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Polícia tenta encobrir crime, diz reitor de universidade onde estudava brasileira morta na Nicarágua

A estudante de medicina Raynéia Gabrielle Lima, que foi morta a tiros na Nicarágua - Reprodução/Facebook
A estudante de medicina Raynéia Gabrielle Lima, que foi morta a tiros na Nicarágua Imagem: Reprodução/Facebook

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

27/07/2018 04h00Atualizada em 27/07/2018 22h54

O reitor da UAM (Universidade Americana), Ernesto Medina, afirma que a polícia da Nicarágua está tentando proteger os responsáveis pela morte da estudante brasileira Raynéia Lima, de 31 anos.

Na terça-feira (24), a polícia contestou a versão de Medina sobre o assassinato da jovem, que, segundo ele, teria sido obra de paramilitares. "Tudo indica que a polícia está tentando encobrir o crime, já que não escutaram o relato da única testemunha: o namorado, que a socorreu e contou que o ataque foi promovido por três homens encapuzados fortemente armados", disse o reitor em entrevista ao UOL.

Segundo o único comunicado divulgado pela polícia, foi um segurança privado que atirou contra o carro de Raynéia. Nesta sexta, a polícia anunciou a prisão de um suspeito.

O namorado da jovem, que seguia o veículo dela e a socorreu após os tiros, até o momento não foi identificado. Ele está desaparecido. Segundo Medina, o jovem é nicaraguense e relatou que os homens que mataram Raynéia o viram. "A situação é tão complicada que a embaixada do Brasil pediu que a universidade ajude a encontrá-lo, para que possa entrar com um recurso ante organismos de direitos humanos que estão na Nicarágua para que ele seja protegido", afirmou o reitor. Procurado, o Itamaraty disse apenas que não era possível confirmar a informação.

Segundo Medina, outro sinal de que a polícia estaria acobertando os autores do crime é que o carro de Raynéia foi removido do local do ataque. "A jovem chegou ao hospital sem documentos. Um dos estudantes que a atendeu na emergência afirmou que parentes do namorado foram até o veículo para buscar os documentos e o carro não estava mais lá", relata Medina.

Outro ponto citado pelo reitor são os ferimentos da jovem. Segundo alunos residentes que atenderam Raynéia no hospital e um professor da universidade que integrava a equipe da emergência quando a brasileira foi socorrida, ela foi atingida por um tiro "de uma arma de grosso calibre, de uma arma de guerra". "A polícia diz que foi um guarda de segurança privada, mas guardas normalmente usam pistolas ou revólveres, e não armamentos de guerra", afirma.

A nota publicada pelo IML (Instituto de Medicina Legal) de Manágua afirma a causa da morte foi "ferida por projétil de arma de fogo no tórax e abdome", sem dar mais detalhes sobre o tipo de arma ou a quantidade de tiros que a atingiram.

Raynéia, de acordo com Medina, foi reconhecida por colegas do curso de medicina assim que chegou à emergência com o namorado. Ela estava consciente e teria respondido que estava sem os documentos. Foram estes alunos que avisaram o reitor do caso e, depois, da morte da jovem, por volta da 1h da terça-feira (24).

Ernesto Medina, reitor da Universidade Americana (UAM) na Nicarágua - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Imagem: Reprodução/Facebook
Ainda na tarde de terça, tanto os alunos que socorreram a jovem quanto o namorado que testemunhou o crime se reuniram com o reitor. "Eles queriam estar juntos, falar, compartilhar as experiências. O namorado nos disse: 'Quero dizer a verdade sobre o que aconteceu porque o comunicado da polícia não está certo. O que queremos agora é que a justiça seja feita'", conta Medina.

Com base nos relatos que ouviu, o reitor diz que a Raynéia e o namorado estiveram na festa de despedida de uma brasileira e que deixaram o local por volta das 23h do horário local. "Nessa hora, ninguém mais está na rua, há uma espécie de toque de recolher."

