quase universal em todo o Haiti e está na raiz dos quatro dias de protestos contra os preços exorbitantes dos combustíveis que bloquearam Porto Príncipe no início deste mês e que reavivaram o fantasma de outros distúrbios em massa. A inflação é outro elemento da vida em grande parte do mundo, mas, em meio a tanta miséria, aqui parece mais doloroso para todos, desde aqueles que vendem pequenos sacos de arroz na rua até os donos de pequenos negócios. Para todos, exceto a pequena elite haitiana.

"Não há dinheiro para enviar as crianças para a escola", disse Arceline Charles, sentado em uma rua lotada do centro e vendendo ovos em uma bandeja de papelão. "O país é um desastre completo."

O governo do presidente Jovenel Moise, que assumiu o cargo em fevereiro de 2017 depois de uma eleição complicada e controversa, provocou protestos após anunciar de maneira abrupta um aumento de dois dígitos no preço da gasolina, diesel e querosene. A medida foi parte de um acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional) para remover os subsídios aos combustíveis e aumentar os benefícios do governo em troca de receber mais apoio dos países-membros.

Vendedoras trabalham no mercado de Croix des Bossalles, em Porto Príncipe, no Haiti - Dieu Nalio Chery/AP - Dieu Nalio Chery/AP
Vendedoras trabalham no mercado de Croix des Bossalles, em Porto Príncipe, no Haiti
Imagem: Dieu Nalio Chery/AP

As autoridades podem ter pensado que as pessoas estariam distraídas naquele dia por causa do jogo do Brasil, o favorito entre os haitianos na Copa do Mundo na Rússia, mas a reação foi explosiva: as pessoas tomaram as ruas, botaram fogo em barricadas e houve confrontos com a polícia. Pelo menos sete foram mortos e dezenas de empresas e carros foram saqueados, queimados e destruídos.

O primeiro-ministro, Jack Guy Lafontant, que enfrentou uma moção de censura no Parlamento, renunciou ao cargo. Mas o governo ainda precisa explicar por que não aceitou a recomendação do FMI de aplicar o aumento de preço gradualmente ou se pretende cumprir as recomendações para modernizar sua economia melhorando a arrecadação de impostos e aumentando os gastos em infraestrutura, educação e serviços sociais.

Moise pediu calma enquanto procurava um novo primeiro-ministro. "Eu posso entender a situação enfrentada por muitos dos nossos desempregados. A fome e a pobreza estão nos esmagando", disse ele em um discurso à nação em crioulo, idioma baseado no francês e falado pela maioria da população haitiana.

O presidente, um empresário e fazendeiro que apareceu em sua campanha como uma pessoa com conhecimento e experiência para erguer o país, enfrenta um desafio complicado.

O Haiti é um dos países mais desiguais do mundo, onde os ricos vivem em mansões muradas, enquanto cerca de 60% de seus quase 10,5 milhões de habitantes tentam sobreviver com cerca de dois dólares por dia. Em janeiro, um relatório da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional disse que metade do país está subnutrida.

Homens trabalham em lava-rápido na cidade de Porto Príncipe, no Haiti - Dieu Nalio Chery/AP - Dieu Nalio Chery/AP
Homens trabalham em lava-rápido na cidade de Porto Príncipe, no Haiti
Imagem: Dieu Nalio Chery/AP

O aumento no preço do combustível, que deveria ser de 40% no diesel e perto de 50% no querosene, teria afetado uma economia que está em grande parte estagnada. A agricultura, o setor mais importante, sofre os efeitos de uma seca prolongada e a devastação causada pelo furacão Matthew em uma das áreas mais férteis de 2016.

O Banco Central tentou conter a inflação, mas os preços aumentam em torno de 16% ao ano. E aos olhos de muitos, a política da entidade de desvalorizar a moeda, o gourde, só piorou a situação devido à alta dependência do país das importações.

Mesmo aqueles que têm a sorte de ter um emprego ou uma empresa acham cada vez mais difícil sobreviver. O salário mínimo é de cerca de US$ 150 (cerca de R$ 560) por mês, muito menos do que o necessário para sustentar uma família.

"É uma situação de empobrecimento em massa, com muitos setores da classe média mais pobres e um crescente percentual da população que realmente não tem o que comer", disse Camille Chalmers, economista e diretora de uma ONG que promove os direitos dos trabalhadores.

Milord, o contador, explicou que gasta cerca de um quarto do seu salário diário, equivalente a cerca de três dólares, para transporte e alimentação. "Imagine como as pessoas que ganham apenas o salário mínimo vão fazer", disse ele.

Mulher vende carne no mercado de Croix des Bossalles, no Haiti - Dieu Nalio Chery/AP - Dieu Nalio Chery/AP
Mulher vende carne no mercado de Croix des Bossalles, no Haiti
Imagem: Dieu Nalio Chery/AP

Empresários dizem que também percebem os efeitos. Maxime Cantave, que abriu um lava-rápido de carros e uma cafeteria na área de Delmas, na capital, disse que seu negócio foi reduzido em um terço nos últimos dois anos.

"As pessoas não têm dinheiro", disse ele, enquanto dois carros eram lavados e o café estava vazio em uma tarde recente, em um momento do dia em que ambos deveriam estar cheios.

Cantave retornou à sua terra natal, o Haiti, vindo da Flórida, após o devastador terremoto de janeiro de 2010, na esperança de aproveitar o aumento da ajuda internacional e do investimento privado que chegou ao país como parte dos esforços de reconstrução. Mas esse investimento foi bastante reduzido, afetando ele e outros como Benoit Vilceus, que administra um hotel-butique e uma empresa especializada em construção e design de interiores.

De acordo com Vilceus, seus negócios já estavam enfrentando problemas, mas agora ele teve que parar temporariamente um trabalho na cidade de Les Cayes por causa dos tumultos mais recentes.

"Isso vem se formando há muito tempo", disse ele sobre os protestos. "Era apenas uma questão de tempo".

Tradutor: Thiago Varella