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Por que os EUA não tratam a Coreia do Norte como uma potência nuclear

Kim Jong-un e Donald Trump devem se reencontrar em breve - Susan Walsh/AP
Kim Jong-un e Donald Trump devem se reencontrar em breve Imagem: Susan Walsh/AP

Foster Klug

Da Associated Press

30/09/2018 04h01

Donald Trump e Kim Jong-un estão prestes a realizar uma segunda cúpula para discutir a diplomacia nuclear, uma questão crucial, mas frequentemente negligenciada, surge com força: a Coreia do Norte é realmente uma potência nuclear?

Kim e seus especialistas de propaganda certamente dizem que sim. E a maioria dos observadores casuais, depois de assistir aos testes de armamentos cada vez mais poderosos realizados no ano passado, provavelmente concordaria.

Mas Washington sempre se recusou a aceitar isso como fato. É preocupante que a posição americana permita que Pyongyang siga o caminho de Índia e do Paquistão e um punhado de outros países que construíram programas nucleares ilícitos fora do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que visa impedir a disseminação de armas nucleares.

Moon Jae-in, o presidente sul-coreano cuja incansável diplomacia tornou possível a segunda cúpula entre Trump e Kim, está trabalhando nesta semana para explicar os resultados de sua recente reunião com o líder norte-coreano para o presidente americano e outros líderes mundiais presentes na Assembleia Geral da ONU.

Ao mesmo tempo, existe o debate sobre se tratar a Coreia do Norte como uma potência nuclear de fato poderia influenciar a frágil diplomacia ou poderia fazer o nordeste da Ásia retornar às ameaças de ataques nucleares que muitos temiam no ano passado.

O estado técnico do programa nuclear da Coreia do Norte é pouco claro, mas especialistas acreditam que Pyongyang provavelmente poderá armar seus mísseis de curto e médio alcance com ogivas nucleares. No entanto, sua capacidade de disparar com precisão mísseis nucleares de longo alcance em alvos no continente americano --a referência para qualquer arsenal nuclear viável-- provavelmente não foi aperfeiçoada.

Apesar das incertezas, argumentam alguns, a Coreia do Norte é uma potência nuclear que nunca renunciará a suas bombas.

Esses especialistas dizem que Kim estudou as invasões do Iraque e do Afeganistão e assistiu ao destino do ex-líder líbio Muammar Gaddafi, que foi elogiado por autoridades norte-americanas por desistir de seu programa de desenvolvimento nuclear em 2003 antes de ser morto em 2011 durante uma revolução. Eles dizem que o Norte nunca abandonará as armas que são a única maneira de garantir que a dinastia da família Kim viva.

Kim "presume que nenhuma grande potência arriscará atacar um Estado nuclear ou colocar a mão em seu conflito interno", segundo Andrei Lankov, especialista em Coreia do Norte da Universidade Kookmin, em Seul.

“E assim os líderes norte-coreanos estão determinados a manter seu desenvolvimento nuclear e consideram as armas nucleares como a principal garantia de sua segurança. Não há nenhuma forma de pressão que possa convencê-los a desistir disso, nenhuma promessa que os seduza em concordar. Eles acreditam que sem armas nucleares, eles serão tão bons quanto se estivessem mortos”.

Aceitar a Coreia do Norte pelo que ela é poderia, então, permitir que os negociadores pressionem por um congelamento, uma desistência ou uma proibição permanente dos testes.

Mas e o velho sonho que guiou tantos negociadores norte-americanos com a intenção de fazer o Norte abandonar todas as suas armas nucleares? Não vai acontecer, pelo menos não no cenário atual.

"É possível administrar o programa nuclear e colocar algum limite em seu desenvolvimento, desde que a família Kim ainda sinta que tem o valor dissuasivo de que precisa", escreveu Lankov, embora tenha acrescentado que a Coreia do Norte "espera concessões generosas para qualquer tipo congelamento e, mesmo assim, pode não cumprir o prometido."

Na próxima reunião de cúpula esperada entre Trump e Kim, eles provavelmente se concentrarão na demanda da Coreia do Norte por uma declaração formal que encerre a Guerra da Coreia, que, tecnicamente, ainda existe. Washington quer que Pyongyang liste o conteúdo de seu programa nuclear --amplamente visto como o primeiro passo para demonstrar uma verdadeira disposição para se desarmar-- antes da declaração do fim da Guerra da Coreia.

Mesmo dentro da administração Trump, no entanto, há "uma visão profundamente cética sobre a possibilidade de alcançar a desnuclearização final e totalmente comprovada da Coreia do Norte", que é a principal meta dos EUA. É o que Daniel Sneider, especialista em política internacional da Universidade de Stanford, que recentemente se reuniu com altos funcionários do governo que lidam com a Coreia do Norte, escreveu no mês passado.

“A única exceção possível”, escreveu ele, “é o próprio presidente”.

Washington sempre se recusou a dar à Coreia do Norte o título de potência nuclear. Qualquer diplomacia, disseram várias fontes do governo dos EUA, deve ter como fim final o total abandono de todas as bombas norte-coreanas. Isso significa tratar o programa nuclear do Norte como temporário, não permanente.

Trump deve declarar que Washington não assinará um tratado de paz com uma Coreia do Norte armada com armas nucleares e não apoiará o fim da declaração da Guerra da Coréia até Pyongyang tomar medidas significativas de desarmamento, segundo Evans Revere, ex-especialista em Ásia do Departamento de Estado dos EUA.

"O presidente deve declarar publicamente que o objetivo dos EUA é, e deve continuar sendo, o fim do programa de armas nucleares da Coreia do Norte", escreveu Revere. E que não deve cair na armadilha da Coreia do Norte de tentar "atrair Washington para uma negociação sem fim sobre o controle de armas, legitimando assim a posse de armas nucleares por parte de Pyongyang”.

A aceitação da Coreia do Norte como um Estado nuclear também poderia abalar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear de décadas e desencadear uma corrida armamentista nuclear no nordeste da Ásia, levando muitos em Seul e Tóquio a questionarem a garantia americana de proteger seus aliados.

A Coreia do Sul pode achar politicamente impossível aceitar a Coreia do Norte como um Estado nuclear depois de décadas de animosidade e derramamento de sangue, disse Cheon Seong-whun, ex-secretário presidencial durante o governo conservador na Coreia do Sul.

Se a atual rodada de diplomacia nuclear falhar, Seul e Washington devem desenvolver estratégias para administrar a ameaça enquanto buscam a desnuclearização como uma meta de longo prazo, disse Cheon.

Isso incluem sanções reforçadas e esforços mais intensos da Coreia do Sul para minar a liderança de Kim, como, por exemplo, aumentar o acesso do povo norte-coreano a informações externas.

Os aliados também deveriam considerar a possibilidade de trazer de volta as armas nucleares táticas que os Estados Unidos retiraram da Coreia do Sul nos anos 90 para aumentar a pressão sobre o Norte e criar condições para o desarmamento nuclear mútuo, disse Cheon.

“A Coreia do Sul não pode travar uma guerra com o Norte para eliminar suas armas nucleares. Também não pode render seu Estado ao Norte”, disse Cheon. "Teremos de aprender a enfrentar e administrar a ameaça das armas nucleares da Coreia do Norte durante um longo período de tempo".