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Lenda do esporte, ex-playboy assume Paquistão com discurso populista e sob denúncias

Do UOL, em São Paulo

27/07/2018 13h50

A lenda do críquete Imran Khan, de 65 anos, venceu as eleições gerais no Paquistão, segundo os resultados parciais divulgados nesta sexta-feira (27), e se tornará o novo premiê do país.

Com mais de 80% dos votos apurados, o partido de Khan, o PTI (Movimento do Paquistão pela Justiça, obteve no mínimo 114 assentos e terá a maior bancada no Parlamento. Ainda assim precisará de ao menos um aliado entre os partidos menores para governar - para ter a maioria, é necessário ter 137 assentos.

Seus principais rivais foram a Liga Muçulmana do Paquistão-Nawaz (PML-N) - do ex-premiê Nawaz Sharif, que está na cadeia -, dona do poder nos últimos cinco anos, o Partido Popular Paquistanês (PPP) de Bilawal Bhutto-Zardari, filho da ex-premiê Benazir Bhutto. O PML-N obteve 62 assentos e o PPP 43, segundo a Comissão Eleitoral do Paquistão. Restam 12 vagas a serem atribuídas.

O resultado coroa duas décadas de vida política do ex-capitão da seleção nacional de críquete, uma lenda no Paquistão por ter levado o país à conquista da sua primeira Copa do Mundo, em 1992, batendo a Inglaterra na final.

25.mar.1992 - Imra Khan, capitão da seleção de críquete do Paquistão, comemora vitória na Copa do Mundo contra a Inglaterra; em 2018, Khan se tornou premiê paquistanês - AP Photo/Steve Holland - AP Photo/Steve Holland
25.mar.1992 - Khan, capitão do Paquistão, comemora vitória na Copa do Mundo de críquete
Imagem: AP Photo/Steve Holland

Mas a vitória veio em meio a denúncias de fraude nas urnas e intromissão dos poderosos militares do país, feitas por outros concorrentes, que tacharam Khan de ser um fantoche das Forças Armadas. Os partidos de Sharif e Bhutto disseram que seus fiscais foram retirados dos centros de votação durante a contagem dos votos ou receberam os resultados em papéis não oficiais. O Exército negou qualquer intromissão na eleição e deslocou 371 mil soldados para os centros de votação em todo o país, quase cinco vezes mais do que nas eleições de 2013.

Enquanto Khan fazia um conciliador discurso de vitória, ainda na quinta-feira, os líderes do PML-N reclamaram e disseram que não aceitariam o resultado. Mas o partido amenizou o tom nesta sexta. "Vamos nos sentar nos bancos da oposição, apesar de todas as reservas", disse Hamza Shehbaz Sharif, parlamentar e sobrinho de Nawaz Sharif.

Nas páginas dos tabloides

Ao longo de anos, o PTI, fundado por Khan, nunca obtivera bons resultados nas eleições nem conseguira se firmar como um partido nacional. Essa situação só começou a mudar em 2013, quando o partido se tornou o terceiro maior da Assembleia Nacional.

Mesmo assim, a vitória do esportista, visto por adversários como incapaz de transformar sua popularidade em votos, surpreendeu, já que ele passou a maior parte da sua carreira política às margens do poder.

26.jul.1996 - Imran Khan, futuro premiê do Paquistão, com sua então esposa Jemima Goldsmith em Londres; casal era alvo dos tabloides britânicos - AP Photo/Max Nash - AP Photo/Max Nash
26.jul.1996 - Khan com sua ex-esposa Jemima Goldsmith em Londres; casal era alvo dos tabloides
Imagem: AP Photo/Max Nash

Khan começou sua carreira no críquete em 1971 e quando se aposentou, 20 anos mais tarde, era visto como um dos melhores da sua posição. Ele retornou da aposentadoria para comandar a seleção vitoriosa de 1992 e é até hoje chamado de "capitão" no país.

Filho de um engenheiro civil, Khan nasceu e cresceu num bairro relativamente rico de Lahore, a segunda maior cidade do Paquistão. Ele recebeu uma boa educação, tanto na sua cidade natal como, mais tarde, em Worcester, na Inglaterra. Foi lá que o seu talento para o críquete aflorou.

Mais tarde, Khan foi estudar política e economia na Universidade de Oxford. Ele se dedicou ao esporte durante sua estada no exterior e, quando retornou ao seu país de origem, em 1976, logo passou a jogar para a seleção nacional de críquete.

Fora dos gramados, ele se tornou conhecido pela vida de playboy e pela regularidade com que frequentava a vida noturna de Londres. Casou-se em 1995, aos 42 anos, com a britânica Jemima Goldsmith, herdeira de um milionário e que então tinha 21 anos. Os nove anos do casamento renderam inúmeras histórias para tabloides ingleses e paquistaneses.

Ciente do seu passado de playboy, já como político Khan tratou de cultivar uma imagem de fiel devoto do islã, a principal religião do Paquistão. Ele fez demonstrações públicas de devoção e conquistou eleitores principalmente no norte do país, entre a população conservadora pashtun. No começo do ano, ele se casou pela terceira vez, desta vez com sua conselheira espiritual.

3.jul.2018 - Imran Khan, eleito novo primeiro-ministro do Paquistão, durante evento de campanha em Karachi - AP Photo/Shakil Adil - AP Photo/Shakil Adil
3.jul.2018 - Imran Khan durante evento de campanha em Karachi
Imagem: AP Photo/Shakil Adil

Populista e antielite

Na atual campanha, Khan conquistou os eleitores com um discurso de tons populistas, focado no combate à corrupção e ao nepotismo e na criação de empregos para os pobres, e anunciando que, em vez de morar no palácio do primeiro-ministro, a residência oficial, ele vai transformá-la num centro educacional.

Ele prometeu um "estado de bem-estar social islâmico" e atacou a "elite predatória que impede o desenvolvimento da nação", que tem 208 milhões de habitantes e uma taxa de analfabetismo superior a 40%.

O Paquistão, uma potência nuclear, enfrenta uma crise econômica que pode levar o país a solicitar um empréstimo ao FMI, apesar de o PTI não descartar pedir ajuda à China, maior aliado da nação e que o futuro premiê vê como modelo de desenvolvimento econômico.

A campanha de Khan foi recheada de ataques aos Estados Unidos e à arquirrival do Paquistão, a Índia. Mas, no seu primeiro discurso como futuro premiê, Khan amenizou o tom. Ele falou em melhorar as relações com os países vizinhos, incluindo a Índia, e defendeu uma "relação balanceada" com Washington.

O governo do presidente Donald Trump adotou uma linha dura em relação ao Paquistão, suspendendo ajuda e acusando o país de fazer muito pouco para combater o terrorismo. (Com Deutsche Welle)