A jovem ia para casa dirigindo o seu veículo sozinha e era seguida pelo namorado. Quando passavam pelo bairro Lomas de Montserrat, ela foi atingida por disparos.

"Este bairro nobre fica a menos de 1 km da maior universidade de Manágua, a Universidade Nacional, que foi ocupada por estudantes por um período durante os protestos. Os paramilitares que atacaram os alunos se concentravam em Lomas de Montserrat para orquestrar seus ataques contra o grupo e acabaram mantendo presença no lugar. Ali também vivem altos funcionários do governo do presidente Daniel Ortega", diz.

De acordo com o relato do namorado, citado por Medina, três homens fortemente armados e encapuzados tentaram parar o veículo. "O que supomos é que ela ficou nervosa, não parou o carro e foi baleada dentro do carro. Dizem que foram feitos vários disparos, mas funcionários da embaixada brasileira afirmam que o veículo só tinha uma marca de bala."

A estudante então perdeu o controle do carro e bateu em um muro. "Os três viram que ele a socorreu, mas não fizeram nada com ele, deram a volta e foram embora. O namorado a tirou do veículo, a colocou no carro dele e correu para o hospital. O que sabemos é que ela morreu com um tiro no peito, que afetou coração, diafragma e fígado."

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"Creio que este comunicado da polícia pretende reforçar que foi um acidente lamentável de um guarda de segurança que disparou, mas a verdade é que um grupo armado encapuzado apareceu na rua e abriu fogo contra uma mulher que estava sozinha em um veículo, que não estava armada, que não ameaçava ninguém", afirma Medina.

"Dizem que era um segurança privado, mas não dizem o nome dele, o que estava fazendo, de qual casa estava cuidando, quem era o dono da propriedade", diz. Raynéia foi morta nos arredores da casa de Francisco López, tesoureiro da FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional), de Ortega.

O que aconteceu com esta jovem desgraçadamente não é a exceção

Ernesto Medina, reitor de universidade onde estudava brasileira

Três dias após a morte da jovem, o Itamaraty afirma que sua posição oficial segue a mesma: "O governo brasileiro exorta as autoridades nicaraguenses a envidarem todos os esforços necessários para identificar e punir os responsáveis pelo ato criminoso". A embaixada do Brasil na Nicarágua não recomenda a viagem de brasileiros para o país.

Na Nicarágua, os paramilitares funcionam como um braço armado do governo de Ortega e circulam livremente com a conivência da polícia. Ambos atuam no combate aos protestos contra o presidente, que já deixaram 448 mortos em cem dias de manifestações duramente reprimidas.

Raynéia Gabrielle Lima1 - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Imagem: Reprodução/Facebook
  "O que aconteceu com esta jovem desgraçadamente não é a exceção. Isso é comum e vai continuar acontecendo enquanto este grupo criminoso seguir circulando livremente, com a proteção do governo e da polícia", afirma Medina. 

Ex-militante sandinista, Medina deixou a militância em 1994, quando foi eleito reitor de outra universidade, a Nacional, e já não concordava com os rumos da revolução de Ortega.

Hoje, afirma que, como professor e reitor, sente muito orgulho dos alunos envolvidos na luta contra Ortega. "Acabei envolvido nisso de novo aos 65 anos. Hoje sou um avô, queria me dedicar aos meus netos, mas não posso deixar de ver o que estão fazendo com os meus alunos, os criminalizando, os acusando de terrorismo. Cheguei a ser ameaçado quando publiquei uma carta pública dizendo que era preciso acabar com a matança e pedindo provas contra os estudantes", relata.

"Tento me cuidar, mas não ando armado e não tenho guarda-costas. Sou só um professor universitário de 65 anos. Se algo me acontecer, todo mundo vai saber quem é o responsável. Mas estou consciente de que a situação é bem delicada", afirma